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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

07
Set20

“Boas Esposas”, Louisa May Alcott

Sofia

Estes nossos corações são coisas curiosas e contraditórias e, o tempo e a natureza levam a sua avante independentemente de nós.

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Creio que grande parte de vós ouviram, nos últimos tempos, falar desta autora e da sua obra Mulherzinhas, nem que seja em virtude da adaptação cinematográfica mais recente e muito popular. Boas Esposas é uma sequela dessa obra. Na verdade, na altura em que foram publicadas, as duas eram uma só, apenas divididas em primeiro e segundo volumes. No entanto, provavelmente por influência britânica - já que em Inglaterra as obras foram publicadas separadas - circulam com frequência isoladamente e não em conjunto ou em volumes. Eu li Mulherzinhas quando era muito mais nova mas nunca li, ou soube na altura da existência de Boas Esposas. Quando vim a saber já não tinha grande entusiasmo. Apenas recentemente, em consequência da projeção mediática da adaptação cinematográfica, me recordei de Mulherzinhas e da existência de Boas Esposas. Antes que me passasse novamente o entusiasmo, decidi que era desta que lia esta sequela!

 

Como vos disse, Boas Esposas é uma sequela de Mulherzinhas. Para quem não conhece Mulherzinhas, a obra narra a história das quatro irmãs March – Meg, Jo, Beth e Amy. Muito no género bildungsroman, é narrado o desenvolvimento e a evolução pessoal e social das quatro irmãs, acompanhando o leitor fases específicas do seu quotidiano e do seu amadurecimento, tais como as relações familiares, as amizades e os relacionamentos amorosos. Boas Esposas, como o título indica, foca-se muito mais nesse último aspeto – os relacionamentos amorosos - e ilustra como ao seu modo, cada uma encontra o seu lugar no mundo e realiza as suas aspirações.

Em relação a esta obra gostaria apenas de abordar uma questão que surge agora com frequência em relação a estas composições. Justamente esta semana via alguém comentar (não por estas palavras mas o sentido era este) que estas obras estão desatualizadas e que, portanto, as pessoas não as deveriam ler ou pelo menos não deveriam gostar tanto delas e incentivar a atenção a elas conferidas. E a pessoa em questão dava vários exemplos de passagens destas obras que a seu ver provavam que elas não são adequadas às mulheres de hoje ou que passam ideias erradas em relação àquilo que uma mulher deve ou não aceitar. O que de certo modo vai contra a opinião de um outro grupo de pessoas que as encara como inspiradoras e inovadoras.

Ora a mim, pessoalmente, tais opiniões irritam bastante. Por duas razões. Primeiro porque a meu ver uma obra de arte é antes de mais um objeto estético e, portanto, mesmo que queiramos projetar ou projetemos consciente ou inconscientemente nela ideias, pensamentos ou experiências pessoais, isso não quer dizer que isso seja legítimo ou correto; segundo porque, creio que, mesmo assumindo que lemos ou observamos algo e o interpretamos de forma pessoal, não nos podemos esquecer que, em obras escritas há muitos anos, séculos até, as conceções, pensamentos, morais, etc, eram diferentes e que, portanto, opiniões destas são sempre redutoras e vãs. Está claro que as aspirações das mulheres do século XIX eram diferentes das nossas, como o que era esperado delas o era. São tempos diferentes, não poderia ser de outro modo. O quão errado e absurdo serão as coisas que hoje produzimos aos olhos das pessoas que as observarão no futuro!

O que não é nada diferente - mas se quisermos olhar para estas obras de modo pessoal, até é pedagógico - é notar como as irmãs March superaram as adversidades do seu tempo e as desafiaram. Mas não devemos esquecer nunca o seu contexto especifico. Não acho nunca uma boa ideia condenar uma obra só porque o seu contexto já não é válido, do mesmo modo que não acho prudente glorificá-la só porque, por acaso, passa uma mensagem adaptável e conveniente à nossa época.

Em outro contexto, confesso que não vi a adaptação cinematográfica. Apesar de ter ouvido dizer muito bem dela, tenho medo de me desapontar! Porém, pelo que percebi, a adaptação engloba as duas obras e não apenas o primeiro volume. Alguém me disse que considerava que se focava até mais em Boas Esposas do que propriamente em Mulherzinhas. Estou a tentar converncer-me a ver!

Para ler Boas Esposas acabei por comprar uma edição no original em inglês que contém igualmente Mulherzinhas (à qual não resisti e reli!). Sei que existe uma tradução para o português de Boas Esposas, como existe de Mulherzinhas – volumes independentes – para o caso de quererem ler e preferirem a tradução. Edições em inglês encontram-se também com muita facilidade e são várias.

Quais são as vossas impressões de Boas Esposas? Ou de Mulherzinhas? Tiveram a oportunidade de ler? E que me dizem da adaptação cinematográfica mais recente?

 

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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