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A Outra Menina Bennet

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27
Jan21

“Middlemarch”, George Eliot

Sofia

E, certamente, os erros que nós, homens e mulheres mortais, cometemos quando fazemos aquilo que queremos, podem suscitar dúvidas válidas sobre o porquê de gostarmos tanto de o fazer.

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Middlemarch é uma obra escrita pela autora inglesa Mary Anne Evans sob o pseudónimo George Eliot. Middlemarch foi publicada em oito volumes entre 1871 e 1872, uma novidade face ao estilo de publicação da época que levou autores como Charles Dickens, por exemplo, a publicar as suas obras em jornais, capítulo a capítulo. Esta obra com quase 700 páginas (na minha edição) não era inicialmente uma história única, mas sim duas histórias distintas que Evans decidiu juntar numa só obra que hoje conhecemos como Middlemarch.

 

Middlemarch tem como subtítulo “um estudo da vida na província” e penso que nada a descreve melhor. Foca a sua narrativa nos habitantes da cidade fictícia Middlemarch durante o período que antecedeu a Reforma de 1832. Usualmente consideram-se duas narrativas principais por correlação com as duas histórias que a autora escrevera antes de as unir em Middlemarch. Uma dessas narrativas segue a jovem e orfã Dorothea que, muito nova, decide casar com Mr Casaubon, com mais do dobro da sua idade. O seu afeto por ele, cedo percebemos, deriva da sua admiração por ele e pelos conhecimentos dele e origina um casamento, claro, infeliz. A outra narrativa foca o médico Lydgate e o seu idealismo e ingenuidade face à sua profissão, enfatizando os seus métodos inovadores, mas mal-compreendidos e, conta-nos também o seu infeliz casamento com Rosamond Vincy. Eu destacaria ainda uma terceira narrativa que foca o romance aparentemente condenado entre Fred Vincy e Mary Garth. Conhecemos Fred Vincy como filho pródigo que abandonara os estudos superiores e rapidamente o vemos enredado numa espiral de comportamentos duvidosos e dívidas. Acompanhamos o seu romance com Mary, assente numa paixão de crianças, desde o início em que Mary não era considerada suficientemente adequada para alguém como Fred até ao momento em que ocorre exatamente o oposto.

Não esperava, quando comecei a ler esta obra, que tanto da sua crítica e observação fosse depender do modo como a questão do casamento e dos afetos seria desenvolvida. Por exemplo, no caso de Dorothea, através da exposição do seu erro ao confundir admiração por amor e do seu ganho de consciência face a esse erro, observamos o seu crescimento pessoal. Já no caso de Lygate, podemos perceber como o idealismo e ingenuidade com que encarava sonhadoramente a sua profissão, não era exclusivo dessa vertente e se transpôs para uma idealização de Rosamond que provou ser a origem de um casamento e de uma vida muito infelizes. Fred e Mary, por fim, parecem um caso mais positivo e penso que sublinham, por contraste, como os sentimentos corretos podem conduzir a ações nobres e a alterações de comportamentos que se provam tão essenciais. É também muito curioso ver como a própria crítica social também deriva muitas vezes do modo como os outros personagens consideram a questão matrimonial e quais as suas opiniões face a esta ou àquela união.

Enfatizo ainda nesse âmbito a personagem Mr Causabon que me parece um dos retratos-tipo mais bem conseguidos da obra. É um homem de meia idade obcecado com os seus estudos e, sobretudo, em se vangloriar deles. Interessantemente, ele mesmo tem consciência das suas falhas e nunca se decide a publicar nada. Como se percebe desde início, Mr Causabon não nutre qualquer sentimento por Dorothea, mas a certo ponto lembra-se de que talvez fosse bom casar e ela, além de reunir as condições que ele considerava aceitáveis, era a candidata ideal por ser notória a sua admiração por ele (ou por aquilo que considerava serem os conhecimentos dele).

Destacaria ainda o casal Cadwallader que, sobretudo através de Mrs Cadwallader, serve para comentar tudo o que for que esteja a acontecer na cidade e que me parece um retrato extraordinário do típico conceito de vizinhança (e muito atual). E também Bulstrode, um banqueiro com fortes convicções que tenta impor a todos os outros, mas que tem um passado muito conturbado e que define as suas ações e o seu futuro.

Penso que o que mais fica desta obra é, como calculam, a crítica social. O que aliás não é algo completamente inovador em relação a outras obras da época. Enquanto lia esta obra recordava muitas vezes as obras de Dickens, Austen ou Thackeray, por exemplo. No entanto, não posso deixar de notar que o estilo de Middlemarch parece mais “pesado”, mais histórico, mais “sério” (à falta de melhores palavras).

Viriginia Woolf escreveu sobre esta obra que ela era um dos (poucos) romances ingleses escrito “para adultos”. Tendo a concordar com ela por aquilo que acabei de escrever. Embora a forma, de facto, seja muito romance inglês, com a crítica de costumes, a ênfase no crescimento pessoal e dois ou três romances pelo meio, o estilo, o tom, é definitivamente diferente e penso que é isso que mais distingue esta obra de outras. Creio, portanto, que esse é dos pontos fortes de Middlemarch e um dos incentivos mais evidentes à sua leitura.

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Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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