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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

11
Mar19

“Em Busca do Tempo Perdido – Do Lado de Swann (Vol. I)”, Marcel Proust – o tempo a passar à velocidade de violetas e lilases

Sofia

“Os lugares que conhecemos só pertencem ao mundo do espaço em que os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia por entre impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de uma determinada imagem não passa da nostalgia de um determinado momento; e as casas, as estradas, as avenidas, são infelizmente fugazes, como os anos.”

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Há imenso tempo que queria começar a ler esta coleção. Provavelmente já notaram que escolhi este ano para ler todos aqueles livros que sempre quis ler, mas que por uma razão ou por outra, nunca li. Por falta de tempo, coragem ou só por distração. Parecendo que não, metem-se sempre imensas coisas no caminho quando nos determinamos a fazer algo. Porém, comecei finalmente Em Busca do Tempo Perdido e aqui vai a minha opinião acerca do primeiro volume, Do Lado de Swann.  

 

Do Lado de Swann está dividido em 3 partes. Tem uma primeira parte dedicada às principais memórias de infância do protagonista na pequena Combray, uma segunda parte cujo foco é o amor do Senhor Swann por Odette, e uma terceira parte que narra novamente memórias do narrador quando jovem. 

A coisa mais fantástica desta obra foi sem dúvida a absolutamente estrondosa impressão estética e sensorial que causa. É uma coisa extraordinária, digo-vos. Não tenho, contudo, a certeza de conseguir explicar bem o que quero dizer. Ao longo da obra são descritos tantos cenários domésticos, caseiros e naturais, que são tão facilmente relacionáveis com as experiências do indivíduo comum, que eu senti que estava mesmo a ver todas aquelas flores, a sentir o seu cheiro, parecia que conseguia distinguir claramente as comidas de que falava o narrador, ver os raios de sol a atravessar os vitrais das catedrais e igrejas, etc. A certo ponto o narrador diz que viu toda a Combray, jardins e cidade, a sair "da sua chavéna de chá". Nesse momento eu também vi! Sinceramente acho que nunca me tinha acontecido uma experiência sensorial tão forte despoletada por uma obra literária. Possivelmente devido ao facto de que, provavelmente nenhum dos autores que li, teve uma preocupação tão grande em despoletar uma. Destaco este como o aspeto de que mais gostei. 

E o que dizer da história de amor e ciúme do Senhor Swann?! Do mais humano e cruo que já li! É tão humana a forma como Swann ama Odette, como se apaixona por ela sem saber bem como nem porquê, e depois como não consegue evitar sentir todos aqueles ciúmes. A insegurança e o desespero que vêm da romantização da pessoa amada e da sua inevitável falha em ser aquilo que nós idealizamos são tão bem retratadas. A questão é que nem sequer é romântico, entendem? É só real e natural e humano. E é igualmente belo.  Novamente, pareceu-me que é algo com que todos nos podemos relacionar, porque se ainda não nos sentimos assim, vamos sentir. A certo ponto Swann pensa “E pensar que estraguei anos da minha vida, que desejei morrer, que dediquei o meu maior amor a uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo!” Quem não?! 

Nabokov chamou a este volume um “conto de fadas”. Não podia concordar mais! E a culpa é das flores, tenho a certeza! Para além de serem a principal causa da impressão estética que a obra produz, dão, na minha opinião toda uma aura de magia, de encanto. Invocam não só uma impressão visual, mas também olfativa e tactual. Parece que estamos num mundo à parte, encerrados num globo de neve onde é sempre primavera. 

Considerei ler os sete volumes e só depois dar aqui a minha opinião geral sobre a coleção, como fiz com, por exemplo, As Crónicas de Gelo e Fogo. Contudo, isto é tão bonito! E tão complexo. Não me parecia que conseguisse falar sobre sete volumes como este de uma só vez. E a verdade é que, desde que acabei este volume que não me calo com ele! Parece estranho o que vou dizer agora, mas sinto que desde então acho tudo mais vivo e bonito. Quer dizer, páro para olhar e observar as coisas, entendem? Acho tem a ver com a dimensão estética e sensorial da obra. E eu já era uma menina bastante sensível ao mundo antes de a ler!  

E agora mal posso esperar para ler os outros 6 volumes! Estou com grandes espectativas, o que não tenho a certeza de ser bom! 

Vou concluir dizendo que recomendo muito Do Lado de Swann. É como vos disse, cria uma impressão visual  e sensorial bastante forte, que para mim foi o mais extraordinário, e a narrativa é lindissíma. O peso da nostalgia que cria é insustentável. Mas é mesmo tão bonito! Se puderem e vos parecer bem, não deixem de ler!  

 

Idioma de Leitura: Português 

 

5/5 

 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, viagens, tragédias, chuva e chocolate.

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