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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

03
Dez18

“Memória das Minhas P*tas Tristes”, Gabriel García Márquez – o antídoto para a mortalidade

Sofia

“Sempre pensei que morrer de amor era apenas uma licença poética”

Memoria-de-Mis-Putas-Tristes.jpg

O primeiro livro que li de Gabriel García Márquez foi Cem Anos de Solidão. A esse seguiu-se O Amor em Tempos de Cólera. Há uns tempos lembrei-me do nada de que devia voltar a ler algo deste autor. Por nenhuma razão em particular. Simplesmente veio-me o pensamento à cabeça. Gosto de pensar que quando isto me acontece, é um sinal. Fui pesquisar qual o livro do autor com uma história que mais me apelasse e escolhi este.

Memória das Minhas P*tas Tristes conta história de um cronista (sem nome e que narra a ação) que, na véspera de fazer noventa anos tem de repente o desejo de passar uma noite com uma adolescente virgem. A sua conhecida Rosa Cabarcas apresenta-lhe como solução uma pequena de 14 anos. Quando o narrador chega ao sítio do encontro a menina está a dormir. Rosa Cabarcas tinha-lhe dado um chá de valeriana por a menina estar tão nervosa e assustada com a situação. O que acontece é o seguinte: o narrador apaixona-se por uma menina a dormir. A partir daí, ele passa a encontrar-se com ela com frequência mas sempre enquanto ela está adormecida. A sua vida - a vida de um nonagenário que nunca havia amado ninguém -, passa a girar à volta desta criança adormecida e da projeção e ideia que ele faz dela. É lindíssimo.

A ideia do livro é, na minha opinião, genial. Quantas vezes não nos apaixonámos por uma ideia que fazemos de uma pessoa em vez de pela pessoa em si? É esta a base do amor ou não é? Amamos a ideia que fazemos de uma pessoa. Projetamos a nossa identidade, desejos e características nela. É só quando percebemos que nada disso é real, porque aquela é uma pessoa de verdade e não uma ilusão, que nos desapaixonamos e desiludidos e choramos. Aqui é isso que acontece. Este narrador nem o nome da menina queria saber. Na verdade, ele começou a chamá-la por um nome por si escolhido. Nada que pudesse quebrar a ideia que ele tinha dela. A certo ponto, quando pensa que ela tem outros amantes, ele literalmente definha. O que remete para aquela ideia poética maravilhosa de que alguém pode morrer de amor. Isso não acontece em imensos dos nossos romances preferidos?

A ideia de estar “louco de amor” e a ideia de que se pode “morrer de amor”, ideias nas quais eu, uma menina romântica, acredito, são super exploradas nesta obra. Porém, não são o principal. Eu sinceramente duvido que saiba qual é a ideia mais importante aqui, mas a inevitável mortalidade, o crepúsculo da existência, a ampulheta da vida, o que lhe queiram chamar, parece-me ser a principal. Ele não está “louco de amor”, ele está “louco” para viver, e ele não vai “morrer de amor”, ele vai morrer de excesso de vida. O amor, de repente, é só um pretexto para ele se sentir vivo outra vez. Pelo menos foi assim que eu entendi.

Porque é que isto lhe acontece no fim da vida é para mim o mais interessante. Acho que ele não esperava viver tanto. É a minha teoria. E acho que, quanto mais vivemos, mais queremos viver e mais pensámos sobre como não vivemos. Daí que tenhamos mais a necessidade de nos sentir vivos. Ninguém pensa nisso quando se é jovem. Não faz sentido. Até porque nunca temos consciência de ser novos e de irmos ficar velhos um dia.

Vocês não têm noção de como me identifiquei com a história de amor! A mim, esta obra tocou-me profundamente justamente porque eu já passei pela experiência de amar alguém a uma distância segura mas não “de verdade”. Mas não foi só por isso. É que a obra fez-me pensar que eu posso chegar a muito velha sem nunca ter vivido. E isso assusta-me de morte. Aliás, assusta-me tanto, que não vou pensar nisso agora.

A certo ponto está escrito que o poder invisível que move o mundo não é o amor feliz mas o amor não correspondido. Concordo. Não só porque os meus romances preferidos nunca têm um final feliz, mas porque ninguém lê livros, sonetos, vê filmes, ou ouve músicas sobre amor correspondido, conversas pacíficas, ou objetivos de vida iguais. Ninguém quer saber disso. Não nos faz crescer e não nos faz viver. Então eu acho que gostei deste livro sobretudo porque demonstra essa ideia claramente: aquelas duas pessoas não vão ficar juntas e não vão apaixonar-se intrinsecamente, mas vão viver. Vão estar vivos. E quando morrerem, vão de consciência tranquila e com um sorriso nos lábios.

Não preciso mesmo de elaborar muito mais, pois não? Recomendo muito a leitura de “Memória das Minhas P*utas Tristes” de Gabriel García Márquez.

Idioma de Leitura: Espanhol

4/5

 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, viagens, tragédias, chuva e chocolate.

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