urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennetA Outra Menina BennetSofiaLiveJournal / SAPO BlogsSofia2020-03-30T08:00:00Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:343832020-03-30T09:00:00“A Peste”, Albert Camus2020-03-26T18:28:52Z2020-03-26T18:28:52Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">De facto, ouvindo os gritos de alegria que cresciam na cidade, Rieux recordou-se de que essa alegria estava ameaçada para sempre. Porque ele sabia o que essa multidão em alegria ignorava e que pode ser lido nos livros, que o bacilo da praga nunca morre nem desaparece, que pode permanecer adormecido por décadas em móveis e têxteis, que ele aguarda pacientemente em quartos, caves, malas, lenços e papeladas e que, talvez chegue o dia em que, para infortúnio e educação dos homens, a praga desperte os seus ratos e os envie para morrer numa cidade feliz.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 116px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba317cd3c/21741688_DU2Q7.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="175" height="172" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não vou fingir que vos venho falar deste livro em particular por alguma razão que não a situação atual que todos vivemos. <em>A Peste </em>estava na minha lista há algum tempo, sobretudo porque gosto muito de Camus. Lembro-me que quando li <em>O Mito de Sísifo</em> — que foi o último livro do autor que li — era para ter lido antes este. Depois foi passando e, não fosse o que se está a passar agora, não me parece que me tivesse lembrado tão cedo. Mas ainda bem que me lembrei.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>A Peste</em> (1947), que recentemente e pelas piores razões se tornou um <em>bestseller</em>, tem uma história que agora e infelizmente é bastante conhecida. Segue a cidade francesa de Oran que é assolada pela peste. Tudo começa quando inúmeros ratos começam a morrer pelas ruas da cidade e, daí até que a população comece a ser afetada pela peste é um instante. A obra foca-se muito na forma como a população lida com esta situação, coletivamente e individualmente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Talvez comece por falar de aspetos mais práticos. A peste atacou, as pessoas tiveram de se isolar, os militares tiveram de intervir, a quantidade de funerais aumentou exponencialmente, famílias foram desfeitas e relacionamentos destruídos, a peste não discriminou entre novos ou velhos, pobres ou ricos. E depois desapareceu. E todos ficaram felizes e tudo voltou ao normal e foi como se aquele período de tempo não tivesse ocorrido. A citação que escolhi para o início deste <em>post </em>é a última da obra e é uma das minhas preferidas e discorre sobre isso mesmo. E, sobretudo, alerta para esse aspeto extraordinariamente importante: a felicidade com o abandonar da peste será tão fugaz como ela porque o fenómeno é cíclico e talvez não aconteça em 100 anos e depois aconteça outra vez, ninguém sabe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E o quão interessante é ver que, não interessa em que época aconteça, acontece do mesmo modo. Só mudam as pessoas, embora nunca as suas reações. <em>A Peste </em>explora muito esse aspeto, como é que as pessoas reagem perante o impensável. E temos de tudo: umas tentam fugir e são detidas, outras quebram regras e são detidas, umas aproveitam a desgraça para tentar lucrar, outras para tentar ser os novos heróis, umas definham fisicamente, outras emocionalmente. E no fim, nunca foi só uma batalha do individuo, mas do coletivo. E mais significativo do que a reação única é a reação geral.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não faço ideia quantas pessoas já discutiram, escreveram ou falaram sobre esta obra nas últimas semanas. Realmente, as semelhanças são perturbadoras. Mas ainda mais perturbador é pensar que nunca considerámos que um evento cíclico que se repetiu em diversos períodos históricos não nos tocaria a nós, tão evoluídos e ocidentais. E talvez eu gostasse de falar desse aspeto em <em>A Peste</em> porque, de facto, aquilo de que mais gostei foi de ler e pensar sobre as diversas reações das pessoas a um acontecimento para o qual não só não estavam preparadas como nunca consideraram que pudesse acontecer. Temos, como tem sido provado, as reações mais diversas e extraordinárias. E, para mim, o aspeto mais interessante da obra é esse. Nunca pensamos que pode ser connosco até ser.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, partilho convosco que, segundo o que pude ler, a obra poderá ter sido inspirada em eventos reais. Oran terá mesmo sido uma cidade fustigada pela peste por mais do que uma ocasião, embora em dimensões muito inferiores às narradas aqui. Além disso, a vertente alegórica é explicita e bem conhecida, por isso não me vou alongar sobre isso, mas gostava novamente de sublinhar a componente filosófica de que também vos falei quando vos escrevi sobre <em>O Mito de Sísifo</em>. <em>A Peste </em>também é considerada uma obra existencialista e, a noção filosófica do “absurdo” que também encontramos em outras obras do autor é evidente. Como é que o Homem reage quando colocado numa situação que nunca pensou vir a viver?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como podem calcular, gostei imenso da obra. Fez-me lembrar também <em>O Estrangeiro</em>, que foi a primeira obra que li de Camus e a qual me impressionou muito na altura. Tenho pena de não ter lido <em>A Peste </em>antes e ainda mais de a ter lido pelas razões que li. Mas, como disse, ainda bem que o fiz. Sei que, provavelmente, o facto de ser tão fácil agora identificar a nossa situação com a história faz com que gostemos mais da obra, mas simultaneamente há muito mais do que isso. É uma obra tão completa. É muito mais do que apenas uma história sobre a peste, relaciona-se muito com a nossa natureza, com o modo como respondemos ao que nos acontece, como agimos e como sentimos. E sobretudo, existe a reflexão que a obra desperta em nós e que é tão única e importante. A obra está traduzida em português e a versão em francês que eu utilizei está também em todo o lado, se estiverem interessados. Se calhar já leram, mas se não leram, recomendo muito. E se leram, o que acharam?</span></p>
</div>
<p> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:336442020-03-24T09:00:00“Histórias de Loucura Normal”, Charles Bukowski2020-03-07T13:07:06Z2020-03-23T14:58:17Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Os nossos pecados são criados no paraíso para originar o nosso próprio inferno.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 126px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="transferir.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B55170288/21719850_zvkYZ.jpeg" alt="transferir.jpg" width="183" height="182" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Lembro-me que o primeiro livro que li de Bukowski foi <em>Música para Aguardente</em>. Lembro-me de ter ficado bastante impressionada, talvez mais chocada do que impressionada, compreendo agora. Desde então, nunca li mais nenhum livro deste autor, com exceção de um conto aqui e ali. Surge sempre algo que sinto mais inclinação para ler ou simplesmente não me lembro. Mas há um tempo encontrei a versão original desta obra e pensei, porque não?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Histórias de Loucura Normal</em> é uma coleção de contos e por isso, não pode ser resumida. Mas isso também não é preciso para alguém que costuma ler, ou alguma vez leu, algo de Bukowski. É mais do mesmo, sinceramente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Poderia destacar vários contos de que gostei particularmente, mas para não me alongar vou apenas mencionar-vos “Animal Crackers in my soup”. Se tivesse de dizer porque gostei mais deste do que de qualquer outro não saberia explicar, mas sei que foi o que produziu uma impressão mais forte em mim. É essencialmente sobre uma mulher, Carol, que tem um zoo e vive com todos estes animais exóticos com os quais tem relações estreitas e , no mínimo, bizarras. Ela e o narrador “apaixonam-se” e começam a ter toda esta existência à parte da restante sociedade que, claro, olha para aquela situação de lado. Sabem que eu não gosto de dar muitos detalhes sobre as histórias para o caso de quererem ler. Mas digo-vos que este conto em particular é muito estranho, mas muito alegórico e extraordinariamente cativante, de uma forma inquietante.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sei que Bukowski vai sempre ser um caso contraditório que levanta opiniões diferentes e geralmente bastante opostas, tanto a nível da crítica especializada como da cultura popular. Sinceramente nunca vou perceber bem porquê, mas já me habituei a que ele seja um destes autores de que, ou se gosta muito ou não se gosta nada. Por estranho que pareça, a mim é-me ligeiramente indiferente. Gosto mas não adoro. Lê-se bem, mas não é algo que desperte em mim um desejo de ler só porque sim. Não me incomoda, não me faz refletir sobre nada em particular, é só literatura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não obstante, quer gostemos ou não, acho que há algo em que ninguém lhe pode retirar mérito. Bukowski romantizou um tipo de pessoas às quais nunca ninguém sequer deu importância. As nossas sociedades, e consequentemente, a nossa literatura, não são só compostas por pessoas finas, por aristocracias, pela burguesia, por heróis pobres e órfãos, por detetives sobredotados, por meninas polidas ou herdeiras, por <em>seasons</em>, ou como é agora tão popular, por liceus ou criaturas mágicas. Bukowski deu voz a uma franja da população que foi e ainda é constantemente marginalizada. E, na minha opinião, isso não pode menosprezado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Claro que há sempre um mesmo fator que me incomoda – e que é tantas vezes apontado à escrita deste autor – refiro-me claro a uma espécie de egocentrismo que, com efeito, transparece muito em qualquer obra dele e que como é óbvio atrapalha (pelo menos a mim) a leitura. Mas já encaro isso como algo inerente à escrita dele. O pior aspeto, na minha opinião, mas enfim.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para concluir, <em>Histórias de Loucura Normal</em> foi uma obra que gostei de ler. Não adorei, mas leu-se bastante bem. Todavia, vou ficar outra vez algum tempo sem voltar a este autor. Realmente, há autores cujo estilo e obra, por muito que gostemos, nos cansa. Também vos acontece? Esse parece ser o meu caso com Bukowski. O que acham vocês do autor e da sua obra? Leram? Têm curiosidade? Sei que esta obra em particular está traduzida em português e, como vos disse, lê-se bem e rapidamente, não é muito longa. Se nunca leram nada do autor, nunca é tarde.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:334062020-03-16T09:00:00“De Profundis”, Oscar Wilde2020-03-01T18:17:27Z2020-03-01T18:17:27Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Os deuses são estranhos. Não são os nossos vícios que eles utilizam como instrumento para nos magoar. Eles levam-nos à ruína através daquilo que em nós é bom, gentil, humano, afetuoso.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 125px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="transferir.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B83186c62/21705855_3ICOT.jpeg" alt="transferir.jpg" width="225" height="125" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A obra de que vos falo esta semana foi novamente uma leitura de oportunidade. É verdade que não me teria lembrado dela se não a tivesse visto recentemente à venda numa livraria. Mas também é verdade que assim que a vi não pensei duas vezes. Gosto muito das obras de Oscar Wilde e, enquanto artista, gosto bastante dele. Assim, fiquei muito entusiasmada com <em>De Profundis</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>De Profundis </em>(1897) é, na verdade, uma longa carta. Como sabem, Wilde esteve preso durante dois anos por conduta indecente. Foi nesse tempo que escreveu esta carta ao seu amante, Lord Alfred Douglas. Como é conhecido, foi do caso de ambos e pela mão do pai de Douglas que Wilde acabaria por ser denunciado e condenado. Nesta carta, o autor fala acerca dos tempos que antecederam a sua prisão, o processo que a decretou e o romance que o incentivou, bem como sobre o comportamento de Douglas e sobre o seu afeto por ele. Porém, a obra acaba por ser mais conhecida devido à exposição do autor da sua visão em relação a aspetos como a arte, a estética, a religião ou a sociedade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta foi a leitura que mais me surpreendeu nos últimos tempos. Confesso que não esperava muito quando a comecei e que talvez seja por isso mesmo que fiquei tão espantada. Mais do que a história pessoal que origina a carta, tenho de destacar precisamente a reflexão profunda acerca da arte e da relação desta com o individuo, com a sociedade e com a natureza. Definitivamente a minha parte preferida e algo que completa muito a minha precepção de <em>The Picture of Dorian Gray</em>, um dos meus livros preferidos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Igualmente, a reflexão em relação à religião e ao peso da religião na arte, sobretudo na literatura. Sabemos que religião e literatura estão muito relacionadas, desde sempre, mais não seja que em função da composição biblíca, mas realmente a forma como Wilde aborda esse aspeto agradou-me muito. Sobretudo a relação que ele estabelece entre a literatura romântica e a religião cristã. Se calhar porque foi algo que nunca considerei significativamente, mas surpreendeu-me mesmo e gostei muito de ler sobre isso aqui.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também não posso deixar de mencionar a reflexão acerca da condição humana e das nossas atitudes que a obra suscitou em mim muito em função da descrição da relação que acaba por originar esta carta. Como é que podemos ser tão vis e hostis e como é que nos podemos sujeitar à crueldade uns dos outros e chamar a isso amor. E sobretudo, de onde vem a nossa capacidade ilimitada de odiar, de amar a extremos e de perdoar?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que mais me impressionou, no caso da história subjacente a esta longa carta, foi o seu desfecho. A carta é marcada por um tom tão desencantado em relação ao romance e ao fim deste, é tão realista e crua; Wilde demonstra durante toda a composição que sabe que o modo como tal relacionamento foi conduzido fora errado, reconhece as suas falhas e a permissividade e denuncia o caracter de Douglas de forma tão veemente e clara; nunca me passaria pela cabeça que eles algum dia pudessem reconciliar-se, que Wilde poderia voltar a confiar numa pessoa que o explorou, que ele sabia que nunca o havia amado, que fora a razão da sua desgraça, da perda da sua fortuna, reputação, família, amigos e por fim liberdade. Mas, por fim, foi isso mesmo que aconteceu. Não me espantaria este desfecho em qualquer outro caso onde não houvesse a plena noção do quão errado tudo aquilo fora, mas ter consciência disso mesmo e voltar ao mesmo, perdoar e voltar a confiar, acho extraordinário. Talvez mais do que a própria carta, o desfecho pessoal daquilo que ela narra me tenha surpreendido ainda mais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Termino expressando novamente o quão surpresa fiquei com a obra e o quanto gostei de a ler. Genuinamente. Se puderem, não deixem de ler. É relativamente breve e lê-se rápida e facilmente. Não tenho a certeza de existir uma tradução para o português, mas ainda por aí vejo a versão em inglês à venda nas livrarias. Se tiverem essa oportunidade e, sobretudo se se interessarem por este tipo de reflexões, teorias e obras, acho sinceramente que é uma obra que devem ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4,5/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:330732020-03-09T09:00:00“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago2020-02-27T11:40:05Z2020-02-27T11:40:05Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Tem cada um o seu modo pessoal de dormir e morrer, julgamos nós, mas é o dilúvio que continua, chove sobre nós o tempo, o tempo nos afoga.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 196px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="images.jpeg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B95173746/21700124_Ag1Lo.jpeg" alt="images.jpeg" width="196" height="196" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não sei sobre quantas obras de Saramago já vos falei aqui, mas sei que já foram algumas. Como já vos contei, sou uma grande fã. Em relação a esta escolha em particular, apesar de há muito estar na lista de obras de Saramago que queria ler, confesso que foi devido ao filme baseado na obra e realizado por João Botelho que está para estrear que me decidi de uma vez a comprar e a ler. Não fosse isso, talvez tivesse optado por outra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>O Ano da Morte de Ricardo Reis </em>(1984) segue o heterónimo de Fernando Pessoa que chega a Portugal vindo do Brasil precisamente na altura em que Pessoa morre. Após 16 anos ausente, o protagonista chega a Lisboa no fim do ano de 1935 e aí permanecerá por um período limitado de tempo. A partir de então, a história segue Ricardo Reis a procurar estabelecer-se como médico, as suas relações com Lídia - a empregada do hotel onde primeiramente reside -, e Marcenda - uma hóspede do mesmo hotel -, bem como as visitas que vai recendo do próprio Fernando Pessoa. Ambientada em 1935-6, a história acaba por incluir diversos eventos que decorriam então e, desse modo, aborda acontecimentos como o surgimento e o estabelecimento do fascismo em Portugal, Espanha e restante Europa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como calculam o tom da obra acaba por ser significativamente político. Para não mencionar a sempre presente vertente filosófica que caracteriza a escrita de Saramago. Se segue o <em>blog </em>sabem que não gosto nem costumo tecer comentário ou considerações a respeito de tais momentos e agora não será diferente. Opiniões são opiniões e, nestes casos são mais pessoais e, por conseguinte, mais sensíveis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A questão do heterónimo. Apesar de achar a ideia muito original, confesso que no inicio comecei por estranhar e tive alguns problemas em levar mais seriamente a leitura. Mas esta "estranheza" durou muito pouco tempo. Lá para o meio já estava tão emersa que nem me lembrava dessa questão. Até ao fim mantive a curiosidade de saber onde e como ia acabar a narrativa por causa deste aspeto. Gostei bastante do desfecho. Não o esperava mas acho que fez todo o sentido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sobre a componente “romântica”, se assim lhe podemos chamar, acredito que seja a primeira vez que não tenho muito a dizer. Isto porque ainda não tenho a certeza de a ter compreendido bem. Parece-me que esta questão está incrivelmente ligada com os heterónimos e com uma componente existencial. Para além disso, começei a certo ponto a ver Lídia e Marcenda como símbolos de diferentes tipos de amor, como o emocial e o físico, por exemplo. Consequentemente, elas e as relações, emoções e mesmo ações que despertam no protagonista são exemplificativas, a meu ver, de algo que vai muito além de uma mera simbologia romântica e/ou afetiva.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Por fim, sobre as visitas de Fernando Pessoa, que dizer? Talvez nelas a tal componente filosófica se expresse ainda mais. Acho que foram os meus momentos preferidos. Lembro-me de a certo ponto, quando já passavam muitas páginas desde a última visita dele a Ricardo Reis, me ter questionado o porquê da demora. Foram genuinamente os momentos que mais apreciei.</span><span style="font-size: 14pt;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">De um modo geral, gostei bastante da leitura e por isso incentivo-vos a ler esta obra. Não obstante, não foi uma das obras do autor de que mais gostei. Consigo lembrar-me de uma mão cheia de outras que me cativaram e entusiasmaram mais. Ainda assim, gostei muito de ler <em>O Ano da Morte de Ricardo Reis </em>e estou desejosa de ver a adaptação filmica. E vocês? O que acham da obra? Já leram? Gostaram? Pensam ir ver o filme?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:329962020-03-02T09:00:00“La Prespective Nevski”, Nicolas Gogol2020-02-21T22:08:44Z2020-02-21T22:08:44Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Juntamente com a iluminação de rua, tudo respira ilusão.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 110px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="71SlaSo0xfL.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc8173f6d/21696783_NzASy.jpeg" alt="71SlaSo0xfL.jpg" width="437" height="168" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta leitura foi verdadeiramente um caso de oportunidade. Há algum tempo que queria ler algo deste autor e nunca consegui. Ora porque não encontrava à venda, ora porque não queria mandar vir em outro idioma, ora porque simplesmente me esquecia que queria ler. Aconteceu recentemente ver esta edição em francês à venda numa livraria e, como era tão acessível, nem pensei duas vezes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Esta edição tem dois contos, mas para não falar de ambos decidi escrever-vos sobre o primeiro, intitulado em francês <em>La Prespective Nevski</em> (1835). O conto começa por descrever a rua de Peterburgo que lhe dá título, prosseguindo narrarando dois acontecimentos específicos. Primeiramente, um individuo, Piskariov, que segue uma mulher por quem se sente atraído até àquilo que se revela ser um bordel. Se primeiramente fica chocado pelo que vê, mais tarde, Piskariov decide pedir esta mulher em casamento. Quando esta história conhece o seu desfecho - que não vos vou revelar -, o conto prossegue com Pirogov que faz exatamente o mesmo que Piskariov, ou seja segue uma mulher, desta vez, até à casa dela, apenas para descobrir que ela é casada. Regressa, no entanto, mais tarde para a tentar seduzir.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Aquilo que mais me chamou a atenção e que mais me agradou foi o diálogo entre tradições. Se a primeira parte do conto, a que segue Piskariov, é uma clara referência e paródia à tradição sentimental, com um herói romântico em todos os aspetos, que idealiza o mundo e as pessoas que o habitam e que vive mais em sonhos do que na realidade, a segunda parte é uma invalidação do realismo que se lhe opõe, com um protagonista que é tudo menos romântico e que corre atrás daquilo que quer sem piedade, operando de forma exageradamente prática. Juntos no mesmo conto, as duas perspetivas, as duas histórias, permitem observar que nem uma tradição nem a outra são necessariamente exemplos ilustrativos da vida real e da forma como os seres se comportam. Somos sempre uma mistura das duas coisas, não é? Um equilibro entre razão e emoção. Na maior parte dos casos, pelo menos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral eu gostei bastante do conto. Mais pelo que simboliza do que propriamente pela história, confesso. Agradou-me sobretudo este diálogo que vos referi com outras tradições, o questionamento e o colocar em causa de determinadas questões e géneros literários e estéticos. Claro que a história também acaba por cativar porque tem claramente uma vertente cómica, mas realmente aquilo de que mais gostei foi do seu significado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não faço ideia se existe uma tradução deste conto para português. Suponho que sim porque existem algumas coleções de Gogol traduzidas, penso, mas realmente não tenho a certeza. Em inglês deve, com toda a certeza, existir. A minha versão em francês foi mesmo muito acessível e contém além deste conto, “Le Manteau" , do qual também gostei, embora, confesso, não tanto. Se tiverem oportunidade não deixem de ler <em>La Prespective Nevski</em>. É agradável, simbólico e relativamente pequeno.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3,5/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:325202020-02-24T09:00:00“Cartas a Milena”, Franz Kafka2020-02-14T20:38:21Z2020-02-14T20:38:21Z<blockquote>
<p class="Corpo" style="text-align: center; line-height: 150%;" align="center"><span style="font-size: 12pt;">Estou cansado, não consigo pensar em nada e quero apenas descansar a minha cabeça no teu colo, sentir a tua mão na minha cabeça e ficar assim por toda a eternidade.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://cdn.mydeal.com.au/44440/letters-to-milena-vintage-classics-403080_00.jpg" alt="Resultado de imagem para letters to milena vintage classics" width="157" height="157" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Já vos tinha contado, no verão passado, quando vos falei de <em>Letters to Vèra</em>, a coleção de correspondência de Vladimir Nabokov para a sua esposa Vèra, que gosto bastante de ler a correspondência de escritores e artistas. Kafka é um dos escritores cuja correspondência pessoal é mais popular. E um dos escritores que mais admiro. Confesso que a minha primeira ideia era ler a sua correspondência a Felice, que foi sua noiva. Todavia, encontrei <em>Letters to Milena</em> à venda recentemente e decidi ler esta primeiro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Franz Kafka e Milena Jesenská tiveram um caso amoroso relativamente breve mas, aparentemente, bastante intenso. Kafka conheceu Milena quando ela estava a traduzir obras dele para checo. O caso começou e terminou quase do mesmo modo, fugazmente. Enquanto durou, a correspondência foi bastante recorrente. Porém, eles não ficaram juntos. Milena era casada e não se divorciou do marido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Podem questionar-se sobre o interesse de ler a correspondência de um autor. Realmente, não é o mesmo que ler uma obra sua. Mas, na verdade, como podemos nós conhecer a obra se não conhecemos o artista? Não vou ser pretensiosa ao ponto de dizer que ler aquilo que Kafka escreveu a uma amante me fez entendê-lo e mudou a minha perspectiva em relação às obras dele porque seria mentira. Mas, ler esta correspondência permitiu que eu o visse mais como uma pessoa. É como se antes a minha perceção dele fosse incompleta. É exatamente este aspeto que me fascina na correspondência dos artistas. Lemos estas coisas pessoais e entendemos que estas pessoas sentiam e viviam coisas iguais às que nós sentimos e vivemos. Podiam ser geniais, mas eram tão humanos como nós. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E claro, a questão poética. As cartas são lindíssimas. E desse ponto de vista não posso deixar de mencionar que, realmente, o que mais me cativou nelas foi a componente romântica. Confesso que também foi essencialmente por essa razão que eu quis ler a obra. Mas depois tornou-se mais do que isso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A certo ponto questionei-me e, sei que qualquer pessoa que lê esta correspondência se questiona igualmente, em relação ao porquê de Kafka e Milena, que pareciam tão apaixonados e compatíveis, não terem ficado juntos. Bem, a certo ponto, eu comecei a pensar que foi exatamente por causa disso. Talvez a relação fosse demasiado intelectual e, parece-me a mim, a certo ponto, a existência do marido de Milena fosse fundamental à sua dinâmica. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também não posso deixar de mencionar o quão mais belas as cartas ficam à medida que nos aproximamos do fim, quando o romance está praticamente condenado e a única saída é terminá-lo. As cartas mais bonitas, na minha opinião, são as que anunciam esse inevitável desfecho.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em suma, eu gostei imenso desta leitura. E, como tal, não posso deixar de vos recomendar. Pode não ter ou contar diretamente uma história, mas, de certo modo, é exactamente isso que faz. E, o melhor de tudo é que conta uma história real. E dá-nos uma imagem de Kafka que nós nem sempre temos. Afinal, a obra dele não tem nada de romântico e/ ou sentimental. Além disso, não pode deixar de ser mencionado que, nesta correspondência, já se vê muito do indivíduo que escreveu obras tão claustrofóbicas e reflexivas como <em>Metamorfose</em> ou <em>O Processo</em>. A arte nunca se limita apenas à obra, tem muito mais a ver com o artista. E é exatamente por isso que é tão importante e interessante este tipo de leitura. Sei que existe uma tradução deste livro para português então, se puderem e tiverem curiosidade, não deixem de ler!</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:323172020-02-17T09:00:00“Maggie Cassidy”, Jack Kerouac2020-02-08T20:42:50Z2020-02-08T20:42:50Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Ela meditava e mordia os seus lábios: a minha alma começou o primeiro mergulho nela, profunda, inebriante, perdida; como se se afogasse numa poção de bruxas, céltica, enfeitiçante, estelar.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 108px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="transferir.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bc7172376/21686169_SzTTe.jpeg" alt="transferir.jpg" width="181" height="159" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>On the Road</em>, ou em português, <em>Pela Estrada Fora</em>, é um dos meus livros preferidos de sempre e fez-me gostar muito de Kerouac, vulto maior da conhecida <em>Geração Beat</em>. No outro dia, quando estava numa livraria deparei-me com este <em>Maggie Cassidy</em>. Lembro-me de ter ficado muito surpreendida por ver Kerouac à venda aqui, no original e numa obra que não é <em>On the Road</em>. Decidi logo comprar, mas foi a história do livro que me entusiasmou para a leitura. <em>Maggie Cassidy </em>tem uma ligação com <em>On the Road</em>. O autor pensou-o como parte da mesma realidade. Foi muito entusiasmada que comecei a leitura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Maggie Cassidy </em>(1959) é uma história sobre um primeiro amor. A obra segue Jack Duluoz, um aluno do secundário que se apaixona pela mais velha e errática Maggie Cassidy. Os dois começam um romance que se torna rapidamente tão eletrizante e inconstante quanto Maggie.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como é sabido, muitas das produções de Kerouac caracterizam-se pelo peso autobiográfico. Com <em>Maggie Cassidy</em> não é diferente e, segundo aquilo que pude apurar todas as personagens são baseadas em pessoas reais da vida do autor. Inclusive a sua Maggie e o romance que dá vida à obra. Maggie Cassidy e o seu romance com Jack Duluoz terão sido baseados em Mary Carney e no relacionamente desta com o autor. Aliás reparem na semelhança dos nomes: Mary/Maggie, Jack/Jack. </span><span style="font-size: 12pt;">Além disso, como curiosidade, notem também a semelhança do nome desta heroína e de Neal Cassady que, como sabemos, inspirou o herói de </span><em style="font-size: 12pt;">On the Road</em><span style="font-size: 12pt;">, Dean Moriarty.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Falo-vos disto porque gosto muito quando a semelhança dos personagens literários com as pessoas da vida dos autores é tão abertamente abordada e declaradamente assumida. É o aceitar do impacto da vida na arte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Aspetos mais gerais que destaco. Como sabem, adoro a vertente romântica de qualquer obra, portanto calculam que adorei ler este livro sobretudo por esse aspeto. O romance aqui é “estranho”, mas muito humano e, por isso, doce. Porque é que digo isto? Há uma passagem em que o autor diz, muito sinteticamente, que o único amor é o primeiro, como a única morte é a última. Tenho pensado muito nisso desde que acabei de ler a obra e penso que percebo agora o que está em causa. A tal inocência que se perde, não é? É por isso que dizemos que não há amor como o primeiro? Porque é tão novo, é tudo tão novo, que as coisas são experienciadas de uma forma inocente e extrema que nunca volta a ocorrer?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Bem, eu acho que <em>Maggie Cassidy</em> é exatamente sobre isso. E funciona bem precisamente derivado a esse aspeto. Temos um adolescente que se apaixona pela primeira vez e sente e faz tudo de uma forma muito inocente e, como consequente, errática. E é tudo muito inebriante e deslumbrante e tudo isso passa para o leitor. E eu considero tal a melhor coisa da escrita de Kerouac: a expressão desse tipo de sentimentos extremos e impulsivos que dão à sua obra aquela essência tão rebelde e simultaneamente tão etérea que expressa tão bem a nossa nostalgia por tudo o que vivemos e nunca poderemos viver outra vez. E tudo sob uma representação que nos fascina e nos faz pensar que aquilo nunca nos aconteceu nem poderia ter acontecido. É uma romantização muito bela, porque é muito crua. Faz-me pensar que eu nunca vivi aquilo, que poderia ter vivido, que queria ter vivido. Mas na verdade é mentira, porque vivi, só que vivi de forma diferente. E isso ocorre com todas as obras dele, não vos parece?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também não devo deixar de mencionar o lugar da obra em termos da tradição americana e da conceptualização do <em>sonho americano</em>, sempre presente em Kerouac, não esquecendo também a vertente <em>coming of age</em> e a óbvia inserção na tradição <em>Beat</em> que continua a ter um impacto extraordinário na vida e na cultura e produção artística americana. A história de Jack e Maggie ainda a podemos observar em muitos filmes americanos dos mais variados géneros. É, no fundo, a representação do típico primeiro amor, aquele que falha sempre porque nunca é 100% igualitário. Aqui, Maggie foi o primeiro amor de Jack, mas o Jack não o foi o primeiro amor da Maggie.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma última palavra para a semelhança de Maggie com o herói típico de Kerouac: eletrizante, errático, inacessível. O tipo de pessoa que nos fascina por não ser como nós, por nós querermos ser como ela e não conseguirmos nem podermos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em conclusão, confesso que com esta leitura me aconteceu o mesmo que com a anterior de Dostoiveski. Ou seja, a minha leitura foi influenciada e prejudicada pelas minhas expectativas de leitora. Sei que não podia nem devia esperar de <em>Maggie Cassidy</em> um <em>On the Road</em>, mas isso não me impediu de o fazer. E, portanto, sei que não apreciei nem li a obra como devia e como teria feito se nunca tivesse lido <em>On the Road</em>. Não obstante, gostei imenso, como é lógico. Afinal é Kerouac. E, como tal, não deixo de vos recomendar. Não tenho conhecimento de uma tradução para o português, infelizmente, penso que não existe. Mas se puderem ler no original em inglês está acessível em todo o lado, não é caro e não é longo. Sei também que existem traduções para o francês e para o espanhol, se preferirem e tiverem ficado com curiosidade de ler!</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3,5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:321772020-02-10T09:00:00“Memórias do Subterrâneo”, Fiódor Dostoievski2020-02-08T20:23:05Z2020-02-08T20:23:05Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Chegamos a tal ponto que consideramos a verdadeira “vida viva” como um trabalho, quase como um serviço, e estamos todos intimamente de acordo que nos livros é melhor.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 111px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="transferir (1).jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B3a18264b/21686167_nBZvd.jpeg" alt="transferir (1).jpg" width="180" height="165" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu sei, há muito pouco tempo escrevi-vos sobre <em>Crime e Castigo</em>. Mas sabem que até recentemente não sabia que existia uma tradução em português de <em>Memórias do Subterrâneo</em> e sempre pensei que ia acabar por ler uma versão em inglês. Por esse motivo, fui adiando porque surgiam sempre outras obras em inglês a que dava preferência. Assim que descobri, muito casualmente, que tínhamos esta tradução, fiquei tão entusiasmada que a comprei logo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Memórias do Subterrâneo</em> (1864) divide-se em duas partes e é uma espécie de memórias de um narrador que não tem nome, pelo que vou chamá-lo aqui simplesmente de “narrador”. A primeira parte é um conjunto de pensamentos diversos; a segunda parte pode ser vista mais como uma história e encontra três personagens novos. Lemos sobre um oficial pelo qual o narrador está "fixado" desde um evento em que foi por ele tratado de forma menos cordial, sobre os colegas de escola do narrador com quem ele vai jantar fora e sobre Liza, uma prostituta com quem ele se envolve.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como sabem, qualquer obra deste autor está incrivelmente relacionada com questões filosóficas e, para a “compreendermos” - se é que isto alguma vez é possível na totalidade em relação a uma obra de arte -, devemos ter consciência disso. Neste âmbito, <em>Memórias do Subterrâneo</em> é entendida como uma obra do Existencialismo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não sei se sabem, mas existe uma obra de um escritor russo, Nikolai Chernyshevsky, intitulada na versão inglês que conheço <em>What is to be</em> <em>done</em>. Descobri que esta obra de Dostoievski foi escrita em resposta a essa de Chernyshevsky. Essa obra, por sua vez, foi escrita com o intuito de refutar e ironizar a obra de Turgenev, <em>Pais e Filhos</em>. A esta obra de Chernyshevsky, para além de Dostoievski, respondeu também um dos meus escritores preferidos, Vladimir Nabokov, num dos capítulos da sua obra <em>The Gift</em>. E porque é que estou a dizer isto tudo? Como sabem, <em>Pais e Filhos</em> é uma obra que encaixa numa corrente filosófica importantíssima e muito popular então, o Niilismo. Como resposta, Chernyshevsky criou uma obra cujo caracter utópico, sobretudo no referente aos pilares que devem sustentar uma sociedade, é por Dostoievski refutado e invalidado essencialmente, na minha opinião, na primeira parte. Parece-me também que é nesta parte que a crítica usual ao determinismo mais se nota.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Agora, num nível mais informal, conto-vos que aquilo que mais gostei foi como a obra é protagonizada por um narrador em tudo semelhante ao homem contemporâneo, com exceção de um aspeto. O narrador assume a sua natureza e os seus problemas. Como quando ele fala sobre ser um homem mau, a forma como aborda o seu desejo de vingança e o seu prazer em relação ao seu próprio sofrimento questionando-se: afinal, sem o nosso sofrimento, somos o quê exatamente? Se até o nosso sofrimento pode ser controlado pela sociedade e pelos seus meios, poderemos mesmo ser livres?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, destaco também o sentimento de <em>ennui</em> que o narrador claramente sente e que, não só me parece a causa dos seus pensamentos, como senti que passa muito para nós leitores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em relação à segunda parte menciono o oficial de quem, após uma abordagem menos polida, o narrador se tenta vingar, apenas para descobrir que o oficial não se importa nada com ele, não tem nada contra ele, e que o que acontecera antes havia sido apenas um momento da vida. Isolado de qualquer significado. Quantas vezes isto não acontece? Pensamos que alguém tem algo contra nós e o nosso instinto é logo magoar, mas no fundo, tal pessoa não se importa connosco e nós não fomos mais do que um segundo na vida dela, às vezes nem chegámos a inspirar um pensamento. </span><span style="font-size: 12pt;">E o que dizer do episódio do jantar com os colegas? Todas aquelas pessoas das quais o narrador nunca gostara e que agora vê como símbolo de toda uma sociedade que não suporta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não seria eu se não falasse numa componente romântica que, digo-vos já, sou capaz de ter inventado. Refiro-me à prostituta Liza. Dois aspetos da relação deles me parecem interessantes. A forma como o narrador tenta aparecer como um herói perante ela, a forma como pontifica e prevê o futuro terrível dela derivante da sua condição (fazendo com ela aquilo que ele mesmo abomina que a sociedade faça!) e o modo em como, simultaneamente, tem medo que ela conheça o mundo dele e tem vergonha do modo como vive, da sua casa, do seu criado, etc. Não vos parece isto um retrato distorcido do amor? Gostamos muito de uma pessoa e desejamos elevar-nos e acabamos a rebaixar o outro e temos vergonha de nós mesmos porque queremos que aquela pessoa nos veja como nós gostaríamos de ser. Voltando a Dostoievski, no fim de humilhar uma segunda vez Liza, o narrador pede-lhe desculpa em lágrimas e confessa-lhe precisamente que só a queria humilhar e ter poder sobre ela. E nós? Podemos gostar muito de uma pessoa, mas nunca vamos gostar mais dela do que de poder? Daí que o amor seja uma coisa extraordinária e tão desejada. Permite-nos exercer poder sobre alguém de forma aceitável e desculpável. De volta a <em>Memórias</em>, a</span><span style="font-size: 12pt;">pós ainda humilhar Liza depois do pedido de desculpas, ela deixa o narrador só e ele refere que para atenuar o sofrimento, nada melhor do que fantasiar. A obra acaba pouco depois, referindo o narrador que haveria muito mais contar, mas que era melhor ficar por ali e, se isso não é um retrato perfeito da vida, não sei o que será.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sei que já me alonguei em demasia, mas não posso ainda deixar de vos falar da quantidade inúmera de produções que esta obra inspirou. Aparentemente, entre personagens que a obra inspirou encontram-se Nikolai Levin de <em>Anna Karenina</em> , Mersault de <em>O Estrangeiro </em>de Camus, ou Gregor Samsa de <em>Metamorfose </em>de Kafka. Além disso também descobri que Scorcese se inspirou aqui para um dos meus filmes preferidos, <em>Taxi Driver</em>. Apenas vos falei de obras que conheço e das quais não sabia da influência desta obra, mas sei que o resto da lista deve ser enorme.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como podem ver, gostei imenso da obra. No entanto, sinto que a minha leitura foi bastante influenciada pela minha experiência prévia com obras do autor. Sei que não deveria estar à espera de algo como os <em>Karamázov </em>ou <em>Crime e Castigo</em>, mas sei que foi exatamente isso que aconteceu. Sinto que a minha experiência de leitura foi influenciada pelas minhas expectativas de leitora. O que acontece a todos e quase sempre, afinal, o ser humana não é, por natureza, a mais imparcial e serena das criaturas. Tenho consciência de que não li da melhor forma. Voltarei a este livro no futuro. E vocês? Já leram? Querem ler? Está traduzido e é muito pequeno, então porque não?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:319222020-02-03T09:00:00"Metamorfoses", Ovídio2020-01-31T20:06:42Z2020-01-31T20:06:42Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">É bem nocivo ser deus: a porta da morte está trancada para mim e prolonga o meu sofrer por toda a eternidade.</span></p>
</blockquote>
<p><div class='ljparseerror'>[<b>Error:</b> Irreparable invalid markup ('<img [...] ">') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]<br /><br /><div style="width: 95%; overflow: auto"><blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">É bem nocivo ser deus: a porta da morte está trancada para mim e prolonga o meu sofrer por toda a eternidade.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://static.fnac-static.com/multimedia/Images/PT/NR/53/b2/0c/832083/1540-1.jpg" alt="Resultado de imagem para metamorfoses ovidio"" width="173" height="173" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Este <em>post </em>mostra novamente que eu valorizo os comentários que me deixam aqui no <em>blog</em>. No último <em>post </em>de 2019, uma leitora mencionou que no ano de 2020 iria ler <em>Metamorfoses </em>de Ovídio e imediatamente eu decidi que iria fazer o mesmo. Tinha tido vontade de o ler nos primeiros anos de faculdade quando estudei cultura clássica, mas entretanto não li logo e fui-me esquecendo. No ano passado quando li <em>Arte de Amar</em> deste mesmo autor, voltei a lembrar-me e novamente me esqueci. Então, quando recebi aquele comentário, encomendei imediatamente o livro para não voltar a acontecer o mesmo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<div class="lj-cut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Metamorfoses </em>(c. VIII d.C) está divido em 15 livros e acompanha um ciclo histórico que inclui as quatro idades (ouro, prata, bronze e ferro) narrando simultaneamente a história dos homens e a dos deuses. Aqui se encontram diversos mitos que remontam à antiguidade clássica, assim como histórias que perduram desde então, como eventos concernentes à guerra de Tróia e mitos como o do nascimento de Baco ou o da queda de Ícaro. Perdi a conta a quantos mitos ali se incluem. Como é óbvio, é uma obra de impossível sumário.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Metamorfoses</em> foi logo popular assim que foi publicada e hoje continua a ser popular, o que diz muito sobre si. Não vou falar da quantidade imensurável de obras artísticas, teorias, estudos, etc, que inspirou porque, para além de ser claro, não me compete.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Conto-vos apenas aquilo que mais me chamou a atenção e aquilo de que mais gostei. Foi muito bom ler sobre os mitos que já conhecia e que já havia estudado com este novo pormenor, diretamente deste autor. Uma coisa é estudá-los, outra coisa é lê-los. Foi incrivelmente bom revisitar algumas das minhas histórias mitológicas preferidas como o mito de Narciso, Perséfone e Hades, Orfeu ou Dédalo e Ícaro, que vos recomendo especialmente. Não só por serem os meus preferidos, mas por serem muito frequentes e importantes na nossa cultura ocidental. Provavelmente, até já os conhecem, mas é sempre bom lê-los.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Existe no último livro desta obra um discurso sobre vegetarianismo que eu, claro, adorei, mas que me surpreendeu mais do que impressionou. Não estava nada à espera de encontrar algo assim aqui. Tal como vos falei recentemente do que li a esse respeito em <em>Queen Mab</em> de Shelley. Às vezes eu tenho esta mania terrível, mas muito recorrente sobretudo em pessoas da minha idade e mais jovens, de pensar que as coisas que nós fazemos e pensamos hoje são grandes e avançadas inovações, quando não o são. E depois fico imensamente fascinada quando sou relembrada de que já existiram pessoas algures, há séculos, que foram tão ou mais avançadas em termos civilizacionais e intelectuais do que nós.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma coisa que me espantou foi ninguém me ter dado esta obra como leitura obrigatória nos primeiros anos de faculdade. Aparece muitas vezes nas leituras recomendadas e, sem dúvida, que tinha lido e estudado excertos, mas nunca me disseram que tinha obrigatoriamente de a ler. Tudo bem que de estudos clássicos só frequentei uma cadeira, mas para mim é evidente a influência desta obra na literatura ocidental. Depois de ter lido <em>Metamorfoses</em>, juro que entendo a <em>Ilíada</em>, a<em> Odisseia</em> e a <em>Eneida</em> de outra forma. E se essas são leituras obrigatórias, porque é que esta não é?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Enfim, eu não queria falar muito alargadamente sobre esta obra devido, não só à sua complexidade e ao seu impacto, mas também à sua popularidade. Já foi incrivelmente discutida, debatida e eu não tenho nada a acrescentar, sobretudo neste registo informal, no qual apenas vos posso relatar o quanto gostei de ler <em>Metamorfoses</em>. Lê-se tão bem e a tradução é tão acessível que não consigo imaginar uma razão para que não a leiam!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p></div></div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:317162020-01-27T09:00:00“The Crucible”, Arthur Miller2020-01-23T17:09:38Z2020-01-23T17:09:38Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">How may I live without my name? I have given you my soul; leave me my name.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 122px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B711725ab/21674015_vCfut.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="182" height="179" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tive primeiramente contacto com a obra de Arthur Miller num teatro. Há cerca de um ano fui assistir à representação de <em>Do Alto da Ponte</em>, uma peça da qual gostei bastante. Pouco tempo depois li <em>Death of a Salesman</em>, vencedora do Pulitzer de 1949, da qual me lembro de não ter gostado assim tanto. Lembrei nesta semana que passou que queria ler uma peça e, por alguma razão, pensei em Arthur Miller. <em>The Crucible </em>foi meramente a escolha óbvia. Afinal, parece que é a peça mais conhecida do autor.</span></p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Crucible </em>(1953) está dividida em 4 actos e é uma ficcionalização de algo que realmente aconteceu - a perseguição e julgamento das ditas “bruxas” de Salem. A história de Miller segue no primeiro acto com uma contextualização histórica e com a exposição do principal problema e origem da história. A jovem filha do reverendo está doente sem se conseguir mover da cama e a sofrer de alucinações, isto após a ter sido descoberta na noite anterior com amigas a dançar de forma suspeita numa floresta. Daí às acusações de bruxaria vai um passo e, no acto dois já se observam diversas perseguições e diversas mulheres a serem presas sob acusações de bruxaria. O terceiro acto segue um julgamento e o quarto acto observa as consequências deste e de outros julgamentos. Isto num resumo muito simples e breve.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Após uma pesquisa, descobri que a peça é, aparentemente, uma alegoria para uma época especifica da história americana, refiro-me ao McCarthyism, que refere o acto de acusar alguém de mentira, subversão, traição, etc e que deriva o nome do senador americano Joseph Mcarthy que serviu entre 1947 e 1957. O termo celebrizou um momento de perseguição às pessoas acusadas de comunismo. Está claro que eu não sabia isto nem o deduzi da leitura da peça. Tal como escrevi, descobri em pesquisa posterior e, como achei interessante e pertinente, decidi partilhar convosco.<span class="Apple-converted-space"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que mais me marcou na peça e, portanto, aquilo que vou enfatizar aqui, foi o desespero em resolver a situação. E o que eu quero com isto dizer é, a forma como os personagens acusados de bruxaria se sujeitavam ao que fosse preciso, a confessar o que tivesse de ser, apenas para acelerar e concluir o processo.<span class="Apple-converted-space"> </span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, claro, a força dos papéis dos órgãos políticos e religiosos em arranjar alguém para acusar e condenar, quem quer que fosse, apenas para preencher alguma espécie de sentido de dever, para provar algo e, claro, para oferecer um espectáculo à sociedade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Destaquei estes dois aspetos por me parecer que ainda fazem sentido. São coisas muito humanas, não vos parece?</span><span style="font-size: 14pt;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É extraordinariamente difícil para mim conceber que existiu uma época em que as pessoas eram perseguidas por este tipo de coisas. Por se suspeitar que praticassem bruxaria, por praticarem realmente rituais destes âmbitos, por terem religiões diferentes, por não terem religião, ou pela sua ideologia política. É tão estranho pensar que este tipo de coisas aconteceu de verdade. Esta é claramente uma dificuldade de pessoas privilegiada porque eu entendo perfeitamente que muitas destas coisas ainda ocorrem. Mas, enfim. Também vos acontece isto a vocês? Também é difícil para vocês ver ou ler algo e pensar “ena, isto aconteceu” ou “bem, isto ainda acontece”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para ser honesta, não gostei imenso da peça. Gostei mais da história que conta do que da forma como é contada. Foi exatamente o mesmo que me aconteceu com <em>Death of a Salesman</em>. O meu problema aqui parece mesmo ser com o autor. Mas sou teimosa. Hei-de voltar a aqui. Ainda assim, reconheço-lhe o mérito e, como tal, não posso deixar de vos recomendar a leitura!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:314792020-01-20T09:00:00“Queen Mab: A Philosophical Poem”, Percy Shelley2020-01-17T13:57:19Z2020-01-17T13:57:19Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Even love is sold.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/71iHeSxeZqL.jpg" alt="Image result for queen mab shelley" width="105" height="151" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Há coisa de um par de anos, num verão, comprei antologias de poemas de alguns dos meus poetas preferidos. Falei aqui no <em>blog </em>sobre as antologias de Yeats e de Keats. Nessa altura comprei também uma antologia de Shelley da mesma coleção e esta semana venho falar-vos de um trabalho que li na semana que passou, que consta nesta antologia e do qual gostei imenso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Queen Mab </em>(1813) foi o primeiro grande trabalho de Shelley. É um poema em nove cantos e é, essencialmente, uma utopia. O poema narra a viagem de Ianthe através do tempo e do espaço conduzido pela rainha das fadas, Mab, que lhe fala dos hábitos e ações destrutivas do homem, de tudo o que está errado no presente, de tudo o que esteve errado no passado e, apresenta uma visão promissora de um futuro onde tudo será corrigido, onde tudo será bom, justo e belo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Antes de tudo e a título de curiosidade, Ianthe foi o nome da primeira criança de Shelley e, Queen Mab, como sabem, é uma referência recorrente no folclore e não só. Recordo neste momento uma referência a esta fada em Shakespeare, <em>Romeu e Julieta</em>, e também em <em>Moby-Dick</em> de Melville. Mas as referências a ela, são, claro, muitas mais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Aspetos discutidos nesta composição em particular vão desde os sistemas políticos, aos sistemas de comércio, as leis e a corrupção, a alimentação e, algo muito enfatizado, a religião e o caracter já imoral do próprio amor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como calculam, o cariz filosófico e político do poema é claro e óbvio e eu não me vou alongar nesse aspeto, para não correr o risco de dizer algo menos correto ou mais simplista. Além disso, acho que muita da interpretação que podemos fazer deste poema vem de nós e da nossa visão própria do mundo, mais do que de teorias. Sobretudo no concernente àquilo que nós achamos que está certo ou errado, sendo que, como sabemos, visões políticas e ideologias filosóficas diferentes resultam em diferentes opiniões e abordagens e, aquilo que uns veem como injustiças, outros veem como necessidades prementes ao bem-estar e ao equilíbrio da sociedade. Sinceramente, acho que até este aspeto é exposto no poema.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A composição para mim tem algo que ainda a torna mais interessante e importante que são notas do próprio autor em relação a alguns versos e que são autênticos ensaios dos quais eu, pessoalmente, gostei ainda mais do que do poema, se isso é possível. Especialmente, existem duas notas em particular, uma sobre a condição do amor e outra sobre a religião que me agradaram realmente. Até tem uma nota sobre vegetarianismo a qual eu, praticante da dieta, entendi como deveras interessante. E achei graça a tal inclusão. As notas, todas elas, até podem ser lidas como externas ao poema, ou seja, ninguém precisa de ler o poema para as ler e entender,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma coisa que me fascinou muitíssimo e que não posso mesmo deixar de mencionar é a atualidade do poema. Tudo o que ali está ainda faz sentido para mim. Quero eu dizer, as falhas que Queen Mab aponta ao homem e aos seus sistemas, ainda se aplicam ao que eu vejo hoje. E isto, sublinho, é uma opinião pessoal. Mas creio que este aspeto só demonstra que nós nunca mudamos mesmo, não? E por isso é que este tipo de obras continua a ser popular. A nossa natureza humana pode ser muito controlada ou cultivada, mas não se altera na sua essência. E, como costumamos dizer, os erros do passado são os erros do presente e serão certamente os erros do futuro.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como podem perceber, adorei o poema e recomendo imenso. Não faço ideia se está ou não traduzido para português, mas suponho que deva estar. Afinal, porque não estaria? E vocês? Conheciam o poema? Já leram? Ficaram curiosos?</span></p>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:311342020-01-13T09:00:00“David Copperfield”, Charles Dickens2020-01-11T21:42:15Z2020-01-11T21:46:12Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Considerei como as coisas que nunca acontecem são frequentemente tão reais para nós nos seus efeitos como aquelas que efetivamente se concretizam.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://img.wook.pt/images/david-copperfield-charles-dickens/MXwyMjczMTc4M3wxODYwOTQ4MXwxNTYwNDY2ODAwMDAw/250x" alt="Image result for david copperfield charles dickens arcturus" width="96" height="147" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quando quase no fim do ano passado vos falei de <em>Oliver Twist</em> recebi de uma leitora do <em>blog</em> um comentário que na altura me pareceu interessantíssimo. Podem voltar ao <em>post</em> em questão e ler. Referia-se à dificuldade de ler Dickens e ao seu encanto ou falta dele. Ora nunca eu tinha considerado essa questão e então pus-me a pensar que se calhar eu nunca tinha considerado tal porque não estava a ler bem e que não estava a entender tudo o que devia. A verdade é que muitas vezes para mim e, sobretudo nestes casos, sempre que as coisas são demasiado fáceis é porque certamente estamos a fazer algo de errado. Pensei logo que tinha de voltar a ler algo de Dickens agora com isto em mente e, como me faltava ler <em>David Copperfield</em>, não foi tarde nem foi cedo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como todos os principais romances de Dickens, <em>David Copperfield</em> segue o crescimento de um protagonista masculino desde o nascimento até à vida adulta. Igualmente, também este se foca nas injustiças e nos sofrimentos pelos quais o protagonista passa incluindo a orfandade, os maus tratos pelas figuras adultas por si responsáveis, o trabalho infantil, a marginalização por parte da sociedade e, claro, os desgostos amorosos. Também não faltam as figuras benfeitoras e excêntricas que povoam outras obras de Dickens e a crítica social sempre assertiva. A fórmula é, essencial e sinteticamente, a mesma. A forma como é apresentada varia e, daí as pequenas idiossincrasias que distinguem estes romances e geram preferências nos leitores.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É sabido que a personagem David Copperfield era a preferida do seu autor (nas palavras do mesmo). Igualmente, é sabido que a obra <em>David Copperfield</em> tem diversos traços autobiográficos. Desde o protagonista que cresce para se tornar um escritor de renome até algumas personagens especifica, a saber Mr Micawber, muitas vezes tido como um retrato do pai do autor. Aparentemente, também muitas das personagens do universo de Dickens preferidas dos seus leitores vêm daqui, ou pelo menos foi o que li.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Queria destacar apenas dois aspetos porque, em tudo o resto – desde o esquema à estrutura, a crítica, etc – receio que me possa repetir em relação ao que já escrevi e disse sobre outras obras de Dickens. Nesta, em especifico, gostei particularmente do facto do protagonista ser um leitor e ter muitos aspetos da sua vida, incluindo a forma como encara as outras personagens até ao modo como sentia e demonstrava sentimentos, serem influenciadas pelos livros que lera e pelo modo como os lera. Ademais, destaco ainda o facto da literatura funcionar para o protagonista como um escape. Gosto muito de ambas as ideias porque isso torna esta obra num romance sobre o leitor e o seu papel, ou seja, sobre todos nós.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Além disso, sim, o <em>plot </em>romântico do qual eu nunca me canso. Neste caso, até existem dois principais. Na verdade, o que eu mais gostei foi do modo fácil e ingénuo como David se deixa cativar pelo amor. Eu digo pelo amor e não pelas raparigas por quem se ia apaixonando, de propósito. Afinal, ele era um leitor! <em>David Copperfield</em> alerta-nos para algo que eu achei muito interessante e que vou referir pelo mesmo termo que o narrador utiliza: os “impulsos enganadores de um coração pouco disciplinado” (“mistaken impulse of my undisciplined heart”) . Eu acho isto muito humano. O narrador pretende referir o caso em que se apaixona e crê que pode ser feliz com uma determinada pessoa e depois descobre, ao perceber que a vida conjugal não funciona, que o amor é mais do que aquilo sobre o qual nós lemos. Não é apenas algo emocional e/ou físico. É uma construção. Às vezes podemos achar que amamos muito alguém e somos realmente atraídos para essa pessoa, mas não funciona. Outras vezes funciona. Eu gosto da ideia de <em>David Copperfield </em>em relação a este aspeto. O protagonista humildemente aceita o seu erro e propõe-se a viver com ele. Mas gostei ainda mais de o escritor lhe ter dado uma segunda hipótese. Mas não me alongo aqui para não estragar a narrativa se estiverem interessados em ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Isto são dois aspetos entre mil. Só o comentário a todos os aspetos da crítica de costumes nesta obra dava um livro tão extenso como este.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostei também de uma questão que foi levantada a certo ponto e que menciono, como o autor o fez, em jeito de questão: seremos nós os heróis da nossa história?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sinto-me ligeiramente “básica” (à falta de melhor termo) ao escrever este <em>post </em>que, recordo, é, como sempre, um reflexo da minha opinião <strong>pessoal</strong>. Porquê? Não sei se por estar formatada para achar difícil o que ia ler e para tentar interpretar tudo bem (como se fosse sequer possível), se genuinamente pela própria leitura, mas custou-me muito mais ler esta obra do que outras obras do mesmo autor. Sobretudo no início. Igualmente, também achei esta a obra mais complexa e, simultaneamente, mais interessante e completa de Dickens (de entre todas as que li). Tenho noção de que estou a expressar uma opinião popular. Gostava, no entanto, de acrescentar que não foi a minha preferida. Gostei imenso e acho sinceramente que é provavelmente a melhor obra do autor, mas não foi aquela de que gostei mais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não obstante, não posso deixar de a recomendar. Existem diversas traduções em português se não quiserem ler no original. Já leram? O que acharam? Contem-me!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4,5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:304952020-01-06T09:00:00“Crime e Castigo”, Fiódor Dostoiévski2019-12-25T10:39:04Z2019-12-25T10:39:04Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">“Todos derramam sangue, que corre e sempre correu neste mundo, como uma catarata, que vertem como champanhe, e pelo qual são coroados no Capitólio e depois chamados benfeitores da humanidade. Tu olha com mais cuidado e vê se compreendes! Eu próprio queria o bem das pessoas e era capaz de fazer centenas, milhares de boas ações em vez desta asneira, que nem sequer é uma asneira mas simplesmente um absurdo, porque toda esta ideia nem era assim tão estúpida como agora parece. Ao falhar, tudo parece estúpido! Com esta asneira queria apenas colocar-me numa posição independente, dar um primeiro passo, alcançar os meios, e depois tudo seria expiado por um benefício incomensuravelmente maior… Mas nem o primeiro passo fui capaz de suportar, porque sou um canalha! É nisso que está toda a questão! Em qualquer caso, não passarei a ver as coisas do vosso ponto de vista: se tivesse conseguido, coroavam-me; como não consegui, estou encurralado.”</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><img src="https://static.fnac-static.com/multimedia/Images/PT/NR/d4/8b/04/297940/1540-6/tsp20160819012324/Crime-e-Castigo.jpg" alt="Crime e Castigo" width="196" height="196" /></span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No início do ano passado li <em>Os Irmãos Karamazov</em>, agora, na primeira semana de 2020 venho falar-vos sobre <em>Crime e Castigo</em>. Fiquei muito impressionada com <em>Os Irmãos Karamazov</em> na altura. Como vos contei no último <em>post</em>, foi dos livros que mais gostei de ler em 2019 e também de sempre. Decidi logo que queria ler tudo o que me faltava ler de Dostoiévski e decidi igualmente que ia começar pelos mais volumosos. Sim, esse foi o meu critério. Cada um com a sua.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Crime e Castigo</em> (1866) segue Raskólnikov, um estudante universitário de 23 anos que comete um crime ao assassinar uma velha mulher de mau nome e a seu filha, uma jovem de fraco intelecto e explorada pela mãe (e pela sociedade no geral). Ao crime segue-se uma investigação levada a cabo por um oficial que desde cedo se convence da culpa de Raskólnikov. Apoiado pela mãe, pela irmã, pelo amigo Razumikhin e pela prostituta Sónia, Raskólnikov luta ao longo da narrativa com o seu crime e com as implicações do mesmo, tanto a nível de consciência, como a nível social e legal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Para mim a melhor parte de toda a história é a razão do crime. O que leva um estudante universitário a cometer um crime desta natureza? Como é que ele sequer se lembra disso? Como é que a ideia lhe surge? Pois bem, deve-se, na verdade a uma ideia que foi especialmente importante no passado e que ainda encontra ecos hoje em dia. Raskólnikov acreditava que, determinadas pessoas, pela sua superioridade natural e intelectual, poderiam e deveriam cometer alguns crimes em prol de um bem maior. Esta ideia que eu expresso aqui de forma bastante sintética e talvez até simplista, é elaborada por Raskólnikov num artigo que ele publica anterior ao crime e que a polícia utiliza contra si. Como exemplo, chega-se a referir o caso de figuras históricas, como Napoleão Bonaparte, célebres por sacrificar o bem de alguns para aquilo que acreditavam ser o bem comum. Quero sublinhar que isto não se trata de uma apologia deste tipo de fenómeno, mas apenas uma comparação que a citação que utilizei no início do <em>post </em>sintetiza.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que eu aprecio aqui verdadeiramente é o dilema que isto causa e a forma como este é, ou não, aceite. Mesmo que o raciocínio seja correto e o bem comum justifique o sacrifício do bem de uma minoria, que tipo de pessoa consegue viver com isso? Daí o par crime/castigo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que levanta uma nova questão: maior castigo é o que infligimos na nossa consciência com o nosso crime ou aquele simbolicamente oferecido pelas leis da sociedade? Gostei imenso da vertente filosófica e psicológica da obra que tanto me fez lembrar <em>Os Irmãos Karamazov</em>, mas que até considero mais presente aqui. Novamente a título pessoal, considero que é esta vertente que torna a obra do autor tão incrivelmente claustrofóbica e às vezes bastante aflitiva até para o leitor. As questões aqui expressas são, como brevemente exemplifiquei com a referência a estes dilemas concretos, muito complexas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também não posso deixar de mencionar o peso da religião e a forma como Raskólnikov não a considera. Há além disso uma clara referência aos intelectuais da época que não acreditavam em Deus e assim hipotéticamente ameaçavam o bem e a ordem social. Esta questão está, de resto, muito mais presente em <em>Os Irmãos Karamazov</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Uma menção a Sónia, a prostituta que Raskólnikov senta ao pé da mãe e da sua casta irmã. Sónia não exerce esta profissão por outra razão senão pela obrigação de ajudar a família e, a sua dedicação a Raskólnikov apelou muito ao meu encanto e preferência por <em>plots </em>românticos que vocês já conhecem. Achei interessante que, no fim, seja ela que o ajuda a redimir-se e é o seu amor que se torna para ele indispensável em comparação com todas as outras superfluidades. Citando o autor, “o assassino e a prostituta”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Bem, suponho que adivinham a minha opinião e considerações finais. Refiro-vos apenas que a obra está traduzida em português e conta com várias e diversas edições. Eu preferi a tradução de António Pescada para a Relógio d’Água, porque são sempre traduções que me agradam. Todavia, sei que existem mais traduções e também para outros idiomas, se assim preferirem.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Realmente, não vos podia recomendar mais esta obra. Gostei mesmo muito. Já leram? O que acharam?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:309362019-12-31T09:00:00As minhas leituras preferidas de 20192019-12-25T18:28:10Z2019-12-25T18:28:10Z<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não estou a exagerar quando vos digo que este é sempre o meu <em>post </em>preferido do ano. Adoro fazer listas e adoro ler, portanto o que é melhor que isto? Neste último <em>post </em>do ano trago-vos um resumo das minhas leituras de 2019 sob a forma de uma lista com os livros que mais gostei de ler este ano. <strong><em>Esta lista é única e exclusivamente baseada na minha preferência pessoal</em></strong>. É meramente um reflexo das minhas predileções e, não só não é imparcial como nem eu desejo que seja. Queria sublinhar este aspeto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">10 – <em>O Banquete</em>, Platão</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Apesar de já conhecer foi apenas em 2019 que li na íntegra. Sinceramente, não esperava gostar tanto e não podia ser mais honesta ao dizer que quando a comecei já tinha aquela terrível pretensão de saber tudo o que ia ler. Estava errada, claro. Podemos achar que conhecemos uma obra só por não nos pararem de falar sobre ela, mas isso não é verdade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">9 – <em>Muito Barulho por Nada</em>, William Shakespeare</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nem queria acreditar que não tinha lido antes! Como vos contei na altura, tornou-se não só a minha comédia preferida de Shakespeare, como a minha comédia preferida de sempre. Todavia, “sou muito nova”.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">8 – <em>A Feira das Vaidades</em>, William Makepeace Thackeray</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A minha crítica de costumes preferida do ano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">7 – <em>Assim Falou Zaratustra</em>, Friedrich Nietzsche</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Nietzsche é Nietzsche, mas este livro como vos mencionei na altura, surpreendeu-me imenso. Tornou-se o meu segundo preferido do autor.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">6 – <em>Dom Quixote</em>, Miguel de Cervantes</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Confesso, o livro que mais demorei a terminar; não apenas por ser incrivelmente extenso, mas também por me perder muito ali pelo meio. Não obstante, como podem aferir, foi dos meus livros preferidos. Já para não falar que é um marco na história da literatura e dotado de um sentido de humor e ironia muito particular e inteligente. Diverti-me imenso a lê-lo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">5 – <em>A República</em>, Platão</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Podia literalmente transcrever-vos o que escrevi em cima sobre <em>O Banquete</em>. Pessoalmente, gostei mais deste.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">4 – <em>A Divina Comédia</em>, Dante</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Bem, sobre esta já foi difícil o suficiente falar no <em>post </em>que lhe dediquei. Creio que foi a obra mais complexa que li em 2019 e, embora aparentemente possa nem sempre transpareçer, tenho humildade suficiente para assumir que não entendi tudo o que li. Não obstante, foi das leituras que mais me maravilharam em 2019.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">3 – <em>Ulisses</em>, James Joyce</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em qualquer outro ano, era o meu número 1. Fiquei apaixonada pela obra de Joyce. Tantas referências, tanto escondido nas entrelinhas. Não creio que alguém a consiga um dia explicar na totalidade. Este ano, foi a segunda obra sobre a qual mais pensei depois de a ter acabado de ler.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">2 – <em>Os Irmãos Karamazov</em>, Fiódor Dostoiévski</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que me lembro mais sobre esta leitura foi do quão cativada me senti. Durante quase uma semana não consegui pô-la de parte! Foi a obra que mais me viciou em 2019. Adoro tudo quanto ela representa.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">1 – <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, Marcel Proust</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tudo quanto poderia dizer mais sobre esta obra não lhe faria jus. Não foi apenas a minha obra preferida de 2019, foi a minha obra preferida de sempre.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como é lógico, não consigo acabar sem fazer referência a algumas </span><span style="font-size: 12pt;">obras como <em>Moby-Dick</em>, <em>O Vermelho e o Negro</em>, <em>A Dama das Camélias</em>, <em>O Anticristo</em>, <em>Ligações Perigosas</em>, <em>Paraíso Perdido</em>, <em>As Intermitências da Morte</em>, <em>Cândido ou o Otimismo</em> ou <em>Oliver Twist</em> sobre as quais falei aqui no <em>blog</em> e das quais gostei imenso. Também li obras sobre as quais decidi não escrever, mas que igualmente apreciei. Na primavera li <em>A Crítica da Razão Pura </em>sobre a qual não tentei nem me passaria pela cabeça tentar escrever, mas que me fascinou e impressionou muitíssimo. Foi um das coisas que mais gostei de ler este ano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ademais, quero novamente enfatizar que a ordem desta lista não reflete absolutamente nada mais do que <em><strong>a minha preferência pessoal</strong></em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Enfim. Espero que neste ano que começa consiga ler obras que me maravilhem tanto como as que li em 2019. E vocês? Quais foram as obras que marcaram o vosso 2019? Já têm uma lista de leituras para 2020?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Finalmente, despeço-me fazendo votos de um feliz ano para todos vós. E, claro, boas leituras!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Sofia</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:302472019-12-23T09:00:00“The Nightmare Before Christmas”, Tim Burton – a minha leitura para este Natal2019-12-22T13:13:17Z2019-12-22T13:13:17Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">I’m sick of the scaring, the terror, the fright.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://prodimage.images-bn.com/pimages/9781423125419_p0_v2_s550x406.jpg" alt="Image result for the nightmare before christmas book" width="102" height="131" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não faz, por natureza, o meu estilo, mas este ano decidi que era boa ideia fazer leituras temáticas. No Halloween, falei-vos de duas produções de Edgar Allan Poe, agora que é Natal, para não falar de <em>A Christmas Carol</em> ou de algum conto de Hans Andersen como usualmente se faz, decidi-me por este poema – que não conhecia – de Tim Burton. Aparentemente existiu um filme, mas eu nem sabia disso. Descobri por acaso quando pesquisava sobre contos de Natal. Sim, eu fiz isso. E nem gosto do Natal, imaginem se gostasse.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Nightmare Before Christmas</em> é um poema de Tim Burton que originou, como referi, um filme realizado por Burton e que saiu em 1993. A história é muito simples e se calhar viram o filme e já conhecem! O poema segue Jack Skellington, um esqueleto da <em>Halloween Town</em> que encontra um portal mágico para <em>Christmas Town</em>. De visita, Jack descobre e leva com ele diversas coisas características do Natal para a sua cidade, considerando mais tarde que é injusto que seja apenas <em>Christmas Town</em> a ter todas aquelas coisas maravilhosas e a celebrar o dia preferido de toda a gente. Então, Jack decide que, neste ano, o Natal será celebrado na sua cidade e decide, para esse efeito, raptar o Pai Natal e ser ele mesmo a distribuir os presentes este ano. Todavia, Jack pertence ao Halloween e por conseguinte, nunca lhe ocorre distribuir presentes ditos mais<em> comuns</em>. De facto, os presentes assustadores que ele distribui assustam de tal modo a população que ele é obrigado a desistir do seu objetivo e a devolver o Natal à sua cidade e ao seu dono legítimo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se costumam ler o que eu escrevo aqui percebem facilmente que este não é o tipo de história que costumo apreciar mas, uma vez por outra, tenho de dizer que gosto. E esta história é muito singela. E natalícia, o que se adequa ao momento. Acho que cai muito no género dos contos de fadas que ouvimos quando somos crianças, que repetimos às crianças das nossas vidas quando somos adultos, e dos quais nunca deixamos de gostar. Portanto também há aqui o fator nostalgia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostei muito de um pormenor da história. No início, Jack decide “roubar” o Natal porque já não vê encanto no Halloween que é tão seu por direito. Mas depois, não consegue viver o Natal sem transpor para ele a realidade que conhece e na qual se sente seguro. Mas essa realidade é tão específica sua e do seu contexto que não funciona aplicada a outros momentos e a outras pessoas. Daí que ninguém goste dos seus presentes. Mas é justamente distribuindo os seus presentes e vendo a reação que eles provocam que ele recupera o seu fascínio pelo seu mundo. Isto não é tão nosso?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu adoro contos de fadas e sempre vou adorar. Este não é, nem de perto nem de longe, um do qual eu tenha gostado particularmente. Nem acho que seja algo inovador. Mas isso não quer dizer que não seja bom ou agradável. Eu gostei bastante do poema. É muito simples e está escrito numa linguem muito meiga que justamente me recorda das histórias que eu lia quando era mais menina e me faz novamente imaginar e ouvir os adultos na voz que utilizam só para as crianças a contar-me a história do esqueleto que roubou o Natal. E podem ter a certeza de que foi precisamente nessa voz que eu li e ouvi o poema na minha cabeça.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sinto-me ligeiramente envergonhada porque entendo que o filme deve ser incrivelmente popular, especialmente tendo sido escrito e realizado por quem foi, e eu não o vi. Eu não vejo muitos filmes e quando vejo sou bastante particular e <em>esquistinha</em>. Então também não vou mentir e dizer que vou a correr ver este filme, porque não vou. Mas, por curiosidade, vocês conhecem? Já viram? Gostam da história?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Em relação ao poema, confesso que, se não tivesse decido fazer uma leitura de Natal e pesquisado sobre tal, nunca o teria lido. Mas li e não acho que tenha sido uma perda de tempo. Acho que qualquer pessoa gostaria facilmente dele se o lesse e por isso incentivo-vos. Gostei bastante do tempo que passei a lê-lo e gostei da história. Mal posso esperar para a repetir a alguma criança num qualquer Natal. E aliás, aproveito para vos desejar umas ótimas festas!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:300052019-12-16T09:00:00“A Jangada de Pedra”, José Saramago – as nossas viagens por aí2019-12-13T20:44:45Z2019-12-13T20:44:45Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">O mundo está cheio de coincidências, e se uma certa coisa não coincide com outra que lhe esteja próxima, não neguemos por isso as coincidências, só quer dizer que a coisa que coincide não está à vista.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 129px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="A-Jangada-de-Pedra.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be417f986/21643926_VsDDV.jpeg" alt="A-Jangada-de-Pedra.jpg" width="340" height="129" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como certamente reparam, eu não costumo por norma ler muitas obras portuguesas. Não é por nada em especial, como é lógico. Só não calha e não são tão apelativas para mim. Há poucas que se enquadrem no género de livros que eu gosto. Se for honesta, Saramago também não se enquadra, mas por alguma razão, gosto sempre bastante das obras dele e ultimamente, cada vez que penso “a seguir vou ler alguma coisa de Portugal”, é a minha primeira escolha. Se se lembram, na primavera falei-vos de <em>As Intermitências da Morte</em>. Nessa altura, o que queria mesmo ler era <em>A Jangada de Pedra</em>, mas acabei com as <em>Intermitências</em>. Sei que a vontade de ler esta obra veio de uma aula de cinema em que alguém mencionou a adaptação fílmica (do realizador George Sluizer, 2002) e falou tão bem dela que, sendo eu a pessoa fácil de cativar que sou, quis logo ler. O filme nem me interessou, para ser sincera.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>A Jangada de Pedra</em> (1986) narra a separação da península ibérica da europa. Literalmente. Quero eu dizer, em termos geográficos mesmo. Simultaneamente, a obra segue 5 personagens – Joana Carda, José Anaiço, Maria Guavaira, Joaquim Sassa e Pedro Orce – e um cão – Constante - que viajam pela península agora à deriva e que, por diferentes razões, se sentem culpados pela separação física da península ibérica. Por exemplo, Joana Carda considera que foi o risco que fez com uma vara no chão que separou a península da europa. O propósito da viagem não é claro. Mas existe alguma viagem, pelo menos metafórica, com propósito claro e declarado?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A obra é, como é lógico, uma alegoria. Remete para a situação ibérica face à unificação da europa e para aquela sensação tão recorrente de que “estamos aqui um bocadinho afastados”, de que “somos um caso à parte”, como regular e vulgarmente costumo ouvir.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Destaco alguns aspetos de que gostei particularmente. A menção à forma como a europa tenta ineficazmente resolver o problema da península, relegando para outros e ignorando a situação; o papel dos EUA, aqui retratados, claro, como sempre a imiscuírem-se nos assuntos do mundo e a tentarem que as consequências dessa ação recaiam em todo o lado menos ali; e o aproveitamento político em situações de caos. Refiro ainda aspetos mais filosóficos como o impacto da ação individual no coletivo, as coincidências que fazem mover o mundo, a inação e imobilidade do homem face à vontade da natureza e o vazio e o cariz prático dos relacionamentos humanos quando já nada conta e as fronteiras físicas e, por conseguintes, morais e éticas, vão sucumbindo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, gostei bastante. A crítica velada, não só à situação da península ibérica e à forma como esta era e é vista pelos restantes países da europa (e do mundo), como também à própria sociedade, aos seus costumes, e obviamente, à natureza e à ação do indivíduo, é para mim o melhor da obra.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Também acho a alegoria bastante original. A península ibérica a separar-se fisicamente da europa. É bastante simples, na verdade. Tão simples e direta que realmente não é qualquer pessoa que se lembraria de a utilizar. Porque honestamente, foi só tornar literal o que é "metafórico". O que só prova que às vezes não é preciso muito para criar coisas boas e com sucesso. Não é necessário ser-se demasiado pretensioso ou pensar muito ou tentar grandes golpes de genialidade. Às vezes as coisas mais simples resultam muito melhor e, neste caso, acho que é precisamente isso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No entanto, <em>A Jangada de Pedra</em> não se tornou, nem de perto nem de longe, a minha obra preferida de Saramago. Ainda tem umas quantas à frente. Mas gostei mesmo. Sei que há imensas pessoas que não gostam das obras de Saramago; ou porque não gostam pessoalmente do autor, ou porque depreciam o seu acervo no geral, ou porque não gostam do género, ou simples e infelizmente por puro preconceito. Felizmente, isso não me ocorre. E por isso, recomendo mesmo a leitura, especialmente se forem como eu e, antes de considerarem o todo por igual, apreciam as coisas pelo que elas são por si só. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Português</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:297672019-12-09T09:00:00“Assim falou Zaratustra”, Friedrich Nietzsche – o desencantamento e a esperança2019-12-08T18:08:33Z2019-12-08T18:08:33Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Sou uma floresta e uma noite de escuras árvores: mas aquele que não temer a minha escuridão encontrará rosas debaixo dos meus ciprestes.</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://www.picclickimg.com/d/l400/pict/312599716485_/Thus-Spake-Zarathustra-Wordsworth-Classics-of-World-Li.jpg" alt="Image result for thus spake zarathustra wordsworth classics" width="178" height="178" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se costumam acompanhar o <em>blog</em> sabem que sou uma grande fã de Nietzsche. Escrevi algumas <em>reviews </em>de obras dele aqui e não me canso de as ler. Estranhamente, fui deixando de lado <em>Assim falou Zaratustra</em>. A nossa tradução portuguesa, pelo que sei, está esgotada e, como infelizmente não consigo ler em alemão, só me restava ler noutro idioma. Enfim, estou satisfeita por finalmente ter conseguido. Há muito que o queria fazer.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Assim falou Zaratustra</em> (1883-1891) diferencia-se significativamente em estilo e estrutura de outras obras de Nietzsche ou de filosofia. Foca-se nas viagens e nos discursos de Zaratustra que, como sabem, foi o fundador do Zoroastrismo. Não me parece que seja fácil resumir estes discursos porque variam em tom e tema, pelo que não o vou fazer, restringindo-me apenas a alguns temas principais de que eu gostei particularmente e que me parecem mais pertinentes no âmbito da cultura ocidental.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Neste âmbito, destaco a célebre declaração “Deus está morto” pela qual Nietzsche é recordado e que se insere no debate acerca da religião cristã, debate este que aborda ainda a dualidade bem e mal que caracteriza os valores desta religião e a crença na vida após a morte. Além disso, destaco a conceptualização daquilo que o autor chama “super-homem” (traduzo o termo a partir do inglês) e a abordagem da vontade de poder que tanto caracteriza a nossa natureza humana e que o autor abordou noutras obras.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Todavia, dou particular destaque a uma das minhas ideias preferidas na filosofia deste autor e na filosofia no geral: o Eterno Retorno. O <em>eterno retorno</em> baseia-se em algo muito simples mas muito assustador - a possibilidade de que todos os eventos que acontecem na nossa vida se repetem eternamente. Ou seja, nós, independentemente de tudo o resto, estamos mais ou menos presos num inescapável <em>eterno retorno</em>. É a aceitação desta condição - <em>A</em><em>mor Fati</em> - o apreço pela vida e ausência de arrependimentos que caracteriza o “super-homem”. Infelizmente, o autor não chegou a completar e a escrever mais sobre este conceito. O mesmo conceito surge em <em>O Mito de Sísifo </em>de Camus (obra da qual já falei aqui no <em>blog</em>).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O <em>Eterno Retorno</em> vai ser sempre uma coisa que me deixa fascinada e incrivelmente triste. Gostei imenso de ler a forma como é aqui conceptualizado. Do mesmo modo, gostei extraordináriamente da ideia de um Deus morto pela era da Razão e das luzes; a deceção com as suas criaturas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não vou abordar mais este tipo de aspetos filosóficos porque como sabem, não gosto de o fazer por medo de passar alguma opinião ou informação de forma mais simplista. Digo apenas que este livro despertou em mim uma tristeza incrível e, simultaneamente, surpreendeu-me porque me parece que, de todo o desencantamento que transmite, passa para nós uma espécie de esperança que eu não encontro em outras obras do mesmo autor. Não fosse o estilo direto, cruo e tão irónico que distingue qualquer coisa que Nietzsche escrevesse, ficaria na dúvida se tinha sido a mesma pessoa que escreveu esta obra a escrever todas as outras. Se leram este livro e se leram outros de Nietzsche, podem dizer-me se sentiram o mesmo?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Gostei mesmo muito de <em>Assim falou Zaratustra</em>. Genuinamente. Facilmente se tornou o meu segundo livro preferido deste autor. Ainda me falta ler <em>Will to Power</em>, mas não sei se me vai impressionar tanto. Suponho que descobriremos em breve. Até lá, recomendo-vos <em>Assim falou Zaratustra</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:295722019-11-25T09:00:00“Os Prazeres e os Dias”, Marcel Proust – não sei realmente o que dizer2019-11-24T21:20:54Z2019-11-24T21:20:54Z<blockquote>
<p style="text-align: center;">A ambição inebria mais do que a glória; o desejo floresce, a posse murcha todas as coisas.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><img src="http://ecx.images-amazon.com/images/I/51AdWZK%2BcFL._SX195_.jpg" alt="Image result for les plaisirs et les jours proust" width="128" height="211" /></p>
<p style="text-align: justify;">Este ano li finalmente <em>Em Busca do Tempo Perdido </em>e, se seguem o <em>blog</em>, sabem o quanto me tocou e impressionou tal obra. Não me canso de dizer que foi a coisa mais bela, extraordinária e grandiosa que alguma vez li ou que, tenho a certeza, alguma vez lerei. Está claro que após ler essa obra, imediatamente quis ler mais coisas de Proust. Podia e gostava de ler obras dele a minha vida inteira. Logo no final do verão encomendei <em>Les</em> <em>Plaisirs et les Jours</em>, mas só na semana que passou li. Fiquei tão impressionada com <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, e ainda penso tanto nessa obra que se não li esta mais cedo foi para ir adiando a tristeza que sabia que ia experienciar quando a acabasse.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><em>Les Plaisirs et les Jours</em> (1896) foi a primeira obra de Marcel Proust e é, na verdade uma coleção de histórias e poemas em prosa. Os temas variam e os géneros ainda mais. Ao todo são onze narrativas diferentes e a minha edição contém ainda as composições “L’Indifférent”, “Souvenir” e outras três produções do autor não publicadas por ele. Como podem supor, é incrivelmente difícil de sumariar <em>Les Plaisirs et les Jours</em>, pelo que não o vou sequer tentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Portugal, sei que existe uma tradução da Estampa, mas se puderem ler no original, neste caso em francês, é sempre preferível. A edição que utilizei é ótima!</p>
<p style="text-align: justify;">Ler <em>Les </em><em>Plaisirs et les Jours</em> foi uma experiência extraordinária. Reencontrei aqui elementos que me fizeram relembrar <em>Em Busca do Tempo Perdido</em> e não poderia estar mais feliz por isso. Entre estes destaco, claro, a abordagem ao amor, ao ciúme e o diálogo recorrente com outras produções artísticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Gostaria de destacar algumas composições da coleção, mas não quero que soe como se estas fossem melhores que as restantes. Apenas gostei mais delas. Então, por preferência pessoal, recomendo particularmente “Violante ou la Mondanité”, “Les regrets, rêveries couleur du temps” e “La fin de la jalousie”. Gostei mesmo muito destas. Sobretudo da segunda. É linda.</p>
<p style="text-align: justify;">As duas coisas que mais me impressionaram em <em>Em Busca do Tempo Perdido</em> foram a crueza da representação da condição humana e dos sentimentos e emoções do indivíduo e, simultaneamente a forma em como uma coisa tão terrível pode ser expressa e colocada em palavras de forma tão bela e poética. Em <em>Les </em><em>Plaisirs et les Jours </em>acontece precisamente o mesmo. É extraordinário e nunca vi nada assim. Para mim, nunca ninguém explicou tão bem e tão belamente a condição e as emoções humanas como Proust.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu gostava imenso de continuar a falar sobre esta obra, mas não o vou fazer porque não sei falar dela a não ser para dizer o quanto a apreciei e isso ia ser aborrecido. Lembro-me de me ter acontecido o mesmo com <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>. Se alguém algum dia me pedir para falar das obras de Proust vou passar uma grande vergonha porque não vou saber nada, só vou saber que são sobre nós e que eu as adoro e considero acima de todas as outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Recomendo-vos <em>Les </em><em>Plaisirs et les Jours</em>!</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Idioma de Leitura: Francês</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;">5/5</p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:293482019-11-18T09:00:00“Cândido ou o Otimismo”, Voltaire – não faz mal se estiver tudo mal2019-11-15T20:13:58Z2019-11-15T20:15:25Z<blockquote>
<p style="text-align: center;">Otimismo? O que é isso? – perguntou Cacambo.</p>
<p style="text-align: center;">É a mania de defender que tudo está bem quando tudo está mal. – respondeu Cândido.</p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 215px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="transferir.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb0173138/21616273_7wMfh.jpeg" alt="transferir.jpg" width="271" height="152" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Este livro representa uma rara exceção na minha lista. Não fui eu que o escolhi, foi-me recomendado por colegas. Claro que eu, uma pessoa tão esquisita, não leria um livro só por recomendação. Confesso que gosto bastante de Voltaire. Ainda assim, fico sempre feliz quando leio algo porque alguém me diz que devia ler. Demonstra que me conhecem bem. E, se eu gosto da obra, fico ainda mais feliz porque descobri um novo livro.</span></p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pois bem,<em> Cândido ou o Otimismo </em>(1759) é uma obra difícil de resumir ou explicar porque exige contexto e porque tem valor filosófico. Voltaire escreveu-a essencialmente como uma sátira. A obra segue o jovem Cândido, assim chamado em função das suas caraterísticas pessoais, desde que é expulso do castelo onde vivia envolto numa paz e beleza edénica e sujeito aos ensinamentos do professor Pangloss. Ao longo da obra são narrados diversos acontecimentos que advogam contra todas as ideologias em que Cândido fora educado acreditar e lhe mostram a verdadeira face do mundo e das pessoas que nele vivem. A obra finda com Cândido já mais adulto e com uma perceção da realidade muito diferente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Se costumam seguir o<em> blog </em>sabem (porque eu menciono sempre que é o caso) que, apesar de adorar obras filosóficas, não falo alargadamente sobre elas nesse âmbito. Por duas razões. A principal é que eu não me formei em filosofia, apenas tive algumas cadeiras e seminários e, a abordagem que faço e o que conheço da área é em função da teoria e da história da literatura. Como eu não gosto de falar do que não estou qualificada para não cair no erro de dizer um disparate ou abordar o assunto com uma leveza desadequada, recuso-me a fazê-lo. Assim, o que eu escrevo agora, não tem valor que não o de uma opinião geral e genérica.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No século XVIII, 1710, o alemão Gottfried Leibniz publicou <em>Théodicée</em>, uma obra que pretendia responder ao francês Pierre Bayle que, em <em>Historical and Critical Dictionary</em>, de 1697, defendera que não existe uma resposta à famosa questão, porque é que Deus, sendo perfeito e sendo o autor de tudo, criou o mal. Ora Leibniz defendeu então que Deus, sendo perfeito como é, criou o “melhor mundo possível”, um mundo onde há um balanço entre bem e mal. Daí resulta que, qualquer coisa que nos aconteça é o menor dos males porque vivemos no melhor mundo possível.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">É esta ideologia que Voltaire satiriza em <em>Cândido ou o Otimismo </em>onde o protagonista, educado por Pangloss, um acérrimo defensor da noção de Leibniz, é constantemente colocado em situações terríveis e conhece pessoas a quem acontecem as piores coisas que possam imaginar. Teimoso e persistente, até ao final Cândido pensa que tudo acontece por uma razão e que vive no melhor mundo possível. Esta inflexidade, aliada aos comentários do narrador, para além de entreterem o leitor e o divertirem, permitem - pelo menos no meu caso - a criação de um laço terno com o ingénuo Cândido. Para além de nos predispor a imensas reflexões. Os nossos problemas são assim tão maus? Isto é certo ou errado? O mundo é um sítio bom ou mal? No fim de contas, alguma destas coisas realmente interessa? Enfim.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Apesar de ter um teor, cariz e motivação filosóficos, a obra é bastante literária. Assemelha-se a um romance em tudo, desde narrativa a estilo e vocabulário. A história de Cândido faz lembrar os romances picarescos ou os <em>Bildungsromans</em>. A própria história é incrivelmente romanceada. Digo isto porque estes aspetos facilitam muito a leitura e até permitem que a leiamos desconhecendo o seu contexto e/ou sem considerar as suas implicações. Já para não falar do tom irónico e satírico que aproxima sempre o leitor do autor e que faz com que a leitura, para além de fácil, seja muito agradável.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Destaco também a crítica implícita e explícita. Não só em relação à corrente filosófica mencionada, mas em relação a diversos outros aspetos, entre os quais menciono a título de exemplo o regime monárquico europeu à data e as guerras religiosas, a condição da literatura e da arte, bem como dos seus autores, os críticos da arte pretensamente eruditos que não apreciam nada do que leem e que não leem nada que não tenha estatuto adequado e, claro, a alta nobreza. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não posso também deixar de referir uma passagem que acho que resume muito bem a obra e a crítica principal à filosofia, não só de Leibniz, mas no geral e que reflete aquilo que eu ainda consigo observar nesse meio. A certo ponto o autor refere que a condição do filósofo implicava que ele persistisse nas suas ideias por muito que até percebesse que elas estavam erradas, ou que outra abordagem serviria melhor os seus propósitos. Isto, para além de explícito, é atual e dispensa comentários. A humildade é sempre importante. Em todas as áreas. E não existe uma área melhor do que a outra. Não sejamos pretensiosos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Como adivinham, eu gostei imenso da obra. É ótima, leu-se muito bem e, apesar da crítica, das referências múltiplas a um contexto histórico, geográfico e filosófico especifico, consegue passar, devido ao tom que a caracteriza, como uma obra bastante leve e simples. Já para não falar que é muito pequena, são pouco mais de 100 páginas. Desta vez li uma tradução e, aquela que li, pareceu-me muito bem, para além de ser mais acessível em termos monetários do que o original. É da Relógio d’Água e está à venda em todo o lado a um preço muito acessível. Então, se quiserem e tiverem interesse, recomendo-vos <em>Cândido ou o Otimismo</em>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de leitura: Português</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4,5/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:289622019-11-11T09:00:00“One Flew Over The Cuckoo’s Nest”, Ken Kesey – os nossos sistemas não entendem a saúde mental2019-11-10T22:30:34Z2019-11-10T22:30:34Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Este mundo, meu amigo, pertence aos fortes. O ritual da nossa existência baseia-se nos mais fortes a devorarem os mais fracos. Temos de enfrentar isto. E também é certo que assim seja. Temos de aprender a aceitar isto como uma lei do mundo natural. Os coelhos aceitam o seu papel no ritual e reconhecem o lobo como o forte. Em defesa, o coelho torna-se esquivo, assutado e elusivo e cava buracos para se esconder quando o lobo está por perto. E aguenta-se e continua a viver. Ele sabe o seu lugar. Certamente, não desafia o lobo para um combate. Isso seria esperto? Seria?”</span></p>
</blockquote>
<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/81fe9Pc18JL.jpg" alt="Image result for one flew over the cuckoo's nest penguin classics" width="131" height="198" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mais uma obra para a minha lista dos livros que devia ter lido há muito e, por alguma razão, não li. Neste caso encontro uma razão mais forte para só ter lido agora. Não faz muito o meu género de livro, de escrita, ou de história. Confesso desde já que apenas o li pelo seu estatuto e pela sua popularidade e não, não tenho vergonha de admitir isso. Portanto, também aviso que a minha opinião do mérito da obra pode não ser totalmente imparcial.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>One Flew Over The Cuckoo’s Nest</em> (1962) narra a vida num hospital psiquiátrico. A obra é narrada por um paciente, Bromden, a partir do momento em que McMurphy, um novo paciente se junta ao grupo. Se Bromden passa por surdo e mudo, McMurphy está ali como uma forma de evitar ir para um campo de trabalhos forçado cumprir a sentença a que foi condenado. A ala em que ambos se encontram é subvisionada pela enfermeira Ratched que, é apresentada desde inicio como a voz de comando e autoridade. A história foca-se nas mudanças que se vão operando desde que McMurphy chega e coloca em causa a autoridade da enfermeira levando os outros pacientes a ter vislumbres de uma vida mais livre e real, e ilustra a forma como as doenças mentais eram vistas e utilizadas pelo sistema americano de então.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Descobri que o relato do livro não é totalmente ficcional. O autor teve alguma experiência com pessoas nas mesmas condições que as descritas e, sinceramente, isso explica a abordagem descontraída mas muito concisa e implacável da obra. É uma mais valia e nota-se desde início esta proximidade, sobretudo da parte de quem também já teve contacto com tal realidade. Sinceramente estava com receio dessa parte quando comecei a ler a obra. Mas posso dizer-vos que, nesse aspeto, não há nenhuma pretenciosidade. Nota-se que o autor não foi só mais um que quis escrever sobre o tema sem qualquer experiência e sem sequer se dar ao trabalho de confrontar e analisar a realidade.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Está claro que tal também resulta numa abordagem e numa imagem produzida que pode ser considerada fria e cruel. Mas não vejo problema nenhum nisso. É a forma como as coisas são. É uma obra chocante? É. Mas não há como evitar. As coisas são como são. Com franqueza, não me chocou tanto quanto me impressionou. Realmente, ganhávamos todos muito se eliminássemos os filtros que utilizamos para viver bem nesta sociedade e através dos quais a vemos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que me leva ao ponto principal e mais interessante da obra (a meu ver). A crítica ao sistema. Não houve nada que fosse mais enfatizado (novamente, a meu ver) do que a supressão da individualidade. Também eu me junto agora ao grupo do leitores que veem o hospital psiquiátrico de Kesey como uma metáfora para o sistema. Somos ali postos sem pedirmos, vestimo-nos como nos mandam, comemos e dormimos quando nos mandam, fazemos o que nos mandam e se somos diferentes, tomamos a medicação que nos mandam, cuja dose varia em função do quão diferente somos. E ficámos ali até muito depois de sermos diferentes. Ficamos ali, até deixarmos de querermos sair, até nos esquecermos de que existe mais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O final da obra foi a minha parte preferida. Porque não o esperava. Agora que escrevo isto, tomo consciência de que, durante os dias que levei a ler este livro nem por uma vez tive curiosidade de saber como ele acabava; nunca sequer pensei nisso. Agora entendo que foi porque eu não lhe conseguiria dar um fim e talvez seja por isso que, de certo modo, não sabia o que esperar. Daí ter ficado surpreendida e agradada com o final. Só por ele, valeu a pena.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Mas enfim. Sei que não existe uma tradução de <em>One Flew Over The Cuckoo’s Nest</em> para o português, o que, honestamente, me espanta. Mas não vou por aí. Também sei que há um filme. Eu não vi e confesso que, se não o vir nos próximos dias ou se não for incentivada a vê-lo, não o farei. Alguém já viu? </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Concluindo, não vou ser hipócrita e dizer que gostei muito deste livro só porque ele está estabelecido como um ótimo livro. Gostei, mas estou muito longe de o adorar. Para mim, é um livro normal. Superior em termos de assunto e, apesar de ter sido publicado no século anterior, se tivermos em consideração o estado atual da escrita e do mercado editorial e livreiro, este é um livro extraordinário e muito mais próximo de nós em termos de escrita e vocabulário. Nesse âmbito, e também devido ao assunto abordado e à crítica que encerra, recomendo-o.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3,5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:288752019-11-04T09:00:00“A Feira das Vaidades”, William Makepeace Thackeray – o palco da nossa vida2019-10-31T20:00:42Z2019-10-31T20:00:42Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">“O mundo é um espelho e mostra a cada um o reflexo da sua própria face. Olhas para ele com sobrolho carregado e ele olha-te de volta azedamente; ris-te para ele e ele será um companheiro gentil e alegre; então, deixe-se que todos os jovens façam as suas escolhas.”</span></p>
</blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><img src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/41K3dDzenXL._SX321_BO1,204,203,200_.jpg" alt="Resultado de imagem para vanity fair wordsworth classics" width="126" height="195" /></span></p>
<p style="text-align: justify;">Estou há muitos muitos anos para ler <em>Vanity Fair</em>. Muitos mesmo. Desde que era muito miúda e comecei a ler todos os clássicos. Lembro-me de que na altura houve uma época em que andava louca à procura de uma tradução desta obra. Aparentemente há dez anos, quando eu tinha 13, não havia nenhuma. Sinceramente, acho que ainda não há. Ou se há, eu não conheço. Entretanto, fui-a esquecendo porque foram surgindo sempre novas obras que queria ler e, mesmo quando comecei a ler as versões originais, colocavam-se sempre outras prioridades literárias. No início deste ano, fiz a minha lista com todos os clássicos que extraordinariamente me tinha "esquecido" de ler e lembrei-me de <em>Vanity Fair</em>. Estou tão feliz de finalmente o riscar da lista!</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><em>Vanity Fair</em> teve o subtítulo “Pen and Pencil Sketches of English Society” aquando da primeira publicação (1847) e “A Novel Without a Hero” aquando da segunda (1848). Digo-vos isto porque acho que vale mais do que qualquer sumário que eu possa fazer. A história surge como uma peça. Não de teatro, mas como aquelas de fantoches, ainda que em tamanho real. Talvez uma espécie de holograma? Um microcosmo? Bem, o que seja. A narrativa acompanha, claro, a sociedade inglesa, como já ficou claro, mas foca-se em duas mulheres, Amelia Sedley e Rebecca Sharp, muito diferentes entre si e de origens distintas. Amelia vem de uma família de posses e Rebecca é filha de um pintor e de uma dançarina e cantora francesa; Amelia é gentil e elegante e Rebecca é ambiciosa e implacável. A história acompanha a vida de ambas, os seus desgostos e amores e alegrias e desamores. A obra acaba por ser cíclica por Amelia começar bem, ficar mal devido à falência do pai e à morte do marido e voltar, por fim, a ser feliz e a estar bem; e por Rebecca que começa com tão poucas esperanças conseguir ascender, através dos seus esquemas, até quase ao topo da pirâmide social, e voltar a cair até ao zero. Como a roda medieval, sabem? Como pano de fundo temos a sociedade instruída e polida da Inglaterra vitoriana com todos os seus excessos, hipocrisias e ingenuidades.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vanity Fair</em> é uma daquelas obras magníficas a que os romancistas ingleses dos séculos XVIII e XIX tão bem nos habituaram e que espelham uma sociedade em decadência da qual podemos ver um reflexo nas nossas próprias sociedades contemporâneas.</p>
<p style="text-align: justify;">Há pelo menos quatro aspetos que quero destacar. O primeiro tem a ver com as convenções literárias. <em>Vanity Fair </em>subverte e joga com convenções literárias que o leitor da época (e alguns de nós) conhecem muito bem e entre a quais destaco a tradição dos heróis. Aliás, o segundo subtítulo denuncia isso mesmo. Imaginem, se Amelia é o retrato perfeito de uma heroína sentimental, tantas vezes ironizada pelo narrador por chorar a literalmente todo o instante, Rebecca é claramente a anti-heroína, é o oposto do que deveria ser a mulher da época. Rebecca assemelha-se àquelas heroínas que se vieram a destacar nos romances franceses e russos como Anna Karenina, Emma Bovary ou Marguerite Gautier. Mas com uma diferença, o narrador deixa ver que o fundo de Rebecca não é bom. Simultaneamente o narrador vai ironizando a “pobre Becky” e, simultaneamente, mostrando que os motivos que a levam a agir assim estão ligados à forma como a sociedade nunca lhe deu uma oportunidade só por ela não ser abastada, só por ser filha de pessoas sem nome e com profissões duvidosas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em segundo lugar, destaco obviamente o <em>plot</em> romântico. Lembram-se de Mr Darcy de <em>Pride and Prejudice </em>de Austen? Exato. Aqui temos William Dobbin que é, como dizem os ingleses “the second best thing”. Eu nem costumo apreciar por aí além este tipo de heróis, acho-os sempre meio toscos e irritantes (apesar de os achar também maravilhosos, atenção!), mas gostei mesmo deste personagem. Sobretudo da forma como evoluiu no final. O amor dele pela Amelia é só lindo!</p>
<p style="text-align: justify;">Em terceiro, o narrador. Para mim, uma das razões para o sucesso da obra. Adorei a voz narrativa. É dos narradores de que mais gostei até hoje. É muito próximo de nós, sabem? Não é confiável, nunca sabemos quem é, às vezes parece só o autor de uma história, depois aparece como um figurante que observou determinada cena, mas sabem o que mais gostei? Parece que está sempre connosco. Nunca se deixa esquecer. É como irmos passear acompanhados. Eu senti-me sempre acompanhada no processo de leitura, não era só eu, a leitora. Era eu, a leitora, e o narrador que me contava a história. Gostei mesmo muito deste aspeto.</p>
<p style="text-align: justify;">Por último, a crítica social. Maravilhosa! Não vou elaborar porque a receita é antiga. Todo o romance inglês a mostra, apenas a maneira de a expor varia. Portanto, não vale a pena dizer muito. Apenas que eu gostei desta maneira.</p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;">Ah! Vanitas Vanitatum! Quem entre nós é feliz neste mundo? Quem entre nós alcança o que deseja? Ou, tendo-o alcançado, fica satisfeito? Vamos crianças, deixai que se feche a caixa e se arrume os fantoches, porque a nossa peça chegou ao fim.</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">Não vou mentir. A obra é extensa. A minha edição é de bolso, ou seja tem aquelas letrinhas extraordinariamente pequeninas e, mesmo assim, tem quase 700 páginas. Mas isso é o que tem cada volume de <em>Guerra & Paz</em> ou de <em>Os Miseráveis</em> e todos os lemos! <em>Vanity Fair</em> vale muito pena e não consigo recomendar-vos vezes o suficiente que a leiam. Foi uma das obras que mais gostei de ler este ano, pelo menos até agora. De verdade. E lê-se muito bem, cativa-nos. O narrador, como vos disse, só ajuda. Sei que vou dizer uma coisa estranha e tenho consciência de que, se calhar, não vão entender o que quero dizer, mas <em>Vanity Fair</em> é um livro muito “confortável de se ler”. Compreendem o que quero dizer? Já o leram? O que acharam? Têm curiosidade suficiente para o ler? Convenci-vos?</p>
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<p style="text-align: justify;">Idioma de Leitura: Inglês</p>
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<p style="text-align: center;">5/5</p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:286442019-10-31T09:00:00“The Raven” & “The Masque of the Red Death”, Edgar Allan Poe – A minha leitura de Halloween2019-10-30T21:11:10Z2019-10-30T21:11:39Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">A treva enorme fitando, fiquei perdido receando, dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.</span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"> <img style="padding: 10px 10px;" title="51HWrpUBEQL.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B94184163/21597798_a9V7e.jpeg" alt="51HWrpUBEQL.jpg" width="118" height="174" /><img style="padding: 10px 10px;" title="51tdeQ3-maL._SX331_BO1,204,203,200_.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5918dbe7/21597799_ounLY.jpeg" alt="51tdeQ3-maL._SX331_BO1,204,203,200_.jpg" width="117" height="165" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Pois bem, eu não ligo nada ao Halloween. Não é uma festividade nossa, em termos culturais e, além disso, está incrivelmente longe daquilo que, originalmente, se designou que fosse. Contudo, estou ciente do significado e influência crescente desta celebração e, apesar de geralmente não “fazer” leituras temáticas, achei que era interessante tentar este ano. Então, escolhi duas obras – um poema e um conto – que encaixam maravilhosamente no conceito de Halloween. Afinal, a existir um autor, pelo menos daqueles que eu aprecio e costumo ler, cuja obra englobe e encaixe neste espírito, não é ele Edgar Allan Poe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tanto <em>The Raven </em>(<em>O Corvo</em>), como<em> The Masque of The Red Death </em>são produções que encaixam no que hoje entendemos por ficção de terror. Embora eu prefira chamar-lhes góticas. <em>The Raven</em>, muito resumidamente, é um poema sobre um corvo que atormenta noite fora um apaixonado que lamenta a morte da amada. <em>The Masque of The Red Death </em>é um conto sobre uma espécie de peste que atormenta um reino e vai dizimando a população. Para fugir dela, o Príncipe Prospero refugia-se com alguns convidados numa abadia. Para distrair estes convidados organiza um baile de máscaras ao qual comparece um indivíduo mascarado precisamente de Red Death. Resolvido a esclarecer e a castigar este intruso que teve uma brincadeira de tal mau gosto, o príncipe manda desmascará-lo. Susto dos sustos quando se descobre que tal figura não tem, por assim dizer, “substância”. Suponho que adivinham o que acontece a toda aquela gente abastada que pensava que podia fugir da morte.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Está claro que ambas as obras acabam por ser muito mais do que apenas isto. Estão repletas de significado e permitem diversas interpretações que têm sido vastamente discutidas. Eu, pessoalmente, destaco em relação a <em>The Raven</em> a impossibilidade de olvidar a pessoa amada e a loucura que vem dessa impossibilidade e, em relação a <em>The Masque of The Red Death</em> claro, a inevitabilidade da morte, a única que nos trata a todos da mesma forma.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Eu não gosto de comparar produções escritas, muito menos quando pertencem a estilos tão diferentes, portanto não vou dizer “este é melhor” até porque isso não se aplica a Poe e a escritores como ele. Pessoalmente, gostei mais de ler <em>The Masque of The Red Death</em>, embora admita que isso tem meramente a ver com uma preferência pessoal. Por natureza, prefiro ler prosa. Mas isso não quer dizer que este conto seja melhor que <em>The Raven</em>. De todo. Adorei o poema. É um dos poemas mais conhecidos e apreciados de Poe. Depois de o ler agora com mais calma (já o tinha lido há uns tempos), ainda gostei mais do que anteriormente. É muito belo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The Raven</em> tem mesmo aquela aura de mistério, sabem? Remete para algo que assombra, algo que fascina por ser tão inescapável e inevitável. Gostei mais dele pelo que me fez sentir do que pela própria composição ou ideia. Mas acho que é sempre assim com a poesia. E não sei se não com toda a literatura. Afinal, é assim com a arte no geral, não vos parece?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não vou dizer que estas produções me fascinaram como outras do mesmo autor. <em>The Bells</em> é extraordinário e <em>Annabel Lee</em> é só um dos meus poemas preferidos de sempre. E porque escolhi estas? Bem, é Halloween ou não é? Ademais, ainda não tinha lido <em>The Masque of The Red Death </em>e não me lembrava muito bem de <em>The Raven</em>. Além disso achei que era interessante trazer duas obras do mesmo autor que ocupam no conjunto da sua obra posições tão distintas. Toda a gente fala de <em>The Raven</em>, mas não ouço muita gente falar de <em>The Masque of The Red Death</em>. Talvez vocês fiquem curiosos para ler?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não sei quanto a <em>The Masque of The Red Death</em>, mas <em>The Raven</em> tem traduções para português, entre as quais a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa. É a de Pessoa que utilizo na citação no início do <em>post</em>. Pessoalmente, gosto dessa tradução. Porém, como sabem, Poe deve ser um dos mais difíceis autores de traduzir, a par talvez de Nabokov (que, a propósito, era um fã de Poe), devido às inúmeras referências e ao próprio ritmo e musicalidade pelos quais tanto se destaca.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Concluindo, recomendo-vos a leitura de ambas as produções. Lê-se mega rápido e muito bem. São relativamente pequenas e cativantes! Se começarem agora, acabam antes do almoço! E não são nada difíceis de encontrar. Estão <em>online</em> em todo o lado! E não é Halloween? Já que vamos adotar a festividade, mais vale adotar em todos os campos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:283582019-10-21T09:00:00“Doutor Zhivago”, Boris Pasternak – o Amor & a Guerra que o desafia e vence2019-10-18T19:35:08Z2019-10-18T19:35:08Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Eles amaram-se, não impulsionados pela necessidade, ou pelo “ardor da paixão” frequente e falsamente associado ao amor. Eles amaram-se porque tudo à sua volta conspirou nesse sentido, as árvores e as nuvens e o céu sobre as suas cabeças e a terra sob os seus pés. Talvez o mundo que os rodeava, os estranhos que eles conheciam na rua, as vastas extensões que viam nas suas caminhadas, as divisões em que vivam ou onde se encontravam, tivessem mais prazer no amor deles do quer eles tinham.</span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><img src="https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/81XDpz3qb2L.jpg" alt="Image result for doctor zhivago vintage" width="125" height="191" /></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não vou mentir logo no início. Só li <em>Doctor Zhivago</em> porque vi o filme há coisa de 1 ano e tal. Lembro-me de que não gostei especialmente do filme (vi a versão de 1965 realizada por David Lean), mas que gostei muito da história. Li sobre ela mais tarde e só fiquei surpreendida de não ter ouvido falar desta obra mais cedo. Não só porque adoro literatura russa no geral, mas porque a história é muitas vezes descrita como uma das grandes histórias de amor de sempre. Não sei se concordo, mas acompanhem-me.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Publicado em 1957, <em>Doctor Zhivago</em> acompanha a vida de Yuri Zhivago, focando sobretudo o período da Revolução Russa de 1905 e da 2ª Grande Guerra Mundial. Conhecemo-lo desde os tempos de infância até à morte. Da mesma forma, conhecemos as personagens que passam pela sua vida e entre as quais se destaca Lara. Com uma vida complicada e uma infância e adolescência que terminaram brusca e precocemente, Lara começa por se cruzar com Yuri ainda antes da vida adulta, embora fugazmente, mas deixou, claro, a sua marca. Eles seguiram em direções opostas, mas a guerra levou-os de volta um para o outro, Yuri médico, Lara enfermeira, ambos casados e muito longe de casa, sem sequer saberem se voltariam a ver as suas famílias outra vez. No meio de uma guerra, eles apaixonam-se e a obra vai acompanhando a relação deles à medida que a guerra avança e os vai ora aproximando ora afastando.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Claro que a obra é muito mais do que somente uma história de amor. Para mim, que por acaso até adoro<em> plots</em> românticos, a história de amor até é o menos no meio de tudo isto. E a obra não vale por ela. Melhores histórias de amor se escreveram e mais trágicas do que esta. A obra, para mim, vale pelo incrível testemunho acerca da guerra e dos efeitos que ela causou na vida das pessoas; a forma como as mudou e modelou e os efeitos que deixou. Mas não é só isso.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">A obra tem uma incrível componente filosófica que para mim é um dos seus pontos fortes. Sim, mais do que a história romântica. Mas, destaco também a poesia. A escrita de Pasternak é muito poética. Aliás, o próprio Yuri escreve poesia e no fim da história encontramos os poemas que ele escreveu para Lara (e que são lindissímos!). Além disso, <em>Doctor Zhivago </em>está repleta de momentos cujas descrições me relembram cenas de contos de fadas. Não é incrível e contraditório? É uma história sobre guerra e ainda assim parece-me tão sonhadora, tão encantadora, genuinamente ao estilo conto de fadas. É estranho, mas bom. A maioria das outras grandes obras que li que acompanham situações destas não o fazem, como <em>Os Miseráveis</em> <em>ou Guerra e Paz</em> (que eu, na verdade, prefiro a <em>Doctor Zhivago</em>).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Ademais acho que esta seja uma das grandes histórias de amor de sempre. Aliás, acho mesmo que é uma história de amor normal. Tem aquela dimensão por estar sempre na incerteza, o tempo de Guerra faz dela trágica, mas de resto, é uma história de amor normal. Até é demasiado fácil. Lara e Yuri são muito cândidos e doces, sabem? Seriam até aborrecidos se não houvesse uma guerra a separá-los e a jogar com os seus destinos. São muito "certos". Mas sabem que mais? Se eles funcionam muito bem um com o outro, como verdadeiras almas gémeas, funcionam igualmente bem um sem o outro, como aliás ocorre ao longo da narrativa. Não são indispensáveis ao bem-estar e à vida um do outro, entendem? São só desejáveis e incentivantes ao mesmo. É bonito, mas eu acho que a magia de uma história de amor está relacionada com outras coisas.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">No geral, eu gostei da obra. Não acho é que seja uma coisa incrivelmente extraordinária. No seu género, não me parece que seja a melhor. É muito boa, mas não genial. Ainda assim e, sobretudo pela parte ideológica e pelo sentido político, merecia aquele nobel que o autor “teve” de declinar. Como um todo, aconselho bastante a leitura. Infelizmente não consegui ler o original em russo, mas li uma versão em inglês da Vintage cuja tradução foi premiada. Por essa tradução posso responder e dizer que se lê muito bem e que é muito poética. Sei que existe uma tradução recente para o português, mas não a conheço. As traduções são importantíssimas e, há casos em que contam imenso. Mas também há casos em que as obras são tão boas que a tradução passa por nós sem ser notada. Alerto ainda para o tamanho da obra que, com efeito, é longa. E a narrativa, às vezes, torna-se demasiado cansativa. Porém, no geral, a obra lê-se bem e é cativante. O mesmo funciona para a versão fílmica. Pelo menos a que eu vi. É boa, mas às vezes cansa. Independentemente de tudo, se gostarem deste tipo de história, não podem deixar de ler <em>Doctor Zhivago</em>!</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">3,5/5</span></p>
</div>
<p style="text-align: justify;"> </p>
</blockquote>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:281032019-10-14T09:00:00“Oliver Twist”, Charles Dickens – a imoralidade da sociedade pelos olhos da inocência 2019-10-11T15:26:20Z2019-10-11T15:26:35Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span class="TextRun SCXW200605456 BCX4" lang="PT-PT" style="font-size: 12pt;" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun SCXW200605456 BCX4">O Oliver Twist pediu mais!</span></span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 148px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Unknown.jpeg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bbc183370/21579957_ZA9tZ.jpeg" alt="Unknown.jpeg" width="177" height="228" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Não há nada que abunde mais na minha biblioteca do que romances ingleses de século XVIII e XIX. Durante a minha adolescência era tudo o que gostava e tudo o que lia e foi através deles que conheci todos os outros grandes clássicos que fui lendo. Recentemente, não sei bem explicar porquê, fui me lembrar de que não tinha lido assim tanto de Dickens.<em> Great </em><em>Expectations </em>(<em>Grandes Esperanças</em> em Portugal), óbvio, e alguns contos, mas onde estavam os outros romances dele que eu sabia de antemão que ia adorar? Foi mais ou menos o mesmo que me levou, há uns tempos, a fazer uma encomenda de obras de Shakespeare que ainda não tinha lido (falei de algumas aqui no <em>blog</em>!). Assim que pensei nisto fui ver o que me faltava ler, fiz uma encomenda e venho-vos agora falar de uma das coisas simultaneamente mais doces e cruas que já li, <em>Oliver Twist</em>! </span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>Oliver Twist </em>(1837) conta a história do protagonista do mesmo nome, um jovem orfão, cuja mãe morreu durante o seu parto. Nascendo naquilo que eu hoje chamaria, talvez, uma casa de correção, Oliver cresceu numa casa paroquial até ter cerca de 10 anos e ser enviado para outra casa de correção, da qual foi expulso após, esfomeado entre outros esfomeados, ser “sorteado” para pedir mais comida (“O Oliver Twist pediu mais” vem desta cena). Um tal crime faz com que seja quase vendido como aprendiz a, imagine-se um agente funerário. Nem vos digo onde a pobre criança dormia. Em nova precariedade, Oliver foge para Londres onde é acolhido por um grupo de delinquentes criminosos que cedo entendem os benefícios de utilizar uma criança na perpretação dos seus crimes. No meio de um desses crimes Oliver é abandonado pelos seus colegas e acusado do crime. Mr Brownlow, a vítima, acaba por o acolher e criar por ele afeto. Mas tal não dura, o grupo acaba por recapturar Oliver. Envolto em novo crime, o menino é ferido e acaba novamente ao cuidado da vítima deste crime, Mrs Maylie, mas o bando de criminosos não desiste dele, por razões que o leitor de Dickens pode supor e que eu não vou desvendar aqui. De <em>spoilers</em> ninguém gosta. Mas romance vitoriano é romance vitoriano e não é <em>spoiler </em>nenhum contar que no fim, como diz o poeta, “tudo está bem quando acaba bem” e aqui acaba tudo muito bem. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Este livro sensibilizou-me muito. Achei genial Dickens ter escolhido para esta história uma criança como protagonista. Não teria funcionado tão bem de outra forma, acho que todos entendemos isso. A inocência do Oliver torna todas as outras personagens mais cruéis e todos os eventos mais injustos. Se a obra fosse protagonizada por um adulto, ou sequer se acompanhasse o percurso de Oliver até à vida adulta, como acontece com Pip em <em>Great </em><em>Expectations</em>, não tinha nem metade do impacto que tem assim. O efeito não era o mesmo. Não me interpretem mal, a obra vale como um todo e, como um todo é fantástica. A crítica social então, é das melhores que tenho lido, sobretudo por ser das mais cruas e frias. Mas tudo isto sobe de intensidade por o objeto da crueldade, da injustiça, da depravação, ser uma criança. E ainda por cima orfã. Foi muito inteligente mesmo. O chamado “golpe de mestre”. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Na minha opinião, não há aqui nada tão fantástico como esta crítica. Se seguem o <em>blog </em>sabem que eu sou muito adepta de <em>plots</em> românticos. Mas a verdade é que <em>Oliver Twist</em> vale pela critica, pela representação de uma sociedade inglesa, aquela sociedade que tanto orgulho gerava pela sua gentileza, valores e morais — “a civilização inglesa e cristã" —, que não passava de uma imagem bonita. A injustiça e a crueldade desta sociedade são exposta de uma maneira tal que, francamente, até deslumbra. Não no sentido bom, como é óbvio. Mais no sentido da impressão que causa. E não é só a sociedade. São as instituições, a justiça, o Estado. Todas aquelas entidades que deviam olhar e cuidar do individuo. E o que sai de <em>Oliver Twist</em> é que todas estas entidades falharam. Até a uma criança orfã. E não é só isso, a todos aqueles individuos a quem Oliver se viu associado, na sua maioria adolescentes, que tiveram de se virar para uma vida criminosa porque não conseguiam sobreviver naquela sociedade de outra forma. Se não fosse a bondade de estranhos, o que tinha acontecido a Oliver? O que sofreria mais à custa do seu Estado, da sua justiça? </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">E agora digam-me, não vos parece atual? Não vos parece que esta história não é algo que ficou e refletiu somente a Inglaterra do século XIX, mas toda a nossa história? Desde que aqui estamos? Quem cuidará de nós quando precisarmos? É muito triste. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Recomendo muito <em>Oliver Twist</em>. Como veem, a história é atual, é doce e amarga ao mesmo tempo. Lê-se muito bem. Dickens é ótimo porque cativa, tem uma qualidade extraordinária e não é incrivelmente "pesado". Mesmo que não consiga atingir todos os níveis de interpretação (e quem consegue com estas obras?!), qualquer pessoa a consegue ler. E há traduções para o português. Por isso, não há mesmo desculpas. Leiam! </span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4,5/5 </span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:aoutrameninabennet:277902019-10-07T10:00:00“The Outsiders”, S.E. Hinton – a adolescência é tudo menos de ouro 2019-10-02T14:17:41Z2019-10-02T14:17:41Z<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;"><span class="TextRun SCXW7243179 BCX4" lang="PT-PT" xml:lang="PT-PT"><span class="NormalTextRun SCXW7243179 BCX4">Parecia-me estranho que o por-do-sol que ela via do seu pátio e aquele que eu via dos degraus atrás da minha casa fosse o mesmo. Talvez os dois mundos diferentes em que nós vivíamos não fossem assim tão diferentes. Nós víamos o mesmo por-do-sol.</span></span></span></p>
</blockquote>
<p class="sapomedia images"><img style="width: 119px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="41VMtHqtNXL.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1e18b5bf/21572589_EnjZP.jpeg" alt="41VMtHqtNXL.jpg" width="283" height="204" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Quando eu era mais nova adorava os chamados livros ‘coming of age’. Lia-os num instante. Ainda continuo a preferir livros, filmes e séries deste género. Pode ter a ver com o facto de ser mais fácil de me relacionar, claro. No meio da minha adolescência, estranhamente, passei ao lado de <em>The</em><em> Outsiders</em>. Mais estranho, passei ao lado não só do livro, como do filme. Mas não passei ao lado da expressão icónica e proferida hoje indiscriminadamente que, na verdade, vem desta história - “stay gold”. Julguem-me, mas só no início deste ano descobri de onde vinha tal expressão e fiquei atrapalhada por perceber que tinha deixado escapar este famoso e importante ‘coming of age’ (ainda por cima considerado um clássico moderno!). Então, pus <em>The</em><em> Outsiders</em><em> - </em>ou, como se lembraram lhe chamaram em Portugal, <em>Os Marginai</em><em>s </em>-<em>, </em>na lista e apesar de só o ter lido no fim de setembro, finalmente posso riscar. </span></p>
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<a name="cutid1"></a><div class="ljcut" text="Continue a ler ...">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;"><em>The</em><em> Outsiders</em> é essencialmente uma história sobre desigualdade e sobre escolhas. O cenário é adolescente, o que a torna mais chocante e crua. A narrativa é contada por Ponyboy Curtis, um adolescente de 14 anos, e foca a rivalidade entre dois grupos sociais – os “greasers” e os “socs”. Os “greasers” são os chamados “outsiders”, ou seja, os rapazes e raparigas de famílias mais pobres, aqueles mais à margem da sociedade, que têm de lutar para encontrar recursos que lhes permitam sobreviver. Está claro que isto implica alguma criminalidade. Os “socs” são de famílias mais abastadas, que não precisam de nada porque já têm tudo e mais alguma coisa. Ponyboy faz parte do primeiro grupo desde que os pais morreram e ele ficou com os irmãos. A rivalidade entre os dois grupos é tremenda e estonteante, com membros de ambos constantemente envolvidos em lutas. O ponto alto desta rivalidade acontece quando Johnny, amigo de Ponyboy, em legitima defesa, assassina Bob, um membro dos “socs”. A história desenvolve a partir daí e é impossível resumir o resto sem dar grandes e importantes <em>spoilers</em>, algo que eu odeio fazer. Por isso, se querem mesmo saber o que acontece, têm de ler! </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Sabiam que a autora tinha apenas 15 anos quando escreveu <em>The</em><em> Outsiders</em>? Nem quero pensar nisso. O que estavam vocês a fazer com 15 anos? Eu provavelmente estava a ler ou a chorar ou a discutir com alguém, como qualquer outra pessoa de 15 anos! Estranhamente, ao ler <em>The</em><em> Outsiders</em>, lembrei-me muito desses anos. E acho que se vocês lerem, também se vão lembrar da vossa adolescência ou, se ainda estiverem a vivê-la, vão encontrar aqui reflexos dela. A um nível completamente diferente, como é lógico. Na minha escola (e espero que na vossa) ninguém assassinou ninguém! Mas não é mesmo isso que está em jogo. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">O que mais me agradou em <em>The</em><em> Outsider</em><em>s</em>, foi a maneira como a autora captou a ausência de escolhas, o desespero e a frustração de não querermos ser aquilo que temos, por imposição da natureza e da sociedade, de ser. Os adultos adoram dizer aos adolescentes que eles são novos, que têm a vida inteira à sua frente, que só agora é que podem fazer tudo o que querem. Mas o que é que fazem ao mesmo tempo que dizem estas coisas todas? Limitam-nos. Ter sido adolescente foi a pior coisa que me aconteceu. Só tenho 23 anos, mas se há algo que sei é isso. Fiz tudo menos o que os adultos diziam que eu só podia fazer então. O mero facto de te dizerem que só em determinada altura é que podes fazer tal coisa é tão assustador que, e falo por mim, já nem a queres fazer. Só o conhecimento de que tudo o que fizeres vai definir o que vai ser a tua vida futura é aterrorizador. Por exemplo, eles dizem-nos então que temos tempo para ser o que vamos ser, mas depois temos 15 e 16 anos e pedem-nos para escolher se queremos seguir ciências ou letras. E ainda nos dizem para consideramos o que nos dá melhores perspetivas de futuro. Estão a ver onde quero chegar? <em>The</em><em> Outsiders</em> capta esta questão de teres todo um mundo de possibilidades à tua frente e não o puderes aproveitar porque a verdade é que não tens escolha nenhuma. Fazes o que a sociedade quer que tu faças e o que os teus pais podem pagar. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Johnny de <em>The</em><em> Outsiders</em> nunca sequer tinha saído da sua cidade até ao dia em que matou Bob e teve de fugir. A semana em que esteve em fuga foi a única em que fez coisas importantes. 16 anos e a única coisa que fez de bem, a única coisa de que gostou, derivou de uma decisão errada na qual foi apanhado, não por escolha própria, mas por instinto e imposição social. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">“Stay Gold” é uma referência ao poema de Robert Frost "Nothing Gold can Stay" (lindissímo, leiam!). A interpretação dada pela autora, que também é a que eu considero, remete para o “gold", o ouro que nunca permanece, ser os tempos de infância, de adolescência, que terminam quando nos tornamos adultos. Para mim, a adolescência é tudo menos de ouro. A infância sim. Aí sim, estamos próximos da liberdade, livres de imposições. Não porque não estejamos inseridos numa sociedade e não tenhamos pais de quem dependemos, mas porque não pensamos sobre isso. Quando começamos a pensar estragamos tudo, porque começamos a crescer. Eu nunca diria “stay gold” a um adolescente de 15 anos, diria-o a uma criança de 5. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Tudo isto para vos tentar dizer que <em>The</em><em> Outsiders</em> capta muito bem o problema de ser adolescente. Para mim, mais do que a desigualdade social que se adora debater quando se fala desta obra, isto é o mais importante. Podemos ver todos o mesmo por-do-sol, mas não o vemos da mesma forma. Nem em relação aos outros, nem em relação a todas as versões de nós que vão surgindo com os anos. <em>The Outsiders</em> vale muito a pena e se puderem ler, independentemente da idade que têm agora, não deixem de o fazer! </span></p>
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<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Idioma de Leitura: Inglês </span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">4/5 </span><span style="font-size: 14pt;"> </span></p>
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