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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

10
Fev20

“Memórias do Subterrâneo”, Fiódor Dostoievski

Sofia

Chegamos a tal ponto que consideramos a verdadeira “vida viva” como um trabalho, quase como um serviço, e estamos todos intimamente de acordo que nos livros é melhor.

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Eu sei, há muito pouco tempo escrevi-vos sobre Crime e Castigo. Mas sabem que até recentemente não sabia que existia uma tradução em português de Memórias do Subterrâneo e sempre pensei que ia acabar por ler uma versão em inglês. Por esse motivo, fui adiando porque surgiam sempre outras obras em inglês a que dava preferência. Assim que descobri, muito casualmente, que tínhamos esta tradução, fiquei tão entusiasmada que a comprei logo.

 

Memórias do Subterrâneo (1864) divide-se em duas partes e é uma espécie de memórias de um narrador que não tem nome, pelo que vou chamá-lo aqui simplesmente de “narrador”. A primeira parte é um conjunto de pensamentos diversos; a segunda parte pode ser vista mais como uma história e encontra três personagens novos. Lemos sobre um oficial pelo qual o narrador está "fixado" desde um evento em que foi por ele tratado de forma menos cordial, sobre os colegas de escola do narrador com quem ele vai jantar fora e sobre Liza, uma prostituta com quem ele se envolve.

Como sabem, qualquer obra deste autor está incrivelmente relacionada com questões filosóficas e, para a “compreendermos” - se é que isto alguma vez é possível na totalidade em relação a uma obra de arte -, devemos ter consciência disso. Neste âmbito, Memórias do Subterrâneo é entendida como uma obra do Existencialismo.

Não sei se sabem, mas existe uma obra de um escritor russo, Nikolai Chernyshevsky, intitulada na versão inglês que conheço What is to be done. Descobri que esta obra de Dostoievski foi escrita em resposta a essa de Chernyshevsky. Essa obra, por sua vez, foi escrita com o intuito de refutar e ironizar a obra de Turgenev, Pais e Filhos. A esta obra de Chernyshevsky, para além de Dostoievski, respondeu também um dos meus escritores preferidos, Vladimir Nabokov, num dos capítulos da sua obra The Gift. E porque é que estou a dizer isto tudo? Como sabem, Pais e Filhos é uma obra que encaixa numa corrente filosófica importantíssima e muito popular então, o Niilismo. Como resposta, Chernyshevsky criou uma obra cujo caracter utópico, sobretudo no referente aos pilares que devem sustentar uma sociedade, é por Dostoievski refutado e invalidado essencialmente, na minha opinião, na primeira parte. Parece-me também que é nesta parte que a crítica usual ao determinismo mais se nota.

Agora, num nível mais informal, conto-vos que aquilo que mais gostei foi como a obra é protagonizada por um narrador em tudo semelhante ao homem contemporâneo, com exceção de um aspeto. O narrador assume a sua natureza e os seus problemas. Como quando ele fala sobre ser um homem mau, a forma como aborda o seu desejo de vingança e o seu prazer em relação ao seu próprio sofrimento questionando-se: afinal, sem o nosso sofrimento, somos o quê exatamente? Se até o nosso sofrimento pode ser controlado pela sociedade e pelos seus meios, poderemos mesmo ser livres?

Além disso, destaco também o sentimento de ennui que o narrador claramente sente e que, não só me parece a causa dos seus pensamentos, como senti que passa muito para nós leitores.

Em relação à segunda parte menciono o oficial de quem, após uma abordagem menos polida, o narrador se tenta vingar, apenas para descobrir que o oficial não se importa nada com ele, não tem nada contra ele, e que o que acontecera antes havia sido apenas um momento da vida. Isolado de qualquer significado. Quantas vezes isto não acontece? Pensamos que alguém tem algo contra nós e o nosso instinto é logo magoar, mas no fundo, tal pessoa não se importa connosco e nós não fomos mais do que um segundo na vida dela, às vezes nem chegámos a inspirar um pensamento. E o que dizer do episódio do jantar com os colegas? Todas aquelas pessoas das quais o narrador nunca gostara e que agora vê como símbolo de toda uma sociedade que não suporta.

Não seria eu se não falasse numa componente romântica que, digo-vos já, sou capaz de ter inventado. Refiro-me à prostituta Liza. Dois aspetos da relação deles me parecem interessantes. A forma como o narrador tenta aparecer como um herói perante ela, a forma como pontifica e prevê o futuro terrível dela derivante da sua condição (fazendo com ela aquilo que ele mesmo abomina que a sociedade faça!) e o modo em como, simultaneamente, tem medo que ela conheça o mundo dele e tem vergonha do modo como vive, da sua casa, do seu criado, etc. Não vos parece isto um retrato distorcido do amor? Gostamos muito de uma pessoa e desejamos elevar-nos e acabamos a rebaixar o outro e temos vergonha de nós mesmos porque queremos que aquela pessoa nos veja como nós gostaríamos de ser. Voltando a Dostoievski, no fim de humilhar uma segunda vez Liza, o narrador pede-lhe desculpa em lágrimas e confessa-lhe precisamente que só a queria humilhar e ter poder sobre ela. E nós? Podemos gostar muito de uma pessoa, mas nunca vamos gostar mais dela do que de poder? Daí que o amor seja uma coisa extraordinária e tão desejada. Permite-nos exercer poder sobre alguém de forma aceitável e desculpável. De volta a Memórias, após ainda humilhar Liza depois do pedido de desculpas, ela deixa o narrador só e ele refere que para atenuar o sofrimento, nada melhor do que fantasiar. A obra acaba pouco depois, referindo o narrador que haveria muito mais contar, mas que era melhor ficar por ali e, se isso não é um retrato perfeito da vida, não sei o que será.

Sei que já me alonguei em demasia, mas não posso ainda deixar de vos falar da quantidade inúmera de produções que esta obra inspirou. Aparentemente, entre personagens que a obra inspirou encontram-se Nikolai Levin de Anna Karenina , Mersault de O Estrangeiro de Camus, ou Gregor Samsa de Metamorfose de Kafka. Além disso também descobri que Scorcese se inspirou aqui para um dos meus filmes preferidos, Taxi Driver. Apenas vos falei de obras que conheço e das quais não sabia da influência desta obra, mas sei que o resto da lista deve ser enorme.

Como podem ver, gostei imenso da obra. No entanto, sinto que a minha leitura foi bastante influenciada pela minha experiência prévia com obras do autor. Sei que não deveria estar à espera de algo como os Karamázov ou Crime e Castigo, mas sei que foi exatamente isso que aconteceu. Sinto que a minha experiência de leitura foi influenciada pelas minhas expectativas de leitora. O que acontece a todos e quase sempre, afinal, o ser humana não é, por natureza, a mais imparcial e serena das criaturas. Tenho consciência de que não li da melhor forma. Voltarei a este livro no futuro. E vocês? Já leram? Querem ler? Está traduzido e é muito pequeno, então porque não?

 

4/5

 

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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