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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

02
Mar20

“La Prespective Nevski”, Nicolas Gogol

Sofia

Juntamente com a iluminação de rua, tudo respira ilusão.

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Esta leitura foi verdadeiramente um caso de oportunidade. Há algum tempo que queria ler algo deste autor e nunca consegui. Ora porque não encontrava à venda, ora porque não queria mandar vir em outro idioma, ora porque simplesmente me esquecia que queria ler. Aconteceu recentemente ver esta edição em francês à venda numa livraria e, como era tão acessível, nem pensei duas vezes.

 

Esta edição tem dois contos, mas para não falar de ambos decidi escrever-vos sobre o primeiro, intitulado em francês La Prespective Nevski (1835). O conto começa por descrever a rua de Peterburgo que lhe dá título, prosseguindo narrarando dois acontecimentos específicos. Primeiramente, um individuo, Piskariov, que segue uma mulher por quem se sente atraído até àquilo que se revela ser um bordel. Se primeiramente fica chocado pelo que vê, mais tarde, Piskariov decide pedir esta mulher em casamento. Quando esta história conhece o seu desfecho - que não vos vou revelar -, o conto prossegue com Pirogov que faz exatamente o mesmo que Piskariov, ou seja segue uma mulher, desta vez, até à casa dela, apenas para descobrir que ela é casada. Regressa, no entanto, mais tarde para a tentar seduzir.

Aquilo que mais me chamou a atenção e que mais me agradou foi o diálogo entre tradições. Se a primeira parte do conto, a que segue Piskariov, é uma clara referência e paródia à tradição sentimental, com um herói romântico em todos os aspetos, que idealiza o mundo e as pessoas que o habitam e que vive mais em sonhos do que na realidade, a segunda parte é uma invalidação do realismo que se lhe opõe, com um protagonista que é tudo menos romântico e que corre atrás daquilo que quer sem piedade, operando de forma exageradamente prática. Juntos no mesmo conto, as duas perspetivas, as duas histórias, permitem observar que nem uma tradição nem a outra são necessariamente exemplos ilustrativos da vida real e da forma como os seres se comportam. Somos sempre uma mistura das duas coisas, não é? Um equilibro entre razão e emoção. Na maior parte dos casos, pelo menos.

No geral eu gostei bastante do conto. Mais pelo que simboliza do que propriamente pela história, confesso. Agradou-me sobretudo este diálogo que vos referi com outras tradições, o questionamento e o colocar em causa de determinadas questões e géneros literários e estéticos. Claro que a história também acaba por cativar porque tem claramente uma vertente cómica, mas realmente aquilo de que mais gostei foi do seu significado.

Não faço ideia se existe uma tradução deste conto para português. Suponho que sim porque existem algumas coleções de Gogol traduzidas, penso, mas realmente não tenho a certeza. Em inglês deve, com toda a certeza, existir. A minha versão em francês foi mesmo muito acessível e contém além deste conto, “Le Manteau" , do qual também gostei, embora, confesso, não tanto. Se tiverem oportunidade não deixem de ler La Prespective Nevski. É agradável, simbólico e relativamente pequeno.

 

3,5/5

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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