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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

30
Mar20

“A Peste”, Albert Camus

Sofia

De facto, ouvindo os gritos de alegria que cresciam na cidade, Rieux recordou-se de que essa alegria estava ameaçada para sempre. Porque ele sabia o que essa multidão em alegria ignorava e que pode ser lido nos livros, que o bacilo da praga nunca morre nem desaparece, que pode permanecer adormecido por décadas em móveis e têxteis, que ele aguarda pacientemente em quartos, caves, malas, lenços e papeladas e que, talvez chegue o dia em que, para infortúnio e educação dos homens, a praga desperte os seus ratos e os envie para morrer numa cidade feliz.

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Não vou fingir que vos venho falar deste livro em particular por alguma razão que não a situação atual que todos vivemos. A Peste estava na minha lista há algum tempo, sobretudo porque gosto muito de Camus. Lembro-me que quando li O Mito de Sísifo — que foi o último livro do autor que li — era para ter lido antes este. Depois foi passando e, não fosse o que se está a passar agora, não me parece que me tivesse lembrado tão cedo. Mas ainda bem que me lembrei.

 

A Peste (1947), que recentemente e pelas piores razões se tornou um bestseller, tem uma história que agora e infelizmente é bastante conhecida. Segue a cidade francesa de Oran que é assolada pela peste. Tudo começa quando inúmeros ratos começam a morrer pelas ruas da cidade e, daí até que a população comece a ser afetada pela peste é um instante. A obra foca-se muito na forma como a população lida com esta situação, coletivamente e individualmente.

Talvez comece por falar de aspetos mais práticos. A peste atacou, as pessoas tiveram de se isolar, os militares tiveram de intervir, a quantidade de funerais aumentou exponencialmente, famílias foram desfeitas e relacionamentos destruídos, a peste não discriminou entre novos ou velhos, pobres ou ricos. E depois desapareceu. E todos ficaram felizes e tudo voltou ao normal e foi como se aquele período de tempo não tivesse ocorrido. A citação que escolhi para o início deste post é a última da obra e é uma das minhas preferidas e discorre sobre isso mesmo. E, sobretudo, alerta para esse aspeto extraordinariamente importante: a felicidade com o abandonar da peste será tão fugaz como ela porque o fenómeno é cíclico e talvez não aconteça em 100 anos e depois aconteça outra vez, ninguém sabe.

E o quão interessante é ver que, não interessa em que época aconteça, acontece do mesmo modo. Só mudam as pessoas, embora nunca as suas reações. A Peste explora muito esse aspeto, como é que as pessoas reagem perante o impensável. E temos de tudo: umas tentam fugir e são detidas, outras quebram regras e são detidas, umas aproveitam a desgraça para tentar lucrar, outras para tentar ser os novos heróis, umas definham fisicamente, outras emocionalmente. E no fim, nunca foi só uma batalha do individuo, mas do coletivo. E mais significativo do que a reação única é a reação geral.

Não faço ideia quantas pessoas já discutiram, escreveram ou falaram sobre esta obra nas últimas semanas. Realmente, as semelhanças são perturbadoras. Mas ainda mais perturbador é pensar que nunca considerámos que um evento cíclico que se repetiu em diversos períodos históricos não nos tocaria a nós, tão evoluídos e ocidentais. E talvez eu gostasse de falar desse aspeto em A Peste porque, de facto, aquilo de que mais gostei foi de ler e pensar sobre as diversas reações das pessoas a um acontecimento para o qual não só não estavam preparadas como nunca consideraram que pudesse acontecer. Temos, como tem sido provado, as reações mais diversas e extraordinárias. E, para mim, o aspeto mais interessante da obra é esse. Nunca pensamos que pode ser connosco até ser.

Por fim, partilho convosco que, segundo o que pude ler, a obra poderá ter sido inspirada em eventos reais. Oran terá mesmo sido uma cidade fustigada pela peste por mais do que uma ocasião, embora em dimensões muito inferiores às narradas aqui. Além disso, a vertente alegórica é explicita e bem conhecida, por isso não me vou alongar sobre isso, mas gostava novamente de sublinhar a componente filosófica de que também vos falei quando vos escrevi sobre O Mito de Sísifo. A Peste também é considerada uma obra existencialista e, a noção filosófica do “absurdo” que também encontramos em outras obras do autor é evidente. Como é que o Homem reage quando colocado numa situação que nunca pensou vir a viver?

Como podem calcular, gostei imenso da obra. Fez-me lembrar também O Estrangeiro, que foi a primeira obra que li de Camus e a qual me impressionou muito na altura. Tenho pena de não ter lido A Peste antes e ainda mais de a ter lido pelas razões que li. Mas, como disse, ainda bem que o fiz. Sei que, provavelmente, o facto de ser tão fácil agora identificar a nossa situação com a história faz com que gostemos mais da obra, mas simultaneamente há muito mais do que isso. É uma obra tão completa. É muito mais do que apenas uma história sobre a peste, relaciona-se muito com a nossa natureza, com o modo como respondemos ao que nos acontece, como agimos e como sentimos. E sobretudo, existe a reflexão que a obra desperta em nós e que é tão única e importante. A obra está traduzida em português e a versão em francês que eu utilizei está também em todo o lado, se estiverem interessados. Se calhar já leram, mas se não leram, recomendo muito. E se leram, o que acharam?

 

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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