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A Outra Menina Bennet

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14
Set20

“Finnegans Wake” – James Joyce

Sofia

Conheceste-me uma vez, não me conhecerás duas.

Amazon.com: Finnegans Wake (Wordsworth Classics) (8601200711196): James  Joyce: Books

Já escrevi aqui sobre Ulisses e, nos primeiros meses do ano, sobre Dubliners, ambas obras de James Joyce. Ulisses continua a ser para mim um dos livros mais queridos. Esta semana escrevo-vos sobre Finnegans Wake porque era um dos dois livros que me faltava ler de Joyce. Creio que em breve escreverei sobre o outro – The Portrait of the Artist as a Young Man.

 

Como já repararam gosto sempre de começar com um breve sumário da obra sobre a qual escrevo. Desta vez não o farei. Não porque não queira mas porque estou convencida de que é impossível. Não há forma de resumir Finnegans Wake, embora realmente existam algumas pessoas (poucas) que já o tentaram fazer. Todavia eu francamente não consigo e, como tal, deixarei apenas algumas impressões pessoais da minha leitura.

A obra tem uma dimensão cíclica. A primeira frase e a última são uma só, ou seja, o livro começa a meio da frase que o termina e termina a meio da frase que o começa. A narrativa segue algumas personagens recorrentes - Humphrey Chimpden Earwicker (HCE), a sua esposa, Anna Livia Plurabelle (ALP) e os seus filhos Shem, Shaun e Issy. Porém, até estas são difíceis de acompanhar porque, e sobretudo HCE, estão constantemente a ser chamados por outros nomes ou por variantes dos seus nomes. No inicio há uma espécie de julgamento de HCE no qual ninguém sabe bem do que ele está a ser acusado. É um capítulo muito confuso, mas foi um dos que mais gostei e um dos poucos que consigo resumir.

Finnegans Wake foi provavelmente a obra mais difícil que já li. No início e até conseguir apanhar o ritmo tive de recorrer a um audiobook. Foi a primeira vez que o fiz, não gosto muito. Mas até conseguir sequer ler aquele inglês (muitas vezes transcrito segundo sotaques específicos) teve mesmo de ser e nem consigo imaginar como poderia ser de outro modo. E não é só isso que dificulta a leitura. Muitas vezes surgem palavras nas mais diversas línguas e interjeições gigantes que ninguém consegue realmente ler. Não obstante, devo confessar que a obra, para mim, acaba por valer muito por esse registo. Muitas vezes pus-me a ler em voz alta, não só para perceber melhor, mas para conseguir apreciar melhor o que estava a ler.

Não bastasse a linguagem, existem inúmeras referências históricas, culturais, religiosas, políticas e, sobretudo, literárias, que não me parece que um dia consigam sequer ser todas descobertas quanto mais enlencadas. Acho que o facto de não as conseguirmos descobrir todas também dificulta a leitura e faz com que ela pareça mais absurda do que provavelmente é. Claro que compreendo que, esteticamente, esse é um dos objetivos e aquilo que a torna tão interessante - o absurdo, o nonsense. Para mim o que é extraordinário é que alguém consiga propositadamente compor algo como Finnegans Wake.

Não obstante, devo acrescentar que existem muitas passagens realmente belas e poéticas e tenho imensa pena de não conseguir entender tudo aquilo que li. Aconteceu com frequência perder-me no que estava a ler mas, lá para meio da leitura, isso deixou de me frustar. Sempre que me perdia, continuava a ler e focava-me muito no “som” da leitura, no aspeto técnico, em tudo menos na narrativa. E assim ia lendo até o meu cérebro captar outro momento de elucidação que me cativasse. Depois voltava a perder-me e começava tudo outra vez!

Foi realmente a leitura mais estranha de que me lembro. Mas exatamente por isso sei que é uma que nunca me vai sair da cabeça. No fim, acabei por aprender a gostar muito daquilo que estava a fazer e a ler. Ainda há passagens específicas e completas na minha cabeça e já passou mais de uma semana desde que acabei a leitura!

Não sei se esta obra alguma vez terá sido traduzida. Até porque, no seguimento do que já disse, acho isso algo não só inconcebível como impossível. Embora fosse certamente um belo projeto. Conhecem alguma tradução? Nunca vi nenhuma, mas tenho uma vaga sensação de ter ouvido alguém mencionar uma tradução muito antiga, mas não sei se não estarei a confundir com outra obra de Joyce. Confesso que tenho bastante curiosidade em ver como seria uma tradução de Finnegans Wake.

Antes de ler a obra li alguns ensaios sobre ela e a introdução que acompanha a minha edição. Todos os autores eram unanimes em relação a aspetos como a complexidade da obra, a impossibilidade de a resumir concretamente ou de a explicar sinteticamente. Não sei o que terá passado na cabeça de Joyce quando estava a escrever Finnegans Wake, mas o tempo que levou a escrevê-la deve ter sido um período extraordinário na vida dele. Compreendo que o autor não almejou a qualquer leitor quando escreveu esta obra e acho que isso contribui para o diálogo escritor-leitor que inevitavelmente resulta, mas o que gostava muito de saber era se a obra pode realmente ser completamente explicada. Se o autor a construiu no sentido de ela poder ser desconstruída ou se fez exatamente o oposto e criou algo que não pode ser desconstruído exatamente pela falta de sentido que não a deixa ser explicada. Provavelmente nunca vamos saber. Já leram esta obra? Qual a vossa opinião?

 

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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