urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennetA Outra Menina BennetSofiaLiveJournal / SAPO BlogsSofia2020-09-27T13:24:38Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:416762020-09-28T09:00:00“A Leste do Paraíso”, John Steinbeck2020-09-27T13:22:48Z2020-09-27T13:24:38Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Apenas temos uma história. Todos os romances, toda a poesia, tudo é construído sob o conflito interminável entre bem e mal. E ocorre-me que o mal deve constantemente repetir-se, ao passo que o bem, que a virtude, é imortal. O vício tem sempre uma cara nova e fresca, enquanto que a virtude é venerável como nada mais no mundo o é.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 134px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="812SQ6XS5-L.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0917f8a6/21912340_eyhZB.jpeg" alt="812SQ6XS5-L.jpg" width="469" height="198" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Há uns meses escrevi-vos sobre as minhas impressões sobre <em>As Vinhas da Ira</em> de John Steinbeck. Na mesma altura comprei <em>A Leste do Paraíso</em>. Antes disso, como vos referi naquela altura, apenas tinha lido, deste autor, <em>O Inverno do Nosso Descontentamento</em>, uma obra da qual gostei especialmente. Em relação a <em>As Vinhas da Ira</em> não senti o mesmo entusiasmo, embora tivesse igualmente gostado. Como resultado destas duas experiência comecei a ler <em>A Leste do Paraíso</em> desprovida de especiais espectativas</span></p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Situada historicamente na América da Grande Depressão, <em>A Leste do Paraíso</em> segue duas gerações de duas famílias — os Trask e os Hamilton. O foco é essencialmente a família Trask que conhecemos inicialmente através dos dois irmãos Charles e Adam e, mais tarde, da relação entre os filhos de Adam, Cal e Aron. Ao mesmo tempo, a narrativa abrange também a trágica e impressionante história de Cath, mãe de Cal e Aron. Os Hamilton são sobretudo representados pela figura de Samuel que, ao longo da narrativa, assume o papel de amigo e conselheiro de Adam. É importante especificar que <em>A Leste do Paraíso</em> pretende englobar a história bíblica de Adão e Eva e, sobretudo, de Abel e Caim, reescritas nestas duas gerações de famílias. Daí que a narrativa dependa muito da relação entre Charles e Adam e entre Cal e Aron.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">São os detalhes que ligam a história de Steinbeck à história bíblica seguida. Não é que não possamos ler <em>A Leste do Paraíso </em>não a conhecendo — podemos —, mas perdemos algo. Existem tantas ligações interessantes. Por exemplo, os diferendos entre as duas gerações de irmãos Trask. Tanto Charles e Adam como depois Cal e Aron tem relações conflituosas; nos dois casos, um tenta ferir o outro, à semelhança do crime que marca a história de Abel e Cain; nos dois casos essa situação resulta do sentimento de rejeição paterna que um dos irmãos sente ao ver o pai preferir um ao outro; existe em <em>A Leste do Paraíso</em> a repetição do motivo bíblico quando o principal ato de ofensa de um irmão em relação ao outro resulta da preferência do pai pelo presente que um lhe oferece em relação aquele que lhe é oferecido pelo outro; além disso um dos irmãos surge sempre retratado como mais amável e socialmente preferido em relação ao outro sempre retratado como mais marginal e individualista. Ademais, é também pertinente notar a relação de Charles e Adam com Cath. Ora Cath teve uma breve ligação com Charles já depois de casada com Adam e, considerando que Abel não teve filhos, não é errado assumir que os gémeos que Adam assume como seus filhos são, em verdade, filhos de Charles, um detalhe muito interessante. Tal como a preocupação em corresponder as iniciais dos nomes dos irmãos aos personagens bíblicos correspondentes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Muito pertinente é também a figura de Cath. Conhecemo-la ainda pequena e desde logo não podemos deixar de ficar surpreendidos com a sua inerente maldade. À medida que os seus crimes, as suas ações e a sua falta de consciência e responsabilidade em relação às mesmas nos vão sendo ilustradas, não deixamos de nos espantar e, simultaneamente, fascinar. Porque algo que não deixou de me impressionar foi o quão fascinante é a maldade de Cath e a sua amoralidade. Não me parece que haja um crime que Cath não tenha cometido. O que a diferencia de Charles e de Cal é não parecer existir uma justificação clara para o comportamento ou para a maldade de Cath. E o que acho interessante é que, realmente, não tem de haver.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim e em relação a este aspeto, gostaria de destacar uma passagem da obra que me impressionou bastante. Samuel questiona acerca da importância e do impacto precisamente da história de Cain e Abel e chega à conclusão de que, sinteticamente, esta advém do facto de esta história melhor exemplificar o tormento da existência e origem da ação humana — a rejeição por um lado e a culpa por outro. É uma passagem relativamente pequena, mas que vale pelas mais de 600 páginas da obra. É lindíssima e não podemos deixar de entender como realmente é certeira. Simultaneamente, desvenda-nos a história da obra e a importância e a justificação para a presença da referência bíblica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quando lemos várias obras de um mesmo autor, acaba por ser inevitável, ainda que involuntariamente, não as compararmos. <em>A Leste do Paraíso</em> tornou-se a minha obra preferida de Steinbeck. É muito cativante sob diferentes pontos de vista e, ainda que semelhante em alguns aspetos a pelos menos as outras duas obras que li do autor, acaba por ser diferente de ambas num aspeto muito específico. Se naquelas obras é evidente uma crítica social e política que talvez surja muitas vezes como enunciada enquanto principal finalidade das obras, em <em>A Leste do Paraíso</em>, não notei tanto essa intenção. É evidente que essa crítica existe, mas penso que esta obra em especial depende mais do paralelo com as histórias bíblicas e se torna muito interessante pela crítica e, ao mesmo tempo, apologia à natureza humana, à moralidade, aos costumes, etc. <em>A Leste do Paraíso</em>, a meu ver, preocupa-se muito mais com o individuo, com a sua incapacidade em contornar a sua natureza, com a sua consciência de que o deve fazer e com a sua frustração ao ver-se incapacitado para o fazer, do que propriamente com a sociedade. Não esquecendo, contudo, o impacto individual no coletivo que está sempre subjacente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta preocupação em retratar a natureza humana e o peso dela no individuo, bem como o modo como esta é modelada pela moral, pela ética e pelos costumes e tradições que fomos construindo enquanto civilizações, assim como a explicação desta realidade através do recurso às histórias bíblicas, foram definitivamente o ponto mais forte da obra para mim e o aspeto que mais me cativou. Claro que as histórias dos protagonistas acabam por contribuir também a um nível mais superficial, mas creio que a maior valência da obra é genuinamente o seu cruo e certeiro retrato da nossa condição. Não podia recomendar mais esta leitura!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já leram <em>A Leste do Paraíso</em>? Qual a vossa impressão desta obra?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:409832020-09-21T09:00:00“Ethan Frome”, Edith Wharton2020-09-19T19:54:38Z2020-09-19T19:54:38Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">O regresso à realidade foi tão doloroso quanto o regresso à consciência depois de uma anestesia.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/41+MO6xOLmL._SX318_BO1,204,203,200_.jpg" alt="Ethan Frome (Wordsworth Classics): Amazon.co.uk: Wharton, Edith, Knights, Dr Pamela, Carabine, Dr Keith: 9781840224085: Books" width="97" height="151" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nunca tinha lido nenhuma obra de Edith Wharton além de <em>A Idade da Inocência</em>, provavelmente um dos meus livros preferidos. Decidi ler <em>Ethan Frome</em> muito por essa razão e, como me deparei há pouquíssimo tempo com a obra, decidi avançar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Ethan Frome</em> conta, do ponto de vista de um narrador na terceira pessoa, a história de Ethan Frome, envolto num triangulo amoroso entre Zeena, sua esposa, e Mattie, prima de Zeena a viver com o casal. Zeena está doente e assim se justifica a presença de Mattie na casa de Ethan e Zeena, bem como a relutância de Ethan - apaixonado por Mattie - em deixar a esposa. Mas Zeena prepara-se para mandar a prima embora, o que privará Ethan e Mattie da presença um do outro. As breves páginas desta obra ilustram o dilema de Ethan, dividido entre emoção e razão, entre aquele que é o seu dever e aquela que é a sua vontade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma das coisas que mais notei nesta obra foi, estranhamente, uma espécie de sensação de claustrofobia que ela me provocou. Penso que isto pode advir de uma dimensão de certo modo psicológica da obra. O dilema de Ethan é exposto de uma forma tal que somos levados a desenvolver empatia em relação a ele. Além disso, para este sentimento contribui o facto de que, cada vez que pensamos que este dilema está prestes a resolver-se, a bem ou a mal, surge sempre um novo obstáculo ao seu desenlace. O final da história é o melhor exemplo disso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Este fim, para mim, valeu pelo livro inteiro. Não vou dar <em>spoilers</em>, mas gostaria de dizer que penso que ele funcionou muito bem, sobretudo porque a autora resistiu a dar ao leitor aquilo que ele poderia preferir em função do mais verossímil ou do mais adequado ao texto. Acho que essa é sempre uma escolha difícil para qualquer autor. Até pela própria empatia em relação ao texto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como podem perceber, aquilo que mais apreciei foi, sem dúvida, a componente filosófica e o enredo psicológico. Mais do que qualquer aspeto técnico ou estético. Além disso, destaco ainda um certo fatalismo que torna a obra interessante e que contribui, claro, para o tal sentimento de claustrofobia que mencionei.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não posso dizer que tenha achado <em>Ethan Frome</em> uma leitura espantosa ou que tenha adorado ler a obra. Até porque, até quase ao fim, não estava muito entusiasmada ou especialmente cativada. Todavia, penso que é uma daquelas obras que às vezes gostamos mais depois de as terminarmos e quando voltamos a pensar nelas, do que propriamente quando as estamos a ler. Além disso, satisfiz a minha curiosidade de ler outra obra desta autora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sei que existe pelo menos uma tradução de <em>Ethan Frome</em> para o português. Recordo-me de já a ter visto algures numa livraria. A versão original é muito comum e conta diversas edições. O livro em si é muito pequenino e é realmente um daqueles livros que se leem num dia. Adicionalmente, lê-se muito bem pelo que, se a história vos interessar, é uma ótima opção de leitura!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já leram? Que outras obras conhecem e/ou recomendam de Edith Wharton?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:405052020-09-14T09:00:00“Finnegans Wake” – James Joyce2020-09-12T17:31:59Z2020-09-12T17:31:59Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Conheceste-me uma vez, não me conhecerás duas.</span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><img src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/41-Nyn+AOmL._SX324_BO1,204,203,200_.jpg" alt="Amazon.com: Finnegans Wake (Wordsworth Classics) (8601200711196): James Joyce: Books" width="132" height="202" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já escrevi aqui sobre <em>Ulisses</em> e, nos primeiros meses do ano, sobre <em>Dubliners</em>, ambas obras de James Joyce. <em>Ulisses </em>continua a ser para mim um dos livros mais queridos. Esta semana escrevo-vos sobre <em>Finnegans Wake</em> porque era um dos dois livros que me faltava ler de Joyce. Creio que em breve escreverei sobre o outro – <em>The Portrait of the Artist as a Young Man</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como já repararam gosto sempre de começar com um breve sumário da obra sobre a qual escrevo. Desta vez não o farei. Não porque não queira mas porque estou convencida de que é impossível. Não há forma de resumir <em>Finnegans Wake</em>, embora realmente existam algumas pessoas (poucas) que já o tentaram fazer. Todavia eu francamente não consigo e, como tal, deixarei apenas algumas impressões pessoais da minha leitura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A obra tem uma dimensão cíclica. A primeira frase e a última são uma só, ou seja, o livro começa a meio da frase que o termina e termina a meio da frase que o começa. A narrativa </span><span style="font-size: 12pt;">segue algumas personagens recorrentes - Humphrey Chimpden Earwicker (HCE), a sua esposa, Anna Livia Plurabelle (ALP) e os seus filhos Shem, Shaun e Issy. Porém, até estas são difíceis de acompanhar porque, e sobretudo HCE, estão constantemente a ser chamados por outros nomes ou por variantes dos seus nomes. No inicio há uma espécie de julgamento de HCE no qual ninguém sabe bem do que ele está a ser acusado. É um capítulo muito confuso, mas foi um dos que mais gostei e um dos poucos que consigo resumir.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Finnegans Wake</em> foi provavelmente a obra mais difícil que já li. No início e até conseguir apanhar o ritmo tive de recorrer a um <em>audiobook</em>. Foi a primeira vez que o fiz, não gosto muito. Mas até conseguir sequer ler aquele inglês (muitas vezes transcrito segundo sotaques específicos) teve mesmo de ser e nem consigo imaginar como poderia ser de outro modo. E não é só isso que dificulta a leitura. Muitas vezes surgem palavras nas mais diversas línguas e interjeições gigantes que ninguém consegue realmente ler. Não obstante, devo confessar que a obra, para mim, acaba por valer muito por esse registo. Muitas vezes pus-me a ler em voz alta, não só para perceber melhor, mas para conseguir apreciar melhor o que estava a ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não bastasse a linguagem, existem inúmeras referências históricas, culturais, religiosas, políticas e, sobretudo, literárias, que não me parece que um dia consigam sequer ser todas descobertas quanto mais enlencadas. Acho que o facto de não as conseguirmos descobrir todas também dificulta a leitura e faz com que ela pareça mais absurda do que provavelmente é. </span><span style="font-size: 12pt;">Claro que compreendo que, esteticamente, esse é um dos objetivos e aquilo que a torna tão interessante - o absurdo, o </span><em style="font-size: 12pt;">nonsense</em><span style="font-size: 12pt;">. Para mim o que é extraordinário é que alguém consiga propositadamente compor algo como </span><em style="font-size: 12pt;">Finnegans Wake</em><span style="font-size: 12pt;">.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não obstante, devo acrescentar que existem muitas passagens realmente belas e poéticas e tenho imensa pena de não conseguir entender tudo aquilo que li. Aconteceu com frequência perder-me no que estava a ler mas, lá para meio da leitura, isso deixou de me frustar. Sempre que me perdia, continuava a ler e focava-me muito no “som” da leitura, no aspeto técnico, em tudo menos na narrativa. E assim ia lendo até o meu cérebro captar outro momento de elucidação que me cativasse. Depois voltava a perder-me e começava tudo outra vez!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Foi realmente a leitura mais estranha de que me lembro. Mas exatamente por isso sei que é uma que nunca me vai sair da cabeça. No fim, acabei por aprender a gostar muito daquilo que estava a fazer e a ler. Ainda há passagens específicas e completas na minha cabeça e já passou mais de uma semana desde que acabei a leitura!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não sei se esta obra alguma vez terá sido traduzida. Até porque, no seguimento do que já disse, acho isso algo não só inconcebível como impossível. Embora fosse certamente um belo projeto. Conhecem alguma tradução? Nunca vi nenhuma, mas tenho uma vaga sensação de ter ouvido alguém mencionar uma tradução muito antiga, mas não sei se não estarei a confundir com outra obra de Joyce. Confesso que tenho bastante curiosidade em ver como seria uma tradução de <em>Finnegans Wake</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Antes de ler a obra li alguns ensaios sobre ela e a introdução que acompanha a minha edição. Todos os autores eram unanimes em relação a aspetos como a complexidade da obra, a impossibilidade de a resumir concretamente ou de a explicar sinteticamente. Não sei o que terá passado na cabeça de Joyce quando estava a escrever <em>Finnegans Wake</em>, mas o tempo que levou a escrevê-la deve ter sido um período extraordinário na vida dele. Compreendo que o autor não almejou a qualquer leitor quando escreveu esta obra e acho que isso contribui para o diálogo escritor-leitor que inevitavelmente resulta, mas o que gostava muito de saber era se a obra pode realmente ser completamente explicada. Se o autor a construiu no sentido de ela poder ser desconstruída ou se fez exatamente o oposto e criou algo que não pode ser desconstruído exatamente pela falta de sentido que não a deixa ser explicada. Provavelmente nunca vamos saber. Já leram esta obra? Qual a vossa opinião?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:399952020-09-07T09:00:00“Boas Esposas”, Louisa May Alcott2020-09-06T17:24:03Z2020-09-06T17:24:03Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Estes nossos corações são coisas curiosas e contraditórias e, o tempo e a natureza levam a sua avante independentemente de nós.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 114px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="descarregar.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B001851f7/21897147_7R7UK.jpeg" alt="descarregar.jpg" width="172" height="181" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Creio que grande parte de vós ouviram, nos últimos tempos, falar desta autora e da sua obra <em>Mulherzinhas</em>, nem que seja em virtude da adaptação cinematográfica mais recente e muito popular.<em> Boas Esposas</em> é uma sequela dessa obra. Na verdade, na altura em que foram publicadas, as duas eram uma só, apenas divididas em primeiro e segundo volumes. No entanto, provavelmente por influência britânica - já que em Inglaterra as obras foram publicadas separadas - circulam com frequência isoladamente e não em conjunto ou em volumes. Eu li <em>Mulherzinhas</em> quando era muito mais nova mas nunca li, ou soube na altura da existência de <em>Boas Esposas</em>. Quando vim a saber já não tinha grande entusiasmo. Apenas recentemente, em consequência da projeção mediática da adaptação cinematográfica, me recordei de <em>Mulherzinhas</em> e da existência de <em>Boas Esposas</em>. Antes que me passasse novamente o entusiasmo, decidi que era desta que lia esta sequela!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como vos disse, <em>Boas Esposas</em> é uma sequela de<em> Mulherzinhas</em>. Para quem não conhece <em>Mulherzinhas</em>, a obra narra a história das quatro irmãs March – Meg, Jo, Beth e Amy. Muito no género <em>bildungsroman</em>, é narrado o desenvolvimento e a evolução pessoal e social das quatro irmãs, acompanhando o leitor fases específicas do seu quotidiano e do seu amadurecimento, tais como as relações familiares, as amizades e os relacionamentos amorosos. <em>Boas Esposas</em>, como o título indica, foca-se muito mais nesse último aspeto – os relacionamentos amorosos - e ilustra como ao seu modo, cada uma encontra o seu lugar no mundo e realiza as suas aspirações.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em relação a esta obra gostaria apenas de abordar uma questão que surge agora com frequência em relação a estas composições. Justamente esta semana via alguém comentar (não por estas palavras mas o sentido era este) que estas obras estão desatualizadas e que, portanto, as pessoas não as deveriam ler ou pelo menos não deveriam gostar tanto delas e incentivar a atenção a elas conferidas. E a pessoa em questão dava vários exemplos de passagens destas obras que a seu ver provavam que elas não são adequadas às mulheres de hoje ou que passam ideias erradas em relação àquilo que uma mulher deve ou não aceitar. O que de certo modo vai contra a opinião de um outro grupo de pessoas que as encara como inspiradoras e inovadoras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ora a mim, pessoalmente, tais opiniões irritam bastante. Por duas razões. Primeiro porque a meu ver uma obra de arte é antes de mais um objeto estético e, portanto, mesmo que queiramos projetar ou projetemos consciente ou inconscientemente nela ideias, pensamentos ou experiências pessoais, isso não quer dizer que isso seja legítimo ou correto; segundo porque, creio que, mesmo assumindo que lemos ou observamos algo e o interpretamos de forma pessoal, não nos podemos esquecer que, em obras escritas há muitos anos, séculos até, as conceções, pensamentos, morais, etc, eram diferentes e que, portanto, opiniões destas são sempre redutoras e vãs. Está claro que as aspirações das mulheres do século XIX eram diferentes das nossas, como o que era esperado delas o era. São tempos diferentes, não poderia ser de outro modo. O quão errado e absurdo serão as coisas que hoje produzimos aos olhos das pessoas que as observarão no futuro!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que não é nada diferente - mas se quisermos olhar para estas obras de modo pessoal, até é pedagógico - é notar como as irmãs March superaram as adversidades do seu tempo e as desafiaram. Mas não devemos esquecer nunca o seu contexto especifico. Não acho nunca uma boa ideia condenar uma obra só porque o seu contexto já não é válido, do mesmo modo que não acho prudente glorificá-la só porque, por acaso, passa uma mensagem adaptável e conveniente à nossa época.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em outro contexto, confesso que não vi a adaptação cinematográfica. Apesar de ter ouvido dizer muito bem dela, tenho medo de me desapontar! Porém, p</span><span style="font-size: 12pt;">elo que percebi, a adaptação engloba as duas obras e não apenas o primeiro volume. Alguém me disse que considerava que se focava até mais em <em>Boas Esposas </em>do que propriamente em <em>Mulherzinhas</em>. Estou a tentar converncer-me a ver!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para ler <em>Boas Esposas</em> acabei por comprar uma edição no original em inglês que contém igualmente <em>Mulherzinhas</em> (à qual não resisti e reli!). Sei que existe uma tradução para o português de <em>Boas Esposas</em>, como existe de <em>Mulherzinhas</em> – volumes independentes – para o caso de quererem ler e preferirem a tradução. Edições em inglês encontram-se também com muita facilidade e são várias.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quais são as vossas impressões de <em>Boas Esposas</em>? Ou de <em>Mulherzinhas</em>? Tiveram a oportunidade de ler? E que me dizem da adaptação cinematográfica mais recente?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:394592020-08-31T09:00:00“Anna Christie”, Eugene O’Neill”2020-08-28T10:24:34Z2020-08-28T10:24:34Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Somos todos pobres criaturas e as coisas acontecem, acabamos por errar, apenas isso.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://kbimages1-a.akamaihd.net/63106cf4-2237-4e4c-9ecd-97ae6a7acb2a/1200/1200/False/anna-christie-19.jpg" alt="Anna Christie eBook by Eugene O'Neill | Rakuten Kobo" width="145" height="233" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A semana passada falei-vos de uma peça e esta semana escrevo-vos sobre outra peça. Desta vez (ainda) não é Shakespeare outra vez, mas sim o autor americano Eugene O’Neill e a sua peça <em>Anna Christie </em>(1921).</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Anna Christie</em> é uma peça em quatro atos que segue a protagonista Anna Christie, uma prostituta, e a sua relação com dois homens – Chris, o seu pai, e Matt, um pretendente. A peça começa quando Chris recebe uma carta da filha, não vê a filha desde a infância dela quando a deixou aos cuidados da sua família para se aventurar pelo mar, a agendar um encontro. Anna já não é nada do que Chris pensou que ela era ou seria. Antes do fim do primeiro acto Anna concorda em embarcar com o pai e, no segundo acto, em consequência de um naufrágio, conhece Matt e os dois apaixonam-se. Assim, o terceiro acto segue a disputa entre os dois homens – Chris e Matt – por Anna e pela sua atenção, enquanto que o quarto acto define o “vencedor”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No fundo a peça é sobre os tormentos desta personagem, Anna, que, abandonada pelos pais ao cuidado uma família negligente que não a amava, encontra primeiramente a exploração na profissão de enfermeira e em seguida na prostituição, até vir novamente a ser disputada por dois homens que diziam amá-la e a encarar o preconceito face às suas atividades.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Creio que o principal tema da obra é óbvio, as relações de poder e de género. Existe um discurso no inicio da peça em que Anna discorre basicamente sobre como toda a sua vida foi sendo explorada de diversos modos por diversos homens; quer pelos da sua família que a obrigaram a trabalhar, quer depois pelos seus pacientes que requeriam uma anormal atenção dela; até culminar na prostituição. Neste discurso a sua atitude e opinião face aos homens é bastante negativa e enfática.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que tem significado para mim é que, não obstante essa postura, Anna não consegue evitar criar laços com o pai e esperar que ele seja diferente. Em seguida faz o mesmo com Matt. E ainda mais interessante é notar como, de certo modo, eles mesmos não só não a respeitam enquanto entidade isolada e independente deles, como, na verdade, também a exploram, ainda que de modo diferente. A própria competição entre eles aliena completamente Anna ou a sua vontade. É uma competição entre um homem que quer casar com ela e um que não a quer deixar sair da sua vida e do seu espaço de manobra. Notar o modo como eles reagem à revelação da profissão de Anna é ainda mais interessante neste contexto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava de destacar também a importância da família e dos afetos no desenvolvimento de um ser, a nível humano mas também social. Isto porque não conseguimos deixar de nos questionar, tivesse Anna crescido com os pais e seria mais feliz? Mas a questão não é realmente essa, porque se ela crescesse com pais que não a tratassem bem poderia resultar no mesmo ou pior. A questão importante é, tivesse ela crescido com amor, ou pelo menos respeito, o seu destino seria outro? Isto faz-nos refletir sobre a importância do meio no qual crescemos e sobre o modo como somos educados. Independentemente de qualquer predisposição da nossa natureza, personalidade, etc.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, destaco o final e a visão otimista que esta peça, que parece sempre pesada de uma atmosfera negativa, consegue.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, penso que é uma peça bastante interessante. Mais pelo que representa e simboliza do que propriamente por si. Pessoalmente, gostei mais do significado da peça e da reflexão que ela suscitou do que propriamente de a ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já leram <em>Anna Christie</em>? Quais as vossas impressões?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:394222020-08-24T09:00:00“Otelo”, William Shakespeare2020-08-16T18:28:58Z2020-08-16T18:28:58Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">A reputação é uma imposição vã e falsa; frequentemente conseguida sem mérito e perdida sem justificação.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 94px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bbf184e87/21881688_TLATz.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="175" height="148" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sei que escrevo com alguma frequência sobre obras de Shakespeare aqui e que, provavelmente, deve ser o autor que mais repito. Mas nunca me canso de ler! E a totalidade da obra é tão incrivel que parece que nunca mais acabam. Lembro-me de que no ano passado falei aqui mais de comédias do que de tragédias, mas este ano parece que já vou na segunda tragédia e em nenhuma comédia. E tenho a certeza de que a próxima obra de Shakespeare sobre a qual escrevei a seguir será também uma tragédia, como <em>Otelo</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Otelo</em> (1603-4) é, como sabemos, uma tragédia sobre, sobretudo, ciúme. Otelo, o protagonista da narrativa, é um general e mouro casado com Desdemond. Esta sua esposa incorrera previamente no desagrado da família ao contrair tal matrimónio. A família de Desdemond não apoiava esta união devido às origens de Otelo. Mas, apaixonada por Otelo, Desdemond casa com ele. Este “pequeno” sacrifício não parece ser para Otelo um indicador suficientemente credível do amor e da lealdade da esposa por si. Iago, seu próximo, querendo livrar-se da concorrência do recentemente promovido Cassius, convence Otelo de que Desdemond e Cassius mantêm uma ligação romântica. Vitima do poder de sugestão de Iago, crendo nas provas forjadas por este, impulsionado pelos seus próprios instintos irracionais e sem se preocupar em aferir a veracidade do ardil de Iago, Otelo convence-se da culpabilidade de Desdemond e Cassius, mandando assim assassinar o segundo e matando ele próprio a primeira, apenas para se descobrir em seguida enganado por Iago.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Existem dois aspetos muito significativos sobre esta obra que gostava de mencionar. Na verdade acho que são sempre os mais apontados. Primeiramente, noto a importância e inovação da peça ao ter como protagonista um mouro. Aos olhos da contemporaneidade isto não parece assim tão extraordinário, mas imagine-se um herói trágico, de certo modo “romântico” <em>avant lettre</em>, a protagonizar uma peça no século XVI! E mais, casado com uma donzela de boas famílias e muito apaixonada por ele e reconhecido pelas suas virtudes pessoais e militares. Parece-me um feito arrojado e importantíssimo considerando a época de composição da obra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No entanto, talvez o aspeto que mais salta a vista ao ler a obra é a questão do ciúme. A irracionalidade da mente humana em tudo o que diz respeito a questões emocionais é realmente uma coisa extraordinária. São inúmeras as obras artísticas nos vários âmbitos nas quais o ciúme tem um papel e um destaque significativo. Talvez <em>Otelo </em>tenha sido uma das primeiras. Sobretudo considerando a dimensão e a forma que o romance ocidental posteriormente deu a este sentimento. O que também me parece aqui importante no concernente a este aspeto é a forma muito humana como a questão é tratada e a consequente capacidade que o leitor tem de se identificar e criar empatia com o tormento que <em>Otelo</em> vive e que culmina no trágico desfecho da peça. Claro que conseguimos olhar e pensar que é absurdo, mas também devemos ter a capacidade de nos colocarmos numa situação assim. E é nesse aspeto que acho que a obra está realmente bem conseguida do ponto de vista humano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na mesma linha, é impossível alguém ficar indiferente ao esquema que a cupidez de Iago o leva a conceber. E tudo por um posto mais importante. Fiquei sobretudo impressionada pelo facto de até ao fim ele nunca conceder em admitir as suas ações, em assumir a sua culpa ou em sentir arrependimento ou desconforto face aos seus actos e às consequências dos mesmos. Realmente, todos estes aspetos, tão característicos da nossa natureza humana, contribuem para acentuar a atualidade da peça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, gostava de observar que <em>Otelo </em>foi provavelmente uma das peças de Shakespeare que achei de mais fácil leitura. Provavelmente devido à história ser muito linear e não existirem narrativas adjacentes ou muitas personagens secundárias. Relembrou-me <em>Romeu e Julieta</em> nesse aspeto. Estas particularidades fazem com que seja uma peça muito fácil de seguir e, consequentemente e também em virtude do tema, muito cativante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Existem várias traduções de <em>Otelo</em> em Portugal se ficaram interessados ler, mas se puderem ler o original, é sempre preferível, sobretudo neste tipo de obras onde realmente é impossível que a tradução, por muito boa que seja, consiga manter toda a essência e originalidade da obra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já leram? Qual é a vossa opinião? Também são admiradores da obra de Shakespeare? Qual é a vossa peça ou soneto preferido?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:391472020-08-17T09:00:00“Cartas de Aniversário”, Ted Hughes2020-08-13T18:46:47Z2020-08-13T18:46:47Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Nobody wanted your dance,/ Nobody wanted your strange/ glitter, your floundering/Drowning life and your effort/ to save yourself,/Treading water, dancing the/ dark turmoil,/Looking for something to give.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 99px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.png" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5017eb88/21879657_aR3Zf.png" alt="Unknown.png" width="182" height="145" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nunca tinha lido nada de Ted Hughes mas, como muitas pessoas, gosto muito da obra daquela que foi sua esposa, Sylvia Plath. Aliás, há uns tempo lembro-me de ter falado aqui da sua obra <em>Ariel</em>. Foi através de Sylvia Plath que cheguei até Ted Hughes e decidi ler esta sua coleção de poemas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Birthday Letters</em> (1998), em Portugal a edição chama-se <em>Cartas de Aniversário</em>, é uma coleção de poemas. Estes poemas são inspirados em Plath, na sua vida e na relação do casal. As temáticas e os tons variam, claro está. Há poemas que são baseados em momentos específicos, outros que são mais subjetivos. No fundo, o molde é sempre o mesmo e cada poema funciona como uma carta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Um dos aspetos que queria destacar relaciona-se exatamente com esse aspeto. Embora muitos dos poemas estejam realmente redigidos como se direcionados a um interlocutor, como se fossem uma carta, às vezes parecem mais um diário. Uma exposição de como foi a vida conjunta do casal que, como sabemos, foi provavelmente um dos mais trágicos, senão o mais trágico, da literatura. Talvez também por isso a obra seja dedicada aos dois filhos que tiveram. Não me parece que alguém vá algum dia saber exatamente o que aconteceu realmente naquela relação, embora existam mil e uma suposições. Mas como Hughes destruiu o diário dos últimos meses de Plath, os únicos relatos que sobram são as obras de ambos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para mim, algo muito significativo nesta obra foi o facto de apresentar uma versão de Hughes. Verdadeira ou falsa pouco interessa, sinceramente. Plath é uma autora muito popular, sobretudo em função das muito conhecidas e exploradas trágicas vicissitudes da sua vida. Lemos <em>Ariel</em> e <em>The Bell Jar</em> (<em>A Campânula de Vidro</em> em traduções portuguesas) e experienciamos sempre uma mistura de sentimentos. Quando nos apercebemos do cariz autobiográfico da obra, percebemos o quão triste deve ter sido a existência dela. Neste âmbito, ler <em>Birthday Letters </em>é muito importante porque nos dá a outra perspetiva. Estar triste, estar deprimido, ter problemas emocionais é muito difícil, não está em causa, mas o quão difícil também deve ser ver alguém de quem gostamos muito assim? O quão difícil deve ser lidar com alguém que se sente desse modo? Tendemos sempre a pensar e a criar empatia com a pessoa que está mal, mas então e as pessoas que estão ali com ela? Creio que esse é o aspeto mais significativo de <em>Birthday Letters</em>, independentemente da nossa opinião em relação à responsabilidade ou não do autor na vida e nas escolhas da esposa e se considerarmos a obra de modo imparcial.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ainda em relação ao que os poemas nos dizem sobre Plath, gostava de sublinhar que nos apresentam a autora não só como autora e mulher, ou sequer como esposa, mas também enquanto filha e mãe. Uma curiosidade interessante é que, se a relação da autora com o pai é nos poemas dela vastamente abordada, aqui ocorre o mesmo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em relação aos poemas em si, não tenho uma opção de comparação. Como vos disse, nunca tinha lido nada de Ted Hughes. Não obstante, fiquei muito bem impressionada. Talvez também por me sentir próxima do tema, talvez por ter sentido alguma empatia com o autor, talvez por serem relativos a algo que foi real, talvez por gostar muito de Sylvia Plath. E talvez também por tudo isso, outros leitores possam sentir o mesmo ao ler <em>Birthday Letters</em>. Do ponto de vista formal, dos poemas enquanto poemas, não tenho muito a dizer. Pelo que li, esta coleção foi, aquando da sua publicação, considerada pela crítica como a melhor obra do autor mas, não tendo lido mais nada dele, não posso ter uma opinião própria. Existe em Portugal uma tradução da obra editada pela Relógio d’Água.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava também e por fim, de notar um outro aspeto. Como puderam observar, eu fiz uma coisa neste <em>post </em>algo injusta. Anunciava eu no título que iria escrever sobre Ted Hughes e <em>Birthday Letters</em> e pois bem, escrevi mais sobre Sylvia Plath. Podia dizer “bem, os poemas são sobre ela” ou “eu li porque sou primeiramente admiradora dela”. Mas não deixa de ser, de certo modo, algo injusto. E menciono este aspeto para notar que acho que isto é algo que deve ocorrer muito com Ted Hughes, às pessoas que o leem. Penso que podemos genericamente concordar que Plath possui atualmente uma projeção que Hughes não tem. Não estou a dizer que ele não é, ou não foi, um poeta reconhecido, porque obviamente não é o caso. Sabemos que foi um dos poetas mais célebres do século XX. Estou somente a mencionar que, neste momento, é mais fácil alguém chegar a ele via Plath do que por outra via qualquer. O que não ocorre ao contrário. Claro que a dimensão da projeção de Plath ou o impacto da romantização de que ela e a sua obra foram alvo são aspetos discutíveis. Todavia parece-me a mim muito inadequado que agora alguém faça isto que eu fiz, que é ler uma obra de Ted Hughes em função da pessoa com quem ele foi casado. Não ficaria nada incomodada se fosse só eu, mas como tentei explicar o que me impressiona é que, hoje em dia, este é um hábito comum. Mas esta é, claro está, uma opinião muito própria. Qual é a vossa? Já leram algo de Ted Hughes? Também são admiradores de Sylvia Plath? Também vos impressiona a história deste casal? Ficaram com vontade de ler <em>Birthday Letters</em>?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:387422020-08-10T09:00:00“O Conde de Monte Cristo”, Alexandre Dumas2020-08-08T19:02:45Z2020-08-08T19:02:45Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Não há felicidade ou miséria no mundo; existe apenas a comparação de um estado com outro, nada mais. Aquele que sentiu a mais profunda dor é melhor capaz de experienciar suprema felicidade. Devemos ter sentido o que é morrer (…) para que possamos apreciar as alegrias de viver. (…) até ao dia em que Deus se digne a revelar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana se resume nestas duas palavras, - espera e esperança.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 126px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="51KXqQxE+RL._SX316_BO1,204,203,200_.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1a1884d2/21876403_OjZyj.jpeg" alt="51KXqQxE+RL._SX316_BO1,204,203,200_.jpg" width="318" height="189" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Conde de Monte Cristo</em> devia ser o livro que estava na minha lista de leitura há mais tempo! Gostava de o ter lido mais cedo e, realmente, confesso que não o fiz devido, em grande parte à sua extensão que me fez sempre ir dando precedência a outras obras, de modo que fui protelando indefinidamente esta leitura. O interessante é que, não obstante a extensão da obra, acabei por a ler num instantinho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Conde de Monte Cristo </em>(1844-46), muito resumida e sinteticamente, conta a história de vingança de Edmond Dantès. No início da história, uma conspiração determina a injusta prisão do marinheiro Edmond sob a suspeita de complô bonapartista. Na prisão, apesar do isolamento a que é sujeito, conhece o abade Faria que, além de iniciar um processo de educação com Edmond, lhe revela a localização secreta de uma vasta fortuna. Quando este morre, Edmond consegue escapar da prisão. Após 14 anos de encarceramento e na posse da larga fortuna de Faria e de conhecimentos notáveis por este transmitidos, Edmond concebe um audaz plano cujo objetivo é retaliar com os três principais culpados da sua injusta prisão – Morcef, Villefort e Danglars. Assumindo diversas identidades, Edmond acaba por encontrar estes três indivíduos, agora muito bem estabelecidos na vida e na sociedade – Morcef é um importante general, Villefort é um notável procurador e Danglars é um popular banqueiro (os ofícios não são alheios à critica social da obra!) – e, com muita paciência, frieza e cinismo coloca em prática o seu plano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na verdade, a obra tem uma presença tão forte na cultura popular que quase não é preciso sumariar. Acho que também por isso a curiosidade que sentia para a ler não era tão acentuada. Porém, confesso que foi uma das leituras mais felizes dos meus últimos tempos. E acabei por demorar menos do que pensei quando olhei para o tamanho do livro e vi aquelas quase 900 páginas. É uma leitura muito cativante e fluída. Nunca deixamos de estar curiosos e, apesar dos vários nomes, personagens, das datas e dos pseudónimos do protagonista às vezes poderem confundir o leitor, o enredo acompanha-se até com bastante facilidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava de partilhar apenas dois aspetos que, pessoalmente, me parecem mais interessantes. Em primeiro lugar, claro, o contexto histórico e a sua grande importância. Não precisamos de ir ler sobre a Revolução Francesa e Bonaparte para entender a obra, mas ainda assim é importante alguma consciência em relação à época história na qual tem lugar a obra. Em segundo lugar, muito fascinada fiquei com o aspeto mais filosófico da obra. Toda a demanda de Edmond, a sua necessidade de reencontrar aquelas pessoas, o complexo desejo de vingança e o peso das consequências das nossas escolhas, a importância e a fragilidade da justiça e o valor e, sobretudo, a possibilidade de perdoar, pareceram-me importantes temas ao longo da leitura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Principalmente, muito me impressionou a imagem da resiliência e da persistência humana que a prisão de Edmond projetou e a justificação destas pelas últimas palavras que lemos dele e que denunciam a importância de esperar e de ter esperança. O quão tão impressionante é pensar que, realmente, aguentamos as provações mais adversas porque temos esperança e nos limitamos a esperar que tudo acabe por, eventualmente, ficar bem, não obstante o tempo que isso possa levar!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também gostava de notar, a título de curiosidade, que a história de Edmond em <em>O Conde de Monte Cristo </em>me recordou muito a de Jean Valjean em <em>Os Miseráveis</em> de Victor Hugo. Como sabemos, o modo como Edmond lidou com os acontecimentos que determinaram a sua vida é bastante diferente daquela de Jean Valjean, mas ainda assim as semelhanças são notórias e dei por mim muitas vezes a pensar sobre essa semelhança.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ainda acrescentava uma nota em relação às inúmeras referências a outras obras literárias (e não só!) e a acontecimentos históricos e mitológicos que vão sendo aludidos aqui e ali ao longo de toda a obra. Pessoalmente gosto muito quando isto acontece porque acabamos sempre por aprender e conhecer coisas novas à medida que vamos lendo. O que prova que a arte não é apenas entretenimento. Neste âmbito são muito importantes as notas explicativas que acompanham as edições e, tenho de dizer que, pelo menos a edição que eu utilizei está muito bem conseguida no que a esse aspeto diz respeito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A editora Relógio d’Água tem a tradução portuguesa mais atual desta obra (em dois volumes) caso estejam interessados em ler. Não sei dizer se é uma boa edição ou tradução porque não foi a que utilizei. Como não consegui encontrar a obra no original e não queria ler em dois volumes a tradução portuguesa preferi uma edição em inglês (a que está no inicio do <em>post</em>), a qual recomendo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E vocês? Já leram <em>O Conde de Monte Cristo</em>? Quais são as vossas opiniões? Já viram alguma das adaptações à televisão ou ao cinema? Tenho muita curiosidade para ver uma, mas não me consigo decidir!</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:384332020-08-03T09:00:00“As Dez Figuras Negras”, Agatha Christie2020-07-31T17:11:34Z2020-07-31T17:11:34Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Aconteceu exatamente do modo como acontecia em livros.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 147px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="500x.jpeg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3317a6ce/21871254_E9dDs.jpeg" alt="500x.jpeg" width="447" height="228" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Algumas semanas passaram desde que vos escrevi sobre<em> The Mysterious Affair at Styles</em> de Agatha Christie. Nesse <em>post</em>, algumas pessoas comentaram e sugeriram a leitura de <em>And Then There Were None</em>, em Portugal, <em>As Dez Figuras Negras</em>, da mesma autora. Os comentários nesse <em>post </em>foram mais do que suficiente para aguçar a minha curiosidade em relação a este livro e, após uma breve pesquisa sobre a história, adquiri-o e na semana passada li-o num ápice.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>As Dez Figuras Negras</em> (1939) conta a história de 8 estranhos que, a convite de um misterioso casal, se dirigem a uma pequena e isolada ilha, Soldier Island, onde são apenas recebidos por um casal de empregados. Lá, em cada quarto, encontram uma aparente lengalenga infantil, “Ten Little Soldiers”, que conta a morte de 10 soldadinhos, um a um até não restar nenhum. Na sala de estar, dez soldadinhos repousam sobre uma mesa. Lá, os 10 estranhos são primeiramente surpreendidos por uma gravação que relata supostos crimes que cada estranho, direta ou indiretamente, havia cometido. Pouco depois, os 10 convidados, um a um, começam misteriosamente a morrer. Rapidamente os convidados se apercebem de que o assassino só pode ser um deles, já que são os únicos na ilha, de que as mortes estão a acontecer como narradas na lengalenga e que, à medida que cada morte ocorre, um soldadinho estranhamente desaparece da mesa da sala de estar.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se leram o que escrevi sobre <em>The Mysterious Affair at Styles</em>, em Portugal, <em>A Primeira Investigação de Poirrot, </em>leram que previamente só tinha lido da autora <em>Um Crime no Expresso do Oriente</em>, e que achei <em>The Mysterious Affair at Styles</em> muito semelhante e pouco surpreendente. Ora, aqui tenho de dizer que fiquei agradavelmente surpreendida por notar precisamente diferenças em relação a essas obras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, gostei genuinamente muito mais desta história do que das outras. Esta é uma opinião muito pessoal, como é lógico, e vale o que vale. Porém, creio que a premissa que serve esta obra é muito mais complexa e exigente, o que a torna, consequentemente, mais interessante para o leitor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Escrevi a propósito de <em>The Mysterious Affair at Styles</em> que, como tinha lido <em>Expresso do Oriente</em> e identifiquei automaticamente em ambos a mesma estrutura e motivo, não fiquei surpreendida com a história, com o seu desenvolvimento ou desfecho. Em suma, foi uma obra previsível. Por outro lado, com <em>As Dez Figuras Negras </em>isso não só não me aconteceu, como dei por mim genuinamente interessada e entusiasmada para saber como se ia resolver a trama. Não conseguia prever nada e, como tal, a leitura foi muito mais agradável. Sobretudo para uma leitora como eu que, como vos tinha dito, não lê muitos livros deste género.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É difícil para mim ficar cativada ou interessada em livros de mistério ou crime. Porém, com <em>As Dez Figuras Negras </em>foi exatamente isso que me aconteceu. Penso que foi o livro deste género que mais gostei de ler até agora. Não penso que seja algo que vá permanecer comigo, mas foi uma leitura que me agradou imenso e aproveito para agradecer às pessoas que comentaram e ma indicaram! Espero que possa igualmente influenciar alguém com este<em> post</em> como estes leitores fizeram comigo!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Que opiniões têm sobre esta obra? Outra indicação?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:382982020-07-27T09:00:00“Spring Storm”, Tennessee Williams2020-07-24T16:43:30Z2020-07-24T16:43:30Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Quero aquilo de que tenho medo e tenho medo do que quero e, por isso, é como se tivesse uma tempestade dentro de mim que não consegue rebentar.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 128px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7d18894c/21865948_kDWjc.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="179" height="193" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Há duas semanas falei-vos de uma peça de teatro (ou melhor, duas!) de Mary Shelley. Agora, depois de Steinbeck e do longo <em>Vinhas da Ira</em>, voltei a uma peça de teatro, desta feita de um autor do qual ainda não tinha lido nenhuma obra. Na verdade, a única razão pela qual escolhi esta leitura foi exatamente essa, nunca tinha lido nada de Tennessee Williams e já me parecia uma falha! Confesso que escolhi <em>Spring Storm</em> pelo título, às vezes sou uma dessas pessoas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Spring Storm</em> (1937-8, data de composição) divide-se em três actos e segue acontecimentos da primavera de Heavenly Critchfield, Dick Miles e Arthur Shannon. Heavenly e Dick tem um relacionamento que é posto em causa pela reputação de Dick, pela oposição da família de Heavenly à relação e pela vontade de Dick em abandonar a cidade. Arthur era um antigo colega do casal que regressa à cidade tão fascinado por Heavenly quanto o estava quando tinha saído. A chegada de Arthur, um partido adequado, leva a família de Heavenly a pressioná-la no sentido de uma união com ele que a afastasse de Dick. Existe ainda Hertha, uma antiga colega dos personagens, para quem Arthur se vira quando pensa não conseguir chegar a Heavenly. Este é, sinteticamente, o</span><span style="font-size: 12pt;"> enredo principal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Porém, para mim, tudo isto é o menos interessante. Gostei especialmente do âmbito aristocrático da família Critchfield, dos preconceitos que ela simboliza e da subversão destes pelo autor. Por exemplo, encontramos a mãe e a tia de Heavenly com todos os seus moralismos, preocupações sobre a reputação da família, os seus preconceitos em relação à leviandade das jovens da cidade, etc, e depois vemos como Heavenly não se importa com nada disso. Sobretudo considerando o cariz da sua relação com Dick, enfaticamente mal visto pela sociedade da pequena cidade, e os moldes em que essa relação se desenrola, sempre com um potencial escândalo à porta. Recordo-me de uma conversa em que mãe e tia de Heavenly referem que as jovens que decidiram esperar e não casar jovens ou que fizeram uma má escolha matrimonial, estão naquele momento sozinhas e pobres, criando uma imagem de uma jovem, sentada nos degraus da escada do alpendre, eternamente à espera de um homem que possa assegurar o seu futuro. Esta imagem criada pelas personagens está presente desde então e é alimentada por diversas referências até ao final da peça. É muito importante para o seu desfecho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Existe claramente a exposição de um declínio que é acelerado pelos tempos (a peça tem ação em 1937), nomeadamente pela Grande Depressão e pelo modo como as novas gerações se afastavam das anteriores. E, como qualquer obra que lide com este tema, a classe é o tema central da obra. Igualmente, como qualquer obra americana do século XX, também <em>Spring Storm </em>reflete muito o desencantamento de um sonho não cumprido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para mim, o melhor da obra é o seu final e o modo como ele contribui para enfatizar a crítica que a história tece e subverter não apenas os preconceitos da classe, mas as crenças dos personagens e do público. A ausência de finais felizes, o modo como cada personagem acaba como que “para seu lado” e o facto de isso furar as suas próprias expectativas e as do público de então e de agora foi a parte que achei mais interessante. Estou a fazer um grande esforço para não dar <em>spoilers</em>!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Provavelmente sabem, mas a título de curiosidade, acrescento apenas que depois de acabar de ler a peça descobri que o autor a tinha escrito enquanto aluno e </span><span style="font-size: 12pt;">que <em>Spring Storm</em> não teve muita aceitação então. Aliás, a peça foi apenas representada em palco depois da morte do autor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em suma, <em>Spring Storm</em> foi uma agradável leitura. E, sobretudo, fez crescer a minha vontade de ler mais do autor. Acho que é inevitável ler <em>A Streetcar Named Desire</em> a seguir! Conheciam <em>Spring Storm</em>? Que outras obras do autor indicariam?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:380822020-07-20T09:00:00“As Vinhas da Ira”, John Steinbeck2020-07-18T09:52:01Z2020-07-18T09:52:01Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">E o pequeno facto gritante que ressoa ao longo da história: a repressão serve apenas para fortalecer e unir os reprimidos.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 142px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="download.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bdb1734fb/21861811_vDuaO.jpeg" alt="download.jpg" width="181" height="209" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A primeira obra de John Steinbeck que li foi <em>O Inverno do Nosso Descontentamento</em>. Era mais nova e não percebi grande coisa, apenas mais tarde quando me fui lembrando dela a começei a entender melhor. Foi por essa altura que pensei que tinha de ler <em>As Vinhas da Ira</em>, até por ser considerada a “grande” obra de Steinbeck.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>As Vinhas da Ira</em> (1939) localiza a sua ação em 1929 na América da Grande Depressão e conta a história de Tom Joad e da sua família numa viajem até à Califórnia em busca de trabalho numa altura em que a industrialização ameaçava as vidas que dependiam da agricultura. A narrativa começa quando Tom sai da prisão, onde tinha estado preso pelo crime de homicídio. De volta a casa em Oklahoma descobre que a sua família fora expulsa da sua casa e da sua terra - execuções de dívidas pelos bancos. Sem teto, a família, acompanhada por outras na mesma situação, decide partir para a Califórnia onde poderiam trabalhar no campo e ganhar dinheiro, ter uma casa, alimentar-se. Ao longo das quase 600 páginas é a viagem desta família que acompanhamos e, com ela, os seus infortúnios – acidentes, lutas, mortes e nascimentos. Por fim, com a chegada à Califórnia, acompanhamos a exploração destes trabalhadores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Com franqueza, mais do que da história gostei da reflexão que ela suscita. Mais do que dos longos capítulos que narram a história da família Joad, </span><span style="font-size: 12pt;">gostei dos capítulos mais pequenos que surgem a seguir a esses e que contêm uma espécie de reflexão sobre tudo o que a história implica – as diferenças sociais, o sistema capital, o “sonho americano”, a cupidez do sistema, a parcialidade da justiça, a religião, a fé, a exploração laboral, a natureza humana e o modo como tudo isto afeta o individuo, a sua vida e as suas relações pessoais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pensar que algo assim aconteceu, impressiona-me imenso. Sobretudo porque nem foi assim há tanto tempo. Se considerarmos os anos que levamos de existência social, foi há muito pouco tempo. Aliás, coisas como estas ainda ocorrem. Não sei se vos acontece, mas para mim é particularmente difícil imaginar que algo tenha um dia sido diferente do que aquilo que eu vejo agora à minha volta. E acho que é por isso que também fico tão impressionada com este tipo de história. Além disso, quando reflito sobre aquilo que tiro deste tipo obra e vejo que a maioria ainda consigo aplicar à realidade que conheço sinto uma certa estranheza e um certo desconforto, mas isso só me faz valorizar ainda mais aquilo que li.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Queria ainda notar que a expressão “vinhas da ira”, como provavelmente sabem, não é original de Steinbeck. É uma referência a “Battle Hymn of the Republic” de Julia Ward Howe que, por sua vez, refere uma expressão de uma passagem bíblica do Apocalipse (14: 19-20).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, como provavelmente também sabem, esta obra sofreu diversas acusações quando foi publicada e não foi imediatamente bem recebida. O autor foi acusado de propagandista, de exagerar a realidade, de se preocupar mais com a mensagem política do que com qualquer outra coisa, etc. Pessoalmente, acho sempre que se uma obra é alvo de muitas acusações é porque está a desagradar bastante e, se esta a desagradar anormalmente, deve ser porque está a fazer algo bem feito.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostei muito da obra. Acho que foi das que mais me impressionou este ano. Parece mais complexa do que é, justamente por ser tão crua. Como disse acima, acho que vale mais por aquilo que pretende significar e representar do que pelo modo como o faz, embora uma coisa não viva sem a outra. Sei que gostei mais do modo como a obra me fez refletir sobre estas questões do que da leitura em si. Acho que quando isso acontece, quando uma obra nos faz pensar muito sobre algo, sabemos que é boa e que deve ser lida. Talvez por isso também seja uma obra tão popular. Se não leram, recomendo-vos. Se já leram, qual a vossa opinião?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:377462020-07-13T09:00:00“Perséfone & Midas”, Mary Shelley2020-07-10T19:29:48Z2020-07-10T19:29:48Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Faremos com que o Paraíso ressoe com os nossos hinos de agradecimento.</span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><img src="https://i.gr-assets.com/images/S/compressed.photo.goodreads.com/books/1386794342l/19381011.jpg" alt="Proserpine and Midas by Mary Wollstonecraft Shelley" width="132" height="198" /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta semana venho falar-vos de um livro da autoria de Mary Shelley que contém duas adaptações de dois mitos da antiguidade clássica. Porque é que me lembrei esta semana de ler esta obra? Não faço ideia, simplesmente lembrei-me, não tive uma razão específica além de gostar muito da autora. Há pouco tempo, aliás, escrevi-vos sobre outra obra dela da qual gostei bastante, <em>Mathilda</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Perséfone & Midas</em> (1922), como <em>Mathilda</em>, também é uma peça de teatro. Aliás, divide-se em duas peças de teatro. A primeira é uma adaptação do mito de Perséfone, a segunda adapta o mito de Midas. Muito sinteticamente, para o caso de alguém não se recordar, o mito de Perséfone narra a história da jovem Perséfone que é raptada e levada para o reino dos mortos e, depois de resgatada pela mãe, passa a viver parte do ano no mundo dos vivos com a mãe e a outra metade do ano no mundo dos mortos. Já o mito de Midas conta a história do rei Midas que Apolo deixou com orelhas de burro e que pediu a Baco como desejo que tudo em que ele tocasse se transformasse em ouro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para alguém que conheça os mitos não se depara com nada de novo ao ler as peças de Mary Shelley. Para quem não conhece esta é uma boa forma de conhecer. O que mais gostei na obra é a forma como a autora conta as histórias. É evidente a influência da estética romântica que se fez sentir no século XIX e na qual Mary Shelley foi uma figura importante. Nesse âmbito, as peças são incrivelmente poéticas, com várias referências à natureza, recurso ao sentimental e inclusão de poemas (os poemas incluídos nas peças foram contributos do poeta Percey Shelley, marido da autora).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como escrevi acima, a peça <em>Perséfone </em>baseia-se no conto do rapto de Perséfone como contado por Ovídio em <em>Metamorfoses</em> que, por sua vez, se baseia no mito grego de Deméter e Perséfone. O que é novo nesta adaptação de Mary Shelley é o modo como a autora conta a história do ponto de vista das personagens femininas, dando particular destaque a Ceres, a mãe de Perséfone, ou às ninfas. Devido a este aspeto (e não só), a peça é muitas vezes alvo de uma leitura feminista.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já <em>Midas</em>, que também se baseia na versão de Ovídio, também pode ser anacronicamente lida à luz do capitalismo ou como referência ao imperialismo e à industrialização. O que também é notado é a ausência feminina na peça. Aliás, talvez isso seja parte também da crítica da peça, já que, como <em>Perséfone</em>, <em>Midas</em> também tem sido alvo de estudos de género. Recordo uma passagem da peça em que se descobre o segredo do rei Midas e ele automaticamente se convence de que foi uma mulher a responsável pela divulgação da informação ao que um cortesão replica “não há nenhuma mulher aqui”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">As duas peças são por isso muitas vezes vistas em contraste. <em>Perséfone</em> dá destaque ao lado feminino; há um clima de desalento face à interrupção da felicidade por um homem sim, mas antes do rapto de Perséfone ocorrer, o cenário é quase idílico, as personagens estão felizes, em comunidade, são solidárias umas com as outras. Em <em>Midas</em>, o destaque são os homens e aspetos negativos como a avidez, a vontade de poder, a competição, etc. Se em <em>Perséfone</em>, há um evitar da vida na corte, em <em>Midas</em>, esta é idealizada e muito valorizada. Outra coisa interessante que notei foi que as referências inúmeras a flores e outra natureza em <em>Perséfone</em> dão lugar ao destaque do ouro em <em>Midas</em>. Estes contrastes levam-me a dizer que realmente faz todo o sentido que as peças sejam publicadas em conjunto e lidas em sequência (embora não faça diferença ao entendimento se assim não for).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, sublinharia ainda em relação à primeira peça a busca por Perséfone da sua mãe e as poéticas descrições. Em relação à segunda peça, gostei sobretudo do modo como a componente moral é abordada e da forma como os infortúnios do rei Midas são descritos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, o que mais gostei nesta leitura foi do modo como as narrativas foram abordadas. O romantismo, como sabemos, dependeu muito das eras anteriores, idealizando-as e reescrevendo as suas narrativas. E esta é precisamente uma leitura romântica de narrativas de uma época passada. Além disso, conta com o tal elemento “género”, agora tão em voga. Haverá leitura mais pertinente? Para mim, este livro, estas leituras de Mary Shelley destes mitos, não valem pelos mitos em si - porque com esses nós estamos familiarizados -, mas pela forma como eles são abordados, por aquilo que estas versões nos dizem sobre o romantismo e sobre a estética romântica e pelo que nos dizem do modo como já então se encaravam e discutiam as esferas masculina e feminina. Quais são as vossas opiniões? Já leram alguma destas peças?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:374202020-07-06T09:00:00Este Lado do Paraíso - F. Scott Fitzgerald2020-07-04T11:13:32Z2020-07-04T11:13:32Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Não é a vida que é complicada, é o esforço para a conduzir e para a controlar.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 176px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="download.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6617c41f/21852892_djwUl.jpeg" alt="download.jpg" width="225" height="176" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se leram o <em>post</em><em> </em>de há umas semanas sobre <em>Terna é a Noite</em>, recordam-se de vos ter então escrito que tinha iniciado a minha missão de ler as obras que me faltavam ler de Scott Fitzgerald. Esta semana aproximo-me do objetivo escrevendo-vos sobre a primeira obra de Fitzgerald. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>This</em><em> Side </em><em>of</em><em> Paradise</em> (1920) está dividido em duas partes e acompanha o jovem Amory Blaine. Grande parte do foco da obra acaba por ser o crescimento individual de Amory, a sua educação e as suas relações amorosas. Há um grande destaque para o modo como a educação, sobretudo literária, influencia o modo de agir e pensar de Amory e a forma como ele se relaciona com aqueles que o rodeiam. Nesse âmbito, acabam por ser de significativa importância as ligações românticas que ele estabelece com algumas jovens que vai conhecendo. Aqui, cada uma delas acaba por fazer um paralelo com uma tradição especifica e, como aparecem em momentos concretos da vida de Amory, acabam por sublinhar a sua evolução. Além deste aspeto, destaque para o estatuto social e para a busca deste.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em relação ao aspeto romântico e, sem querer dar <em>spoilers</em> acidentalmente, destacaria apenas uma das jovens que cruza a vida de Amory - Rosalind. Este relacionamento, o mais sério e genuíno, parecia ser idílico, ambos reagem e consideram o fenómeno amoroso de uma forma muito semelhante e literária. No entanto, não obstante esta ser a relação mais séria e constante de Amory, </span><span style="font-size: 12pt;">não dura precisamente porque uma das partes acaba por perceber que tudo aquilo era demasiado <em>romanesco</em> para vingar no mundo real da razão e do bom-senso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Confesso que acabei por gostar mais do espaço dado às reflexões e ao crescimento pessoal e intelectual de Amory do que propriamente das linhas românticas da narrativa. Gostei sobretudo da parte final da obra. É um diálogo entre Amory e o pai de um ex-colega e é extraordinário. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como sabemos, <em>This</em><em> Side </em><em>of</em><em> Paradise </em>é popular pelo retrato da chamada <em>lost</em><em> </em><em>generation</em>. E realmente, esse é o aspeto que mais destaco. É um retrato que tanto me pareceu deslumbrante como triste, o que, creio, seria o objetivo do autor. Este retrato fez-me muito lembrar uma certa ingenuidade que todos temos a certo ponto, que nos é tão cara quando a perdemos e que provoca aquela nostalgia tão grandemente romantizada. Há uma passagem a esse propósito na obra em que Amory diz qualquer coisa como “não quero a minha inocência de volta, mas apenas a possibilidade de a voltar a perder”. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Terna é a Noite</em>, como vos escrevi anteriormente foi a última obra de Fitzgeral, já <em>Este Lado do Paraíso</em>, foi a primeira. Lembro-me de ter assinalado no <em>post</em><em> </em>relativo a <em>Terna é a Noite</em>, as semelhanças com <em>O Grande </em><em>Gatsby</em>. Agora assinalo as diferenças. <em>This</em><em> Side </em><em>of</em><em> Paradise</em> é bastante diferente das outras duas obras, e não só em termos do enredo principal. As únicas duas semelhanças são, a meu ver, a preocupação em acompanhar da evolução pessoal do protagonista e o tal <em>efeito</em> Fitzgerald de que já vos falei, aquela espécie de nostalgia glamourosa que inunda qualquer coisa que o autor escreva. De resto, são obras bastantes diferentes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostei muito de <em>This</em><em> Side </em><em>of</em><em> Paradise</em> e, claro, é inevitável não comparar, involuntariamente, esta com as outras duas obras que mencionei do autor. Creio que, muito devido o meu gosto pessoal e a uma maior facilidade de identificação, acabei por gostar desta obra de um modo diferente. Também por ela acabar por ser bastante diferente das outras duas, como vos mencionei. Sei que, como <em>Terna é a Noite</em>, <em>Este Lado do Paraíso</em> acaba por ser muitas vezes ofuscada pelo sucesso e pela popularidade de <em>O Grande </em><em>Gatsby</em>, mas é realmente uma obra extraordinária que vale muito a pena ler. E como acaba por ser diferente das outras obras, mas mesmo assim semelhante em termos de estilo, é uma escolha de leitura muito interessante e que vale francamente a pena. Já leram? Qual a vossa opinão? </span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:372012020-06-29T09:00:00“A Primeira Investigação de Poirot”, Agatha Christie 2020-06-26T12:14:40Z2020-06-26T12:14:40Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><span class="TextRun SCXW261013493 BCX4" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun SCXW261013493 BCX4">Deste demasiado espaço à tua imaginação. A imaginação é um bom ajudante e um mau mestre. A explicação mais simples é sempre a mais provável.</span></span></span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 128px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="the-mysterious-affair-at-styles-poirot.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bad177bc5/21845772_QgfdM.jpeg" alt="the-mysterious-affair-at-styles-poirot.jpg" width="469" height="185" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Acho que nunca tinha escrito aqui sobre uma obra deste género. Realmente, não costumo ler muitas histórias assim. De Agatha Christie só me lembro de ter lido <em>Um Crime no Expresso do Oriente</em> quando era mais nova. Em relação a esse, lembro-me de ter gostado muito e de ter ficado bastante impressionada com a história e, sobretudo, com o seu final, como creio que, de resto, acontece a quase toda a gente. Recentemente surgiu a oportunidade de ler esta primeira obra da autora e, confesso que já estava tão preparada para algo rebuscado ao nível <em>Expresso do Oriente</em> que acho que já comecei a ler esta obra demasiado expectante e alerta.</span></p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>A Primeira Investigação de </em><em>Poirot</em> (1920) foi o primeiro livro publicado de Agatha Christie e narra o mistério do assassinato de Mrs Inglethorp. A história centra-se num núcleo de personagens, todas potenciais suspeitas do assassinato de Mrs Inglethorp. No entanto, desde início que as suspeitas sob o seu marido são tão claras que somos levados a desconsidera-lo por ser demasiado óbvio; afinal, só o seu casamento com uma senhora tão mais velha e, coincidentemente, tão mais rica, já é suspeito. Assim há uma parte significativa da narrativa que rodeia esta suspeita. A restante narrativa dedica-se à investigação de quase todas as personagens e à sua consequente ilibação até se encontrar o culpado/a. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pessoalmente, acho que o ponto mais positivo e o mais negativo da obra são o mesmo – a verosimilhança ou a ausência dela. Sei que não é um requisito base (ou nem um requisito) neste género de ficção, mas é importante para mim que o que estou a ler possa ou pudesse realmente acontecer na vida real. E todas as reviravoltas na narrativa, todas as suspeitas, o clima de que qualquer personagem pudesse ser culpada, a imensidão de provas e o imbróglio final que desvenda o "mistério” são, para mim, tanto um factor positivo — já que realmente cativa — como negativo — caíndo por vezes no exagero. Outra coisa de que não gosto especialmente é desta associação constante de Poirot com uma espécie de génio no desvendar de crimes, quase que única e exclusivamente por uma qualquer intuição sobrenatural. Sei que é a base da obra de Agatha Christie, mas nestas duas obras que li dela, acho demasiado surrealista e, lá está, inverosímil. Sim, eu sei, “o que esperava eu ao ler estas obras”, mas mesmo assim! </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como escrevi acima, de Agatha Christie só tinha lido <em>Um Crime no Expresso do Oriente</em>, mas ao ler agora esta obra não consigo deixar de pensar que talvez já não varie muito. Não tenho conhecimento para falar em relação às restantes, mas no que concerne estas duas obras, parece que há claramente um padrão e uma fórmula comum. Não quero com isto dizer que não vale a pena ler ou que acho que sejam más obras, nem pensar. Gostei muito de ler as duas. São apenas muito semelhantes e, se fosse ler outra obra da autora (e certamente que no futuro o farei), sinto que já não vou ser surpreendida. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Acho que é justamente por este tipo de aspeto que esta obra não me impressionou tanto como <em>Expresso do Oriente</em>. Como vos disse no início, sinto que já estava de pé atrás e, por isso, embora reconheça o esforço para tornar, ao longo da narrativa, o seu desfecho o mais improvável possível, não me impressionou por aí além. Na verdade, foi exatamente esse esforço para tornar algo impossível que me fez suspeitar de que mais possível do que isso era impossível. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ainda assim, não me canso de dizer que esta leitura foi muito agradável e super bem-vinda depois das últimas obras que li. Além disso, creio que Agatha Christie é uma daquelas autoras que agrada a toda a gente, mesmo às pessoas que, como eu, não leem muito obras deste género. E não há como falhar com algo que, por norma, agrada à maioria. Qual é a vossa opinião? Gostam de histórias criminais ou de mistério? Costumam ler obras de Agatha Christie? Existe alguma em particular que recomendem? </span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:369372020-06-22T09:00:00“O Amante de Lady Chatterley”, D.H. Lawrence 2020-06-20T11:11:48Z2020-06-20T11:11:48Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">A nossa é essencialmente uma época trágica pelo que nos recusamos a levá-la tragicamente. O cataclismo ocorreu, estamos entre ruínas, começamos a construir pequenos novos habitats, a ter pequenas novas esperanças. É um trabalho árduo: não há uma estrada direta </span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">para o futuro: mas damos voltas</span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748"> </span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">ou </span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">apressamo-nos entre os obstáculos. Temos de viver, independentemente de quantos céus </span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">caíram</span></span><span class="TextRun BCX0 SCXW80032748" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun BCX0 SCXW80032748">.</span></span></span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/81BI8lfksIL.jpg" alt="Lady Chatterley's Lover (Signet Classics): Lawrence, D. H., Dyer ..." width="105" height="169" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já gostava de ter lido esta obra há mais tempo, mas apenas este ano coloquei mesmo na minha “lista”. Compreendo que é uma obra bastante popular e talvez existam mais pessoas que já a leram do que pessoas que a querem realmente ler. A popularidade precede-a. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Amante de </em><em>Lady</em><em> </em><em>Chatterley</em> (1928) relata o caso amoroso entre Connie, Lady Chatterley, e Oliver Mellors, um dos empregados do seu marido, Sir Clifford. Todavia, a obra é muito mais do que isso. <em>O Amante de </em><em>Lady</em><em> </em><em>Chatterley</em> dá uma extraordinária ênfase à diferença social entre Connie e Oliver e ao modo em como as classes definem a vida e a arbitrariedade do indivíduo. Além disso, existe ainda um foco no modo como a vida amorosa e íntima era encarada pelas elites e no modo como mulher e homem a viviam. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como se sabe, aquando da sua publicação a obra originou uma tremenda contestação, sobretudo por parte das instituições, que levou inclusive a um processo legal. Foi também censurada em imensos países durante algum tempo e, pelo que li, ainda não se pode ler em países com a China. Como vemos, a censura sempre existiu e, como vimos nos últimos dias, toda a nossa evolução intelectual e humanista, não a impede de existir ainda. De facto, enquando lia pensei muitas vezes sobre como é que tinha sido publicada antes do século XXI ou, pelo menos, antes da segunda metade do século XX. Não são só as descrições explícitas de momentos mais íntimos ou o próprio tema, é também o vocabulário. Mas suponho que seja precisamente por tudo isto que a obra tenha sido um marco importantíssimo e deva também a estas peculiaridades a sua popularidade e impacto. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Queria apenas muito brevemente destacar os três últimos aspetos que vos referi acima. Por um lado gostava de sublinhar que não penso que esta questão da diferença de classes e do impacto desta diferença na vida individual seja um tema novo quando esta obra é escrita, porque essa fórmula está na base de um sem número de outras obras. Realmente a novidade é o modo como é tratada. Acho que o facto da maior parte do inconformismo relativamente à questão vir da personagem masculina, como o facto da sua reflexão e capacidade analítica contrastar com a sua posição social e, claro, o próprio facto de se associar um motivo romântico à questão contribui muito para a forma como a olhamos e para o peso que lhe conferimos. Cria-se uma empatia diferente. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No que concerne o modo como se encarava a relação amorosa e intima então, sobretudo pelas elites, devo dizer que fiquei ligeiramente surpreendida. A superioridade conferida à componente e à compatibilidade intelectual foi algo que sabia existir - como ainda existe -, mas cujo impacto e prevalência não pensei tão forte. Além disso, achei muito perspicaz o modo como essa ideia é ironizada e invalidada. De resto, gosto sempre bastante da forma como a oposição sentimento/razão é tratada e, vendo-a sob esta nova luz e de um modo diferente foi algo novo. Geralmente há sempre uma abordagem mais intelectual do que prática. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em último lugar, em relação ao modo como mulher e homem encaram a relação amorosa acrescentava somente que o que mais sobressai para mim é a forma simples, direta e crua com que o tema é abordado pelos protagonistas, num tom de conversa que correspondemos sem hesitar ao dos tempos atuais mais do que ao dos tempos de outrora, ou deveria dizer, ao que pensamos que ocorria nos tempos de outrora? Porque nós não ouvimos as conversas privadas de então e o que lemos delas não deixa de ser filtrado pela censura da sociedade e da beleza da arte. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Amante de </em><em>Lady</em><em> </em><em>Chatterley</em><em> </em>foi uma das obras que mais gostei de ler até agora neste ano. Foi das mais cativantes e, reconheço que em parte isso se deve ao tema e ao enredo. Somos naturalmente atraídos por estes temas e dilemas, mas o modo como a narrativa é construída é realmente importante neste âmbito porque, com efeito, o tema pode ser muito cativante, mas se for tratado de forma exaustiva ou enfadonha, por muito bom que seja o resultado final, não é tão agradável, rápida e simples a leitura. Neste caso, não posso deixar de sublinhar a forma como a obra está escrita. Mesmo as conclusões e reflexões que tiramos dela surgem espontaneamente à medida que vamos lendo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como podem adivinhar, recomendo imenso esta leitura! Sei que existem traduções desta obra em português e a versão em inglês está em todo o lado e é francamente acessível em todos os aspeto. Já leram? Qual a vossa opinião? </span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:368392020-06-15T09:00:00“Terna é a Noite”, F. Scott Fitzgerald2020-06-10T11:34:59Z2020-06-10T11:34:59Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Na verdade, esse é o meu segredo — nem sequer consigo falar sobre ti com outras pessoas porque não quero que mais ninguém saiba o quão maravilhoso és.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 119px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3617673e/21830353_3IRn9.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="179" height="179" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Apesar de <em>The Great Gatsby</em> ser um dos meus livros preferidos confesso que, tirando alguns contos e um poema aqui ou ali, nunca tinha mais nenhuma obra de Fitzgerald. Este ano, por alguma razão, lembrei-me desta falha e comprei os 3 romances deste autor que me restavam ler. Comecei por <em>Terna é a Noite</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Terna é a Noite</em> foi publicado em 1934 e acompanha o casal Dick e Nicole Diver. Quando a narrativa inicia, os Diver encontram-se, com alguns amigos, hospedados no sul de França onde conhecem Rosemary, uma promissora aspirante a atriz, que se apaixona por Dick e se torna próxima de Nicole. A história foca a partir daí a relação do casal com Rosemary. Simultaneamente, o assassinato de um homem negro descoberto no quarto de hotel de Rosemary que leva Dick a tentar esconder o sucedido para proteger a carreira de Rosemary oferece outra linha narrativa à obra. Além disso, a narrativa beneficia de uma analepse que permite descobrir o passado de Dick enquanto psiquiatra e o início controverso da sua relação com Nicole, então uma jovem herdeira e paciente de um colega seu. À medida que a obra se aproxima do fim lemos sobre o declínio pessoal e profissional de Dick que se segue à consumação do caso amoroso com Rosemary e controvérsias com a lei que o conduzem a problemas emocionais e de alcoolismo que originam dificuldades com os seus pacientes e com a manutenção da sua clínica e um distanciamento em relação a Nicole que faz com que esta comece a reconhecer e a aproveitar uma independência que nunca pensara possuir, conduzindo tudo isto a um fim esperado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É do conhecimento geral que a obra é levemente baseada em pessoas e em factos reais. Os Diver baseiam-se em Gerald Clery Murphy e Sara Sherman Wiborg, um casal americano abastado a viver na Riviera francesa célebre por acolher um círculo social dinâmico constituído por artistas e escritores e pelas suas exuberantes e glamourosas festas. Além disso, supõe-se a inspiração da vida pessoal de Fitzgerald e da sua esposa, Zelda Fitzgerald nos Diver. Como se sabe, como Nicole, também Zelda foi diagnosticada com problemas do foro emocional e, como Dick, também Fitzgerald acabou por imergir numa espiral descendente. Para Rosemary, a atriz Lois Moran, com quem Fitzgerald teria tido um caso romântico, terá sido a inspiração. Também, eventos como aquele em que Dick é agredido por policias terão uma relação com a vida real do autor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Existem muitos temas na obra que poderiam ser mencionados e discutidos, mas eu gostava apenas de sublinhar dois aspetos que me cativaram particularmente. Em primeiro lugar, aquela aura glamourosa que enleia aparentemente qualquer coisa que Fitzgerald escreva. Não sei bem como ele consegue esse efeito, mas não conheço mais nenhum autor que o faça. Digo-vos que este autor pode estar a narrar a coisa mais banal que se possa imaginar e mesmo assim consegue que tal surja como algo nostalgicamente fino e elegante. Sinceramente, acho que é uma das suas conquistas por lhe marcar o estilo e facilitar o reconhecimento público. Depois, gostava de destacar as figuras de Nicole e de Rosemary e o modo como ambas influenciam a vida de Dick. O que me agradou foi a evolução na direção oposta delas em comparação com ele. No início, ambas servem os interesses dele — Nicole por ser a esposa modelo e Rosemary por ser a jovem ingenuamente apaixonada—, ambas gravitam em torno dele — Nicole ainda tão dependente dele como quando era sua paciente e Rosemary expressando-lhe sistematicamente o seu enlevo. Nessa altura, ele ascende em todos os aspetos, mas depois, quando elas adquirem uma existência própria e uma independência que antes não possuíam — Nicole influenciada pelo interesse de outro homem e Rosemary pela nova vida como estrela de Hollywood —, ele inicia o seu declínio. Não vou falar sobre a simbologia disto, mas achei interessante que ocorra com as duas personagens e que enfatize a dependência do protagonista em relação a elas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Fitzgerald estava convencido de que <em>Terna é a Noite</em> era o seu melhor romance e acreditava que, tanto público como crítica pensariam o mesmo, preferindo-o inclusive ao seu romance mais popular então, <em>The Great Gatsby</em>. Na verdade, isso não se verificou e<em> Terna é a Noite</em> encontrou até alguma resistência, o que teria surpreendido o autor. Apenas mais tarde lhe foi sendo atribuído o mérito que o autor lhe reconheceu. Pessoalmente, creio que a principal diferença está no facto de <em>The Great Gatsby </em>ser simplesmente mais cativante e naturalmente mais próximo do público pela empatia e simpatia que gera. Quanto a <em>Terna é a Noite</em>, penso que realmente é superior em aspetos mais “técnicos”, na medida em que parece mais cuidada e calculada e menos espontânea e complexa. No geral, nem acho que possamos comparar as duas e apenas faço este paralelo a título de curiosidade e pelo facto do autor ter suscitado a comparação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Porém, em boa verdade, também não posso acabar sem dizer que, enquanto lia <em>Terna é a Noite </em>me lembrei muitas vezes de <em>The Great Gatsby</em>. Há muitos aspetos semelhantes: a imagem de glamour americano e de esplender ingénuo que, como referi antes, associamos sempre com Fitzgerald; o casal Diver e a sua envolvência que recorda muito Daisy e Tom de <em>The Great Gatsby;</em> a ocorrência de um crime; a questão do adultério e as visões românticas em relação ao amor e o fascínio a si associado; e, claro, a ascensão e declínio social, profissional e pessoal do indivíduo. Para não mencionar a crítica social à realidade e ao sonho americano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral e em suma, gostei muito de ler <em>Terna é a Noite</em>. É muito naquele género Fitzgerald que fascina quase todos os leitores em <em>The Great Gatsby</em> e não me parece que quem goste dessa obra, não goste desta. Quais são as vossas opiniões? Já leram <em>Terna é a Noite</em>? Gostam do estilo de Fitzgerald?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:364902020-06-08T09:00:00“O Primo Basílio”, Eça de Queiroz”2020-06-04T10:26:05Z2020-06-04T10:26:05Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 115px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfb18ca29/21825518_fhuER.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="179" height="173" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Penso que ainda não tinha tido oportunidade de vos falar sobre nada de Eça de Queiroz. É provavelmente o meu autor português preferido e se não vos falei sobre nada dele mais cedo foi porque a maioria das suas obras li quando era mais nova. Calhou muito recentemente falar sobre este autor e perceber que ainda não tinha lido esta obra. Na altura em que li as obras de Eça, apesar de não ter sido assim há tanto tempo, não era tão frequente existirem tantas e tão diferentes edições.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Primo Basílio </em>(1878) narra a história de Luísa e do seu caso amoroso com Basílio, seu primo. Nada de extraordinário não fosse ela casada. A obra, como todas as do autor, é uma crítica de costumes e foca a burguesia de Lisboa à época. Então, Luísa e o marido funcionam como o típico e feliz casal da classe média; ele é bem-sucedido, ela é romântica e os dois são muitos felizes até ele ter de se ausentar em trabalho e, durante esse período ela receber a visita do seu primo que regressa do Brasil após uma temporada ausente. Basílio é o típico <em>bon-vivant </em>da época e ele e Luísa já tinham um passado romântico. Quando reencontra Luísa, Basílio concentra os seus esforços em conquistá-la e ela, com o esposo ausente e a emersa em visões romanescas cede. O adultério é descoberto por uma das suas criadas, Juliana, que se aproveita da situação para chantagear Luísa por forma a colher benefícios para si. O resto da história narra o declínio que se segue a esta descoberta, o regresso do marido de Luísa e a forma como ela tenta contornar e suportar as consequências das suas ações.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O enredo é completado por outros personagens que funcionam como personagens-tipo já que pretendem representar diferentes tipos de pessoas da época. Por exemplo, Juliana é a empregada invejosa e amarga e Joana é a empregada mais espevitada e namoradeira; as duas amigas de Luísa pretendem opor dois tipos de mulheres, D. Felicidade funciona como a beata com vários problemas de saúde e um amor platónico que não consegue controlar e Leopoldina é a esposa que trai o marido, conhecida pela sua má-reputação; depois existe ainda o Conselheiro Acácio, muito formal, letrado e óbvio, Ernestinho que escreve e publica, mas só segundo o gosto do público, e Julião, um médico que não gosta de ser médico mas que quer ganhar dinheiro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sobre as personagens gostava de destacar ainda o amigo da casa, Sebastião, que em boa verdade me parece ser a única personagem que não pretende com a sua existência criticar algo. Penso que é um favorito entre os leitores. Pessoalmente, achei-o demasiado perfeito e talvez sensível a mais. Além disso, sei que é comum dizer-se isto, mas realmente achei a personagem de Juliana uma criação admirável; é, com efeito, um retrato extraordinariamente humano e real, ao ponto realmente de impressionar. Também gostei muito da figura de Acácio com toda a sua formalidade e banalidade e com o seu sentido de dever e de superioridade que ainda podemos observar em imensas pessoas. Como aliás todas as outras personagens; aos modos alteram-se, mas a essência não muda e, talvez por isso, este tipo de obra continue a fazer tanto sentido agora como fez outrora.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava também de sublinhar o temperamento romântico de Luísa e o modo como a jovem romântica e sonhadora acaba por ser colocada em causa. Como sabemos, na altura criticava-se muito o hábito das jovens lerem romances por se pensar que elas eram predispostas a levar à letra aquilo que liam e, por conseguinte, colocar em perigo, ainda que talvez involuntária e ingenuamente, o sistema e as instituições sociais, comprometendo além da sua felicidade futura, o equilíbrio social. Assim, Luísa é aqui representada como uma jovem que apenas lê romances e leva uma existência banal e enfadada alimentada ainda assim por uma visão romântica e ideal da vida e das pessoas. Afastado o seu esposo, Basílio, com todo o seu passado e presente e a sua envolvência, acaba por surgir exatamente como um personagem dos romances que ela lia. Ainda não decidi se considero esta personagem uma crítica à jovem que lê romances ou ao estereótipo que a enleava à época, talvez aos dois? Devido aos tormentos que a vemos passar e ao claro arrependimento que ela manifesta é muito difícil vê-la como maldosa ou frívola como ocorre com Leopoldina, por exemplo. Não me parece sequer que Luísa seja uma crítica à mulher adúltera como o é Leopoldina. A verdade é que esta personagem me causou sentimentos contraditórios porque surge de tal modo que é quase impossível culpá-la de algo ou antipatizar com ela.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, não quero deixar de observar o quão estranho e simultaneamente como que mágico é ler sobre Lisboa e a baixa e corresponder aquilo que lemos ao que ainda vemos. Estava a ler como Eça descreveu as ruas do Chiado, os passeios até ao teatro São Carlos, o caminho até Arroios e como que senti uma espécie de nostalgia que não faço ideia de onde vem. Mas sei que ler sobre como estes sítios eram e como as pessoas lá viviam e pensar eles que são uma parte do meu dia é estranho, mas muito bom e belo. Não sei se vos acontece o mesmo?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sei que uma das razões pelas quais gosto tanto de Eça de Queiroz é por a sua escrita e obra ser tão semelhante a outras das quais gosto mesmo muito. Sobretudo se compararmos com outros autores portugueses, nota-se muito uma semelhança entre Eça e aquilo que se escrevia pela Europa na sua época. Particularmente a crítica de costume relembra-me muito os ingleses, os enredos lembram-me os franceses. O próprio modo e estilo é próximo. Por exemplo, olhando esta obra é quase impossível não recordarmos <em>Madame Bovary</em> ou <em>A Dama das Camélias </em>(aliás, <em>A Dama das Camélias</em> é um dos livros preferidos de Luísa!) ou qualquer romance inglês dos séculos XVIII e XIX.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, queria reiterar o quanto gostei de <em>O Primo Basílio</em>. Tornou-se por agora a minha segunda obra preferida de Eça. Claro, destaco sobretudo a crítica de costumes que acho que está extraordinariamente impressionante e que vale muito a pena. Além disso, a narrativa é muito cativante. Está sempre em crescendo e acaba por criar aquele sentimento em que não conseguimos parar de ler. Se ainda não leram, recomendo muito e gostava imenso de saber a vossa opinião sobre o autor e sobre esta obra! Já tiveram oportunidade de ler?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:363322020-06-01T09:00:00“Na Minha Morte”, William Faulkner2020-05-29T14:33:18Z2020-05-29T14:33:18Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Conseguia lembrar-me de como o meu pai me costumava dizer que a razão para viver era preparamo-nos para permanecermos mortos durante muito tempo.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 147px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="22849634325.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bde186c7c/21820657_zPl6J.jpeg" alt="22849634325.jpg" width="473" height="211" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Há um tempo atrás tinha pensado em ler <em>O Som e a Fúria</em>. Não comprei logo porque achei que, como é tão popular, encontraria em qualquer lado. Confesso que, entretanto, me esqueci completamente e, apenas no outro dia, por acaso, me deparei na livraria com este outro livro de Faulkner e me lembrei de que já queria ter lido algo deste autor. A verdade é que me coloquei ali a ler excertos de <em>As I Lay Dying</em> e lembrei-me de já ter ouvido falar muito e bem deste livro e, como aquilo que estava a ler me parecia tão diferente e a premissa da obra tão interessante, decidi “bem, vou começar por ler este”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Na Minha Morte</em> (1930) depende da morte de Addie Bundren e encontra a sua família a transportá-la ao longo do condado para honrar o seu desejo de ser enterrada no local da sua escolha. São vários capítulos narrados por diferentes personagens e caracterizam-se pela narrativa com recurso à técnica fluxo de consciência, <em>stream of consciousness</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A leitura foi claramente dificultada, pelo menos no meu caso, pela técnica narrativa. <em>Stream of consciousness</em> é uma técnica que quem, como eu, aprecia a obra de, por exemplo, James Joyce ou Virginia Woolf, não desconhece totalmente. Creio que, não obstante todas as qualidades positivas e a originalidade da técnica, é de mencionar que por vezes, o seu próprio cariz faz com que a leitura seja mais complexa. Na verdade, foi também provavelmente de não estar habituada ao autor que foi mais difícil de ler esta obra do que outras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, devido a esta técnica narrativa, cada capítulo é narrado de modo diferente consoante a personagem que foca e, deste modo, questões como o vocabulário, a construção, o ritmo e mesmo os dialetos, estão em permanente mudança.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava também de destacar dois capítulos de que gostei particularmente. Aquele narrado por Addie Bundren foi o meu preferido. No meio de tantos capítulos que só existem por ela e devido à morte dela, foi muito interessante ler algo sob a sua perspetiva. Este capítulo foca-se em questões da vida de Addie como o casamento e a maternidade e é lindíssimo por ser tão cruo e autêntico. Além disso, há um capítulo narrado pela filha de Addie, Dewey Dell, do qual gostei especialmente e que foca as relações pessoais, a polémica questão do aborto e a ingenuidade do interior americano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para além destas questões destaco a ruralidade americana em evidência ao longo de toda a obra. Como vos contei, a família está em viagem pela América. Ao longo desta viagem vamos vendo o modo como cada sítio e cada pessoa reage à presença desta família e à sua demanda. Além disso, destaco ainda o papel e a importância da religião nesta sociedade. Gostei muito dos capítulos que abordaram esse aspeto, sobretudo aqueles que focavam a personagem Cora, uma vizinha de Addie, e que têm todo um tom de condenação, um peso religioso e transparecem uma certa ingenuidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, a minha opinião em relação a este livro é ligeiramente contraditória. Gostei da obra, mas não gostei assim tanto de a ler. No fim, quando penso sobre aquilo que li e sobre o modo como tal foi conseguido, gosto imenso e fico feliz de ter lido este livro. Mas durante o processo, penso que não aproveitei tanto assim. É uma obra muito mais complexa do que o que parece inicialmente e, apesar de ser pequena, demorei mais a lê-la do que o que demorei a ler obras de maior extensão. Parava muitas vezes e ia voltando atrás para começar determinadas passagens de início. O facto de, como vos disse, o discurso ir mudando consoante o personagem e, consequentemente, o dialeto mudar igualmente, contribuiu para isso. Houve capítulos que li e compreendi com maior facilidade devido a estas diferenças. Mas, no geral, aquilo que concluo é que, apesar da dificuldade e apesar de não ter gostado tanto assim de ler a obra, gostei imenso dela no seu todo e, como tal e pelo aquilo que representa, tanto em termos de conteúdo como de técnica, recomendo. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quais são as vossas opiniões? Já leram esta obra ou outra do autor? E sobre a técnica narrativa, têm uma opinião formada? Gostam de obras deste género?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:358482020-05-25T09:00:00“Escola de Mulheres”, Molière2020-05-22T12:07:52Z2020-05-22T12:07:52Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">É preciso reconhecer que o amor é um grande professor. O que não sabemos, ele ensina-nos.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 124px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6f1845e9/21814755_SdREP.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="175" height="189" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Confesso que o principal fator que me impeliu a ler este livro foi o título, <em>L´École des femmes</em>, e, se não o tivesse por acaso visto à venda, provavelmente não me lembraria espontaneamente de o ler. Gosto muito de Molière, mas realmente não conhecia esta obra. Todavia, assim que a vi percebi que seria o tipo de obra da qual gostaria.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>L'École des femmes</em> (1662) é uma comédia em cinco actos protagonizada por Arnolphe, um homem na casa dos quarenta anos que pretende casar-se com Agnès, uma jovem de dezassete anos que educara desde os quatro. Um crítico da vida conjugal, Arnolphe educara Agnès com o intuito de fazer dela a esposa perfeita, daí o título da obra. O resultado esperado seria que Agnès fosse demasiado ignorante para sequer se lembrar de contrariar, contestar, argumentar ou enganar o seu marido. Todavia, tal esforço mostra-se ineficaz porque, mesmo educada neste contexto, Agnès acaba por se apaixonar pelo jovem Horace que, ironicamente acaba por tomar Arnolphe como seu confidente. Arnolphe inicia então uma missão para afastar os dois jovens apaixonados e garantir a sua união a Agnès.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Claro que a ironia principal acaba por ser o facto de Arnolphe se preocupar tanto em educar Agnès para esposa perfeita e se esquecer da vertente sentimental. Por muito que ela seja educada e por muito que a razão pese, a componente emocional acaba por prevalecer e de nada serve a Arnolphe que Agnès seja uma esposa perfeita se, estando apaixonada por outro, não quer casar com ele.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Um dos meus momentos preferidos na obra é sem dúvida o momento em que Arnolphe oferece a Agnès uma obra com máximas compiladas intitulada “Les Maximes du Mariage Ou les devoirs de la femme mariée” que, realmente, segue o estilo dos livros de conduta com imensos conselhos que almejam tornar a jovem senhora numa esposa complacente e submissa. Parece inacreditável que alguém seguisse realmente este tipo de conselho, mas a verdade é que, como sabemos, estes conselhos foram outrora regra. O que me impressiona é que, numa época em que muitas atitudes destas eram ainda valorizadas, Molière tivesse conseguido com que fossem expostas de forma a mostrar o quão inapropriadas, de facto, eram.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No mesmo âmbito, a própria existência da obra remete para isso, não vos parece? Existia a consciência de que este tipo de atitude era inapropriado, caso contrário o público não descortinaria a ironia, não riria e, consequentemente, a obra não teria tido o sucesso que teve e que, com efeito, foi significativo. Creio que isso é prova da capacidade do próprio autor e justificação para a sua popularidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Entretanto e em jeito de conclusão, descobri que Bergman realizou em 1983 uma adaptação da peça para a televisão e estou a ver-me a passar os próximos tempos na busca desta adaptação! Conhecem?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Enfim, há muito tempo que não lia Molière. E, como vos disse, se não tivesse por acaso visto esta obra à venda, não sei quando me lembraria de voltar a ler algo deste autor. Mas ainda bem que vi. Gostei tanto de ler <em>L´École des femmes</em>! Foi uma agradável mudança em relação às últimas obras que tenho lido. Em registo mais do que em tema. Até porque eu não costumo muito ler comédia e talvez por isso seja mais esquisita neste campo. Em suma, recomendo-vos muito <em>L´École des femmes</em>! Já leram?</span></p>
</div>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:357472020-05-18T09:00:00“Retrato de uma Senhora”, Henry James2020-05-13T11:57:12Z2020-05-13T11:57:12Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Pensas que podes ter uma vida romântica, que podes viver agradando a ti e aos outros. Vais perceber que estás enganada. Qualquer que seja a vida que levas, para seres bem-sucedida, deves colocar a tua alma nela; a partir do momento em que o fazes, garanto-te que o romance acaba: tudo se torna realidade! E não consegues sempre agradar-te; por vezes tens de agradar aos outros. Isso, admito, estás disposta a fazer, mas há algo ainda mais importante – muitas vezes tens de desagradar os outros. Tens de estar sempre pronta para isso, nunca deves fugir. Isso não te convém de todo — gostas demasiado de admiração, gostas que pensem bem de ti. Pensas que podemos escapar aos nossos deveres menos agradáveis através de visões romanescas — essa é a tua maior ilusão. Não podemos. Tens de estar preparada para, muitas vezes, não agradares a ninguém — nem a ti própria.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 268px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="the-portrait-of-a-lady.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be417ddba/21806653_YZtpZ.jpeg" alt="the-portrait-of-a-lady.jpg" width="600" height="268" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Portrait of a Lady</em> é uma leitura que tinha estado adiada há tanto tempo que lhe perdi a conta. Este ano foi um dos primeiros livros que comprei e, mesmo assim, só na semana passada me determinei a finalmente ler! Assim que acabei pensei senti uma mistura de “ainda bem que adiei tanto tempo” e de “como é que não tinha lido antes”.</span><span style="font-size: 12pt;"> </span></p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Portrait of a Lady </em>(1881) acompanha a história da jovem americana Isabel Archer cuja uma das maiores ambições é nunca perder a sua independência e clarividência. Depois de ser acolhida pela sua tia, Isabel muda-se para a Europa e a primeira etapa da sua vida começa em Inglaterra onde ela vive por um tempo com a tia e o marido e o filho dela. Nesta etapa destaca-se o pedido de casamento que recebe de um importante nobre, Lord Warburton, e o de Caspar Goodwood, um conhecido seu que viera da América em seu encalço. Além disso, destaca-se ainda a morte do tio que a torna numa abastada herdeira e a amizade próxima que estabelece com uma amiga da tia, também americana – Madame Merle. Em seguida, acompanhada pela tia, viaja pela Europa e conhece Gilbert Osmond, um americano próximo de Madame Merle a viver em Itália com a filha, Pansy. Não vos dou nenhum <em>spoiler</em> ao dizer que rapidamente Isabel cai vítima dos esquemas de Madame Merle e de Osmond e que acaba por casar com este homem. A última etapa da obra, por assim dizer, segue o rumo desastroso do casamento de Isabel e a descoberta dos conluios do marido e da amiga, bem como de muitos outros segredos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Um dos aspetos mais discutidos da obra relaciona-se com a perda da independência que Isabella tanto prezava. Mas, pessoalmente, esta perda não me impressionou tanto como a contradição das expectativas da protagonista. Sei que, para muitos leitores, a obra pode acabar por funcionar no tom “ela não casou antes porque queria ser independente e agora que casou calhou-lhe pior sorte”. Mas para mim funciona mais como “bem, ela pensava que sabia tanto e não sabia nada”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O final da obra é também bastante discutido considerando aquilo que representa. O que nele é interessante para mim é a) apesar de ser “deixado em aberto”, qualquer leitor lhe dá facilmente o mesmo fim e b) apesar das imensas opiniões em contrário, não me parece que existisse outro fim possível, não só porque não seria verossímil em termos daquilo que foi a obra ou mesmo daquilo que “nós” somos, como em termos de contexto tempo e espaço.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Do ponto de vista da crítica social, gostei muito de determinadas personagens-tipo, como a tia de Isabel e o seu claro desapego a tudo o que não seja ela mesma, ou a amiga de Isabel, a correspondente Henrietta Stackpole, tão independente e revolucionária no seu contexto. Creio que esta personagem é uma favorita entre o público e, embora eu geralmente</span><span style="font-size: 12pt;"> não gostar muito deste tipo de personagem, muito menos em livros de época, gostei imenso de Henrietta. Também destaco a arrogância e o decoro da nobreza inglesa com Lord Warburton, a pretensa intelectualidade da classe média-alta de então, ou o mecenato das pessoas que nunca conseguem viver abaixo da condição a que se habituaram através da representação de Madame Merle e Gilbert Osmond. E por falar neles, gostava ainda de notar o quanto a dinâmica dos dois e os seus esquemas me recordaram Laclos e </span><em style="font-size: 12pt;">Ligações Perigosas</em><span style="font-size: 12pt;">!</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também queria notar o quão “inglês” me pareceu este livro. O tema, o tom, a própria sociedade em critica, etc. Claro que Henry James se estabeleceu durante muito tempo na Europa, sobretudo em Inglaterra e, como sabemos, acabou mesmo por adquirir a cidadania britânica, pelo que esta observação pode ser facilmente justificável. Ainda assim, confesso que fiquei supreendida por, com efeito, à exceção da heroína, tudo em <em>The Portrait of a Lady</em> ser tão inglês. Isabel é, por outro lado, bastante americana, não só em termos de tradição heróica, mas também em termos de personalidade feminina. O que acho peculiar é também o facto de, no fim, ela se tornar tão europeia, sobretudo em pensamento e atitude. Sei que isto pode resultar do próprio amadurecimento e perda de inocência da personagem, mas ainda assim pareceu-me muito interessante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Portrait of a Lady</em> levou-me a refletir sobre conceitos como a liberdade e a independência e o modo como estes são tão relativos, como mudam de pessoa para pessoa, como a sua importância e valor não são transversais a todos. Isto surge muito em função de um capítulo extremamente discutido da obra em que Isabel reflete à cerca do esquema em que caiu, como chegou ali, o que poderia fazer. A sua reação dita passiva de se conformar com a sua decisão e procurar agir o melhor possível em relação a ela é, de um certo ponto de vista, bastante existencialista o que, considerando a altura de produção e publicação da obra, não admira. Ainda assim, este aspeto e a reflexão suscitada é, para mim, o ponto alto da obra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em suma, penso que já adivinham que gostei imenso desta obra. Creio que posso dizer que, até ao momento, foi provavelmente a minha leitura preferida deste ano. Sei que ainda agora estamos em maio e vale o que vale, mas ainda assim é a verdade. É certamente uma leitura que recomendo muito. Já leram? Qual a vossa opinião?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:353842020-05-11T09:00:00“Uma Mulher Sem Importância”, Oscar Wilde2020-04-24T13:00:01Z2020-04-24T13:00:01Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Todas as mulheres são rebeldes, geralmente estão numa ampla revolta contra si mesmas.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 125px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown-1.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7e17499c/21782851_Rh7jD.jpeg" alt="Unknown-1.jpeg" width="183" height="181" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta semana venho falar-vos de uma outra leitura de oportunidade nestes tempos que passam tão devagar. Lembro-me que há semanas vos falei de <em>De Profundis</em>, então tenho consciência que estou a repetir um autor, mas não resisti quando encontrei esta obra! Como vos contei naquela altura, gosto muito de Wilde.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Vos descrever <em>Uma Mulher Sem Importância</em> (1893) como uma sátira em quatro actos à alta sociedade inglesa de século XIX. Aborda temas como o casamento, o amor, as relações entre homens e mulheres, o impacto das escolhas dos pais na vida dos filhos, as preconceções associadas à mulher e ao seu comportamento e também acaba por aflorar através de Hester, uma americana, os preconceitos ingleses face aos americanos e puritanos. Destaco a história que subjaz à peça e que se relaciona com uma prévia ligação entre dois dos personagens principais — Lord Illingworth e Rachel Arbuthnot — cujo reencontro potencia o decurso da peça. Rachel e Illingworth havia tido, quando jovens, um caso amoroso do qual nasceu George, e que resultou numa rutura entre os dois, já que Illingworth não queria casar com Rachel. Os dois personagens voltam a encontrar-se porque George, sem saber que Illingworth era seu pai (e este sem saber que George era seu filho), está prestes a partir com ele e a tornar-se seu secretário pessoal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava de destacar, muito brevemente, três aspetos que me interessaram especialmente. O primeiro é, claro, a interação social. Achei extraordinária a representação dos maneirismos, das conversas frívolas, da hipocrisia e da polidez, do calculismo e até de uma certa ingenuidade. Estava a ler a peça e parecia que estava a ver um filme. Um filme que nem parecia um filme, porque tudo nesta peça sugere genuinidade. Mas, bem, sabemos que Wilde circulava neste tipo de sociedade e reconhecemos o seu modo assertivo de representar, portanto, na verdade, nem deveria ter ficado surpreendida.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O segundo aspeto que queria mencionar relaciona-se com o debate que a obra suscita em relação à possibilidade de, realmente, as escolhas dos pais influenciarem ou não a vidas dos seus filhos. Foi um dos aspetos que achei mais interessantes e creio que isso se deve ao modo singular como a questão foi abordada — raramente com ironia, ao contrário do que acontece com quase todos os outros temas. Reflexões neste âmbito surgem, por vezes, dotadas de um tom que comove e contrasta com aquele da restante obra. Já para não falar que todos reconhecemos a pertinência, recorrência e atualidade do tema. Novamente, não posso deixar de especular se esta escolha de tema e a diferença no modo como ele é abordado não surge da experiência pessoal do autor e dos seus próprios receios e conclusões.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, queria dar o maior destaque à fluência e concisão dos diálogos. Não exagero quando digo que cada fala parece o enunciar de uma máxima. E o extraordinário é que estas expostas de forma tão breve, simples e categórica que impressiona; pela capacidade de síntese e pela forma pessoal e próxima que facilita o entendimento. Neste campo, não posso deixar de destacar as intervenções de Lord Illingworth e de Mrs Allonby. Sobretudo no que concerne as relações românticas e sociais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em suma, creio que resulta evidente o quanto gostei da obra. Muito mesmo. E recomendo a leitura. A peça é muito breve, como vos disse, lê-se realmente muito bem e rapidamente. Também sei que está traduzida em português e, na verdade, a versão original encontra-se muito facilmente. Então, porque não? Antes de <em>Uma Mulher Sem Importância</em> e excetuando <em>O Retrato de Dorian Gray</em>, <em>De Profundis</em> e alguns poemas, de Wilde, apenas tinha lido a peça <em>Um Marido Ideal</em>. Lembro-me de na altura ter gostado bastante dela, mas não me parece que tanto como agora de <em>Uma Mulher Sem Importância</em>. Já leram? Quais são as vossas opiniões?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:352162020-05-04T09:00:00“Personae”, Ezra Pound2020-04-21T12:24:05Z2020-04-21T12:24:05Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">“If so we live and die not life but dreams,</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Great God, grant life in dreams,</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Not dalliance, but life!”</span></p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 160px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="318JYo44RfL._SX330_BO1,204,203,200_.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf417c905/21777849_69Ssz.jpeg" alt="318JYo44RfL._SX330_BO1,204,203,200_.jpg" width="332" height="231" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se costumam seguir o <em>blog</em> sabem que é menos comum eu escrever aqui sobre poesia. Geralmente sou mais difícil de cativar em termos de poesia do que de prosa. Também é mais difícil que me consiga concentrar naquilo que estou a ler sob esta forma e, como consequência, torno-me mais seletiva. Mas também é verdade que quando leio poesia, acabo por gostar muito. Na semana que passou tive de ler uns poemas de Ezra Pound e, na verdade, gostei tanto, que acabei a ler esta coleção dele!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Personae</em> (1909) reúne alguns dos primeiros poemas que Pound teria escrito. Uma outra versão foi publicada em 1926 com mais poemas e sob o título <em>Personae: The Collected Poems of Ezra Pound</em>. A versão que li e menciono aqui é, todavia, a mais curta e publicada em 1909.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como é sabido, Ezra Pound foi incrivelmente importante na origem e disseminação dos movimentos literários Modernismo e Imagismo e, nesta coleção, que ainda que reflita o início da sua carreira, já podemos observar algo da relação com esses movimentos. E também alguma da influência de outros autores referidos pela critica na sua obra, como Yeats e Joyce. Além disso, é também notória uma relação com outras obras, movimentos e tradições. Destacaria referências literárias medievais e clássicas, nesse contexto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostava de lembrar que, como quando vos escrevo sobre obras de interpretação filosófica, também quando escrevo sobre poesia não gosto de tecer o mesmo tipo de considerações que teceria em outros casos. Creio genuinamente que, a poesia, como a filosofia, suscita opiniões e interpretações variadas e muito próprias. Não que ache que a prosa não o faz, mas penso que concordamos que o faz de modo diferente. E, por isso, não acho tão adequado nem me sinto tão segura a tecer considerações sobre poesia ou filosofia nos mesmo moldes ou tom.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Portanto, gostaria apenas de e, sublinho, a título pessoal, referir três poemas em específico dos quais gostei particularmente: “Grace Before Song”, “In the Old Age of the Soul” e “Revolt: Against the Crepuscular Spirit in Modern Poetry”. Os versos que citei no início do <em>post</em> são deste último poema que é verdadeiramente lindissímo. É um dos poemas mais bonitos que li nos últimos tempos e, se puderem e quiserem, aconselho-vos a ler. Relembrou-me, mais do que qualquer outro poema da coleção, Yeats, um dos meus poetas preferidos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Acho que houve poucas palavras que se repetissem mais nesta coleção do que “dreams” e suas variantes. A imagem e o imaginário levantado como consequência foi provavelmente o meu aspeto preferido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, gostei bastante de <em>Personae</em>. Tirando alguns poemas soltos aqui e ali, não tinha lido na integra nenhuma obra de Ezra Pound, pelo que a minha opinião aqui também é ingénua, mas não me pareceu um mau começo! Não creio que a obra esteja traduzida em português, mas se tiverem interesse e puderem ler em inglês, encontra-se com muita facilidade. Como vos disse, é uma obra muito pequena e, por isso, também acaba por se ler bem. Qual é a vossa opinião sobre o autor ou sobre a obra? Conhecem? Já leram? Gostam de ler poesia, ou preferem prosa?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>
</blockquote>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:348752020-04-27T09:00:00“Mathilda”, Mary Shelley2020-04-07T11:31:11Z2020-04-07T11:31:11Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">“Não sabemos o que significa este mundo amplo; a sua estranha mistura de bem e de mal. Mas fomos colocados aqui e foi-nos oferecida vida e esperança. Não sei no que devemos ter esperança; mas existe algo de bom além de nós que devemos procurar; e essa é a nossa tarefa na terra. Se o infortúnio vier ter connosco, temos de o combater. Temos de o colocar de lado e continuar a descobrir ao que devemos, por natureza, almejar.”</span></p>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 115px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="51h2y0ya1mL.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb0189664/21756637_gMCjJ.jpeg" alt="51h2y0ya1mL.jpg" width="328" height="167" /></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta semana venho falar-vos de uma leitura que foi, de facto, meramente de oportunidade. Conhecia a obra apenas de nome e, apesar de ter pensado em ler, foi apenas na semana que passou que, quando por acaso e enquanto procurava por outra obra me deparei com <em>Mathilda</em> e que pensei que, mais valia aproveitar esta época em que temos tanto tempo e tanta margem para o gerir como nos melhor aprouve para a ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Mathilda</em> é contada na primeira pessoa pela protagonista que lhe dá nome e é, desde início, apresentada como uma história trágica e triste pela mesma. Refere a história controversa da relação de Mathilda com o seu pai. Começa por narrar a juventude do pai da protagonista e o seu amor pela sua esposa. Quando Mathilda nasce, a sua mãe falece e, com o desgosto, o seu pai parte também, deixando-a ao cuidado de uma tia. Mais tarde, na adolescência de Mathilda, ele regressa e ela passa a viver com ele num clima de paz e afetuosidade. Contudo, esta vivência é breve quando os sentimentos do pai por ela começam a extrapolar o campo do afeto paternal e a adquirir outros contornos, culminando numa separação dos dois e no desgosto e isolamento de Mathilda.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Muito se escreveu e se escreve em relação à (possível) semelhança entre a vida e a vivência de Mathilda e as de sua criadora. Como sabemos, Mary Shelley ficou sem mãe — a escritora e filosofa Mary Wollestonecraft — quando era também muito nova e era bem conhecido o afeto e a admiração do seu pai — o escritor e filosofo — William Godwin — pela esposa. Outras semelhanças incluem o facto de Mathilda estabelecer uma relação com um jovem poeta e de, Mary Shelley, como sabemos ter sido casada com o poeta Percy Shelley. Uma união que não teve o apoio de Godwin que, como o pai de Mathilda, se opôs à união da filha.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Independentemente deste aspeto, que vale o que vale, o que não pode ser negado é a originalidade da história que, se agora nos pode chocar, imagine-se outrora. Não que não seja um tema recorrente e abordado em diversas áreas e desde tempos tão remotos como a antiguidade clássica. A questão é que não surge desta forma. Quero eu dizer com isto que, quando este tema surge, é sempre tratado da mesma forma e nós tendemos sempre a ter a mesma reação, achamos que é terrível, que é anti-natural, que não ocorre, etc. O que é raríssimo é sentirmos compaixão pelos protagonistas de tais histórias. E foi isso que me aconteceu.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma palavra ainda para a relação que Mathilda estabeleceu com o poeta de quem vos falei. Também ele protagonista de uma história de amor condenada e imerso na sua própria tristeza. O que mais gostei neste âmbito (para além da vertente romântica e trágica!) relaciona-se com a forma díspar como ele e Mathilda encaram o futuro — ele confiante de que a sua existência tem um propósito e disponível para lidar com a sua tragédia pessoal de forma racional, e ela considerando que já nada se pode concertar e que o melhor fim é o alivio da sua presente situação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E por falar neste aspeto, gostava ainda e por fim de mencionar o quanto gostei do final da obra e da forma como tudo se resolveu. Acho que fez todo o sentido e, apesar de ter consciência de que diferentes pessoas olham este fim de diferentes formas, não teria conseguido pensar num fim que se encaixasse melhor com a história e com aquilo que a mesma representa e diz sobre nós, sobre a nossa natureza e sobre a forma como lidamos com as nossas próprias mágoas e desgostos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Creio que, quando lemos várias obras de um mesmo autor é quase impossível não as olharmos e compararmos. Aqui não foi diferente. Estava constantemente a relembrar-me de <em>Frankenstein</em> e a pensar como é que uma única pessoa pôde escrever coisas tão diferentes? Não em termos de qualidade, mas em termos de originalidade. E então pensei que isso realmente só pode vir da criatividade única de Mary Shelley que, frequentemente, não é devidamente apreciada; quer por ter vivido numa época dominada por incríveis poetas, quer por ser sobretudo associada a uma única obra, quer por ter vivido muito na sombra de outras personalidades. A verdade é que não vejo tanto escrito sobre Mary Shelley como sobre outros autores do mesmo tempo e certamente não vejo muito escrito sobre a sua obra que não seja focado em <em>Frankenstein</em>. E, após ler <em>Mathilda</em>, não entendo o porquê dessa atitude.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral gostei muito de <em>Mathilda</em>. Agora que já passaram uns dias desde que a conclui e olho para trás, vejo que não me consigo bem lembrar das expectativas que tinha quando a iniciei. E acho que isso tem a ver com o facto da obra as ter superado largamente. O que, independentemente daquilo que eu esperava ou não, é um ótimo sinal. Penso que existe uma tradução para português e garanto-vos que a obra se lê mesmo muito bem. É muito acessível em termos de vocabulário e é breve (o original não tem muito mais de 100 páginas). Para além de ser, por todas as razões que já enumerei, muito cativante. Então, se tiverem curiosidade, esta é uma ótima oportunidade para a lerem! Se já o fizeram, qual é a vossa opinião?</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:346352020-04-20T09:00:00“O Quebra-Nozes”, E.T.A. Hoffmann 2020-03-31T14:29:51Z2020-03-31T14:29:51Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span class="TextRun SCXW49323501 BCX4" lang="PT-PT" style="font-size: 12pt;" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun SCXW49323501 BCX4">Todos a condenavam por ser uma sonhadora.</span></span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 113px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8b17ca3d/21748635_sBCso.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="178" height="173" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Toda a gente conhece a história. É exatamente o tipo de história que nos habituamos a ouvir e a ver adaptada nas mais diversas formas ao longo do tempo e que, também por hábito e afeição, vamos reproduzindo e propagando também nós. Raramente pensamos acerca da sua origem ou sobre como seriam antes de serem tão transformadas pelas sucessivas adaptações. Confesso que foi por causa do <em>ballet</em> que me lembrei de ler a história original de <em>O Quebra-Nozes</em>. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Quebra-</em><em>Nozes </em>(1816), como Hoffmann primeiramente escreveu, conta a história de Marie Stahlbaum e das suas aventuras com o seu brinquedo preferido, um quebra-nozes. A história começa numa véspera de natal quando às doze badaladas, Marie observa os seus brinquedos, liderados pelo quebra-nozes, a ganharem vida para combater uma invasão de exército de rato</span><span style="font-size: 12pt;">s. Mais tarde, o quebra-nozes volta novamente à vida e leva Marie para um reino distante, feito de doces e habitado por brinquedos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Fantástico, Fantasia, Gótico, Romantismo, Contos de fadas, neste conto estát tudo presente. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como vos disse, as adaptações desta história são imensas e as mais variadas. Quando era menina adorava a adaptação fílmica da Mattel, era provavelmente dos meus filmes preferidos e um dos que mais via. O<em> ballet</em> é lindíssimo e sempre que está no programa da temporada, não perco a hipótese de ver. Já sabia que as adaptações são sempre um problema porque nunca se conseguem manter completamente fiéis ao original e, nesse âmbito, gostava de destacar algumas diferenças de Hoffmann para as versões que temos hoje (a maioria, na verdade, são baseadas na adaptação de Dumas desta versão de Hoffmann), já que falar da história é repetir o que já foi dito mil vezes. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Talvez a diferença mais evidente seja mesmo o nome da protagonista. O meu espanto ao encontrar uma Marie ao invés de uma Clara foi grande e o tempo que eu gastei em busca da Clara a que estava habituada foi ainda maior. Até que descobri que Clara, nesta versão original, é apenas uma boneca da protagonista Marie. Mesmo assim, fiquei mais pronta para ver a boneca Clara como protagonista do que Marie, tal a influência que apenas um detalhe tem em nós! </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Depois, a idade dos protagonistas. Na minha cabeça vejo a adaptação fílmica, os dançarinos no <em>ballet</em>, e tudo me remete para protagonistas jovens adultos. A própria história, vejo-a sempre como romântica e associo-a a protagonistas adolescentes, adultos. Ler a versão de Hoffmann protagonizada por uma menina de 7 anos foi, confesso, muito estranho para mim. Por causa, lá está, da associação a uma componente romântica que, de certo modo, acaba também por estar presente aqui, embora de outro modo. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na verdade, uma coisa de que gostei aqui foi a candura da vertente conto de fadas que, desprovida da componente romântica a que estamos habituados, surge de um modo muito diferente, mas ainda assim agradável. Gostei imenso da viagem </span><span style="font-size: 12pt;">à terra dos doces e do conto que Drosselmeyer conta a Marie e que surge no meio do conto principal para explicar como o príncipe se transformou em quebra-nozes. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, como poder perceber, gostei imenso desta leitura. É diferente, sim. É mais leve por isso, não. É tão agradável voltarmos a contactar com este tipo de histórias que ouvimos quando eramos pequenos e que apreendemos agora de diferente forma. É sempre uma experiência extraordinária. O ano passado li pela primeira vez <em>Peter </em><em>Pan</em>, uma das minhas histórias de infância preferidas e senti muito isso. Com <em>O</em> <em>Quebra-Nozes</em>, apesar de tudo, foi diferente porque, como vos disse, existem diferenças que, apesar de parecerem pequenas, fazem tanta diferença que, no fundo, é como ler uma história diferente. E vocês, o que acham? Conhecem a história? Qual a versão com que estão mais familiarizados? Também gostam de voltar a ler os contos de que gostavam quando eram crianças? O quão diferentes são eles agora para vós? </span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:341772020-04-13T09:00:00“Dubliners”, James Joyce 2020-03-23T14:57:01Z2020-03-23T14:57:01Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><span class="TextRun SCXW43520197 BCX4" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun SCXW43520197 BCX4">“Um por um, estavam todos a tornar-se sombras. É preferível partir para aquele outro mundo de forma arriscada, na completa glória de alguma paixão, do que desvanecer e murchar tristemente com a idade”</span></span></span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 202px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="1540-1.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bac178eda/21737496_aBhSg.jpeg" alt="1540-1.jpg" width="340" height="202" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pessoalmente e enquanto leitora, gosto muito de James Joyce e da sua obra. <em>Ulysses</em> é um dos meus livros preferidos de sempre e devem existir poucas entidades literárias de que goste tanto ou que me fascinem tanto quanto este autor. Então, quando pensei nos livros que queria ler este ano coloquei na "lista" dois livros de Joyce, tendo este sido o primeiro que consegui comprar e ler. </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Dubliners</em> (1914) é uma coleção de 15 contos que seguem cidadãos de Dublin. No fim, a obra acaba por funcionar como um retrato da classe média irlandesa que surge representada por diferentes pessoas, diferentes ambientes, diferentes histórias. Todas juntas surgem como esta tal representação de uma sociedade que, apesar de ser especificamente situada no tempo e no espaço, acaba por ser também transversal a eles. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como se tratam de diversos contos que não tem qualquer tipo de ligação entre si, é muito difícil resumir a obra além disto pelo que aproveito apenas para, à semelhança do que fiz no <em>post</em> sobre <em>Tales </em><em>of</em> <em>Ordinary</em> <em>Madness</em> de Bukowski, vos falar de alguns dos contos de que mais gostei. “Araby” e “The Dead” foram talvez os meus preferidos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">“Araby” segue um jovem que está apaixonado. Para mim, que mais sobressai no conto é o sentimento do narrador e a idealização do objeto desejado. Existe no conto uma clara oposição entre a realidade e a imaginação que acaba por culminar num desencantamento que contribui para o amadurecimento do personagem e que ilustra as consequências da idealização e da romantização. Sei que gostei imenso do conto devido precisamente a este aspeto, ao diálogo constante entre a sensibilidade e a razão que acaba, a certo ponto também por ser um símbolo da oposição entre duas tradições estéticas. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">“The Dead” gira à volta de um protagonista e das relações e interações dele com as pessoas à sua volta. É o conto mais longo e eu gostei particularmente dele pelo seu final onde o narrador reflete acerca da efemeridade da vida e dos momentos que vão dar lugar às memórias que nos ocupam até deixarem elas também de existir. Gostei, além disso, especialmente do momento que desencadeou esta reflexão. O protagonista ouvira a esposa falar sobre o seu primeiro amor e foi exatamente isto e a estranheza da vida que ela tivera antes de estar com ele e que ele nunca considerara que pudesse ter existido que o conduziu à reflexão acerca da importância das pessoas na vida de alguém e da forma como essa importância se perde e tudo se torna apenas em memórias. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma coisa que notei é que quase todos os contos incluem uma espécie de viagem que termina sem conclusão, isto é, é em vão. E conto isto porque acho muito simbólico, tanto da obra como daquilo que ela pretende representar. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Achei que podia fazer sentido falar de alguns contos a título de exemplo e destaquei estes dois porque, realmente, foram os meus preferidos, o que não quer dizer que eu ache que sejam melhores ou piores que qualquer outro, até porque, no geral gostei muito de todos. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não tenho a certeza deste livro estar traduzido em português. Eu li a versão original e vejo-a com frequência à venda em diversas livrarias. Esta foi uma leitura da qual, como podem calcular, gostei imenso. É muito interessante sob todos os pontos de vista e se ficaram com curiosidade ou se gostam do autor ou do estilo, recomendo-vos! </span></p>
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