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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

03
Set18

“Mil Vezes Adeus”, John Green – Fui para o Prado

Sofia

“Qualquer pessoa pode olhar para ti. É bastante raro encontrar alguém que veja o mesmo mundo que tu.”

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Se costumam ler o blog sabem que já li todos os livros de John Green. Adoro-o. Na minha opinião, ele é sem dúvida o melhor escritor de Young Adult Novel – Romance Jovem Adulto – da atualidade, e um dos melhores de sempre. Os livros dele estão entre os meus preferidos do género. Como ele já não lançava livros há uns anos, foi com grande ansiedade e entusiasmo que o ano passado soube do lançamento deste seu novo livro. Como todos os livros que tenho dele são traduções, esperei que fosse traduzido, e depois esperei ainda mais porque outros livros se “meteram no caminho”. Mas a espera acabou e li finalmente Mil Vezes Adeus!

 

Neste seu novo livro, John Green dá-nos a conhecer Aza, uma adolescente com um transtorno obsessivo compulsivo que luta diariamente contra si mesma e contra os seus pensamentos "invasivos". A sua vida leva uma volta quando se reencontra com Davis, que havia conhecido quando mais nova num acampamento para jovens sem um ou sem os dois pais. Porque é que ela se reencontra com ele? O bilionário pai de Davis está desaparecido e há uma recompensa de 100 mil dólares para quem tiver informações sobre o seu paradeiro. Incentivada pela sua melhor amiga Daisy, por sua vez incentivada pela recompensa e pelo facto de Aza “conhecer” Davis, Aza embarca numa investigação ao desaparecimento do bilionário, e é assim que se reconecta com Davis.

Sabem que sou uma romântica incurável, e por isso provavelmente estão a pensar que a minha parte preferida foi a parte romântica. Por incrível que pareça estão enganados. Quando se trata de livros de John Green estou sempre mais presa nas histórias próprias dos personagens, nos seus dilemas, nas suas almas, que relego o romance para segundo (ou terceiro) plano. Juro. É o quão bom ele é. Com este livro não foi nada diferente. Para mim, a melhor coisa de toda a obra, foi a luta de Aza com ela mesma, com o seu transtorno, com o seu cérebro, e os seus pensamentos. É tão poderoso. Como alguém que também já enfrentou (e ainda enfrenta) problemas de cariz mental, não consigo deixar de voz dizer que é muito parecido com o que está ali escrito. Sabem aquele momento quando estão a ler um livro e têm aquela sensação assustadora “este autor leu o meu pensamento e possivelmente o meu diário”? Senti isto com este livro, tal como já o senti com outros livros de Green. Sinceramente nunca pensei que alguém pudesse escrever como e o que significa lutarmos todos os dias connosco mesmos, com o nosso “eu” mais obscuro, com a parte da nossa alma que não mostramos a ninguém, às vezes nem a nós mesmos, mas acho que Green em Mil Vezes Adeus esteve muito perto de o fazer perfeitamente. Provavelmente isso deve-se ao facto de ele próprio ter sofrido de um transtorno obsessivo compulsivo e de ansiedade. Por isso, sabe do que está a falar. Ao contrário de outros autores, que por razões mercenárias continuam a tentar romantizar os problemas mentais. Algo que eu acho muito feio e ofensivo.

Mas também há outras coisas! A paixão de Davis pelo universo, a dinâmica da relação de Aza e Daisy, o impacto totalmente diferente de um pai ausente e despreocupado na vida dos dois filhos, o drama de viver sem um dos pais, e até, pasmem-se, uma Tuatara (uma espécie de lagarto) rica.

Também gostei imenso da maneira como o autor acabou o livro. Ele nunca está preocupado em dar o final feliz que toda a gente gosta (inclusive eu). Ele só quer contar uma história verdadeira, e isso significa que provavelmente não há final feliz. Porque não é assim que funciona. Aposto que havia leitores a esperar ler na última página sobre como Aza superou e venceu a sua doença e viveu feliz para sempre. Lamento mas não é assim. As doenças de foro mental não são como as outras. Não ficas simplesmente curado. Estão sempre lá. Porque são parte de nós. E nós não conseguimos fugir de nós mesmos ou vencer-nos. Se já é difícil lutar contra outra pessoa, imaginem lutar contra nós mesmos.

Uma das críticas que eu mais ouço relativamente a John Green e aos seus livros, é o facto de ele fazer os seus adolescentes parecerem “inteligentes”. O que é que isto sequer significa? Os adolescentes não podem ser inteligentes, é isso? Pois eu acho que os adolescentes são muitas vezes as pessoas mais inteligentes. Estão a florir e a tornar-se naquilo que serão, e o facto de serem tão problemáticos revela exatamente que são inteligentes. Se não o fossem, deixavam-se simplesmente ir, tornar-se-iam naquilo que é esperado deles e pronto. Acabou. Não davam problemas. É verdade que os adolescentes que Green cria são muito inteligentes, mas não vejo como isso possa ser considerada uma coisa má.

Não posso deixar de dizer que este livro não se tornou o meu preferido do autor. Porém, entrou diretamente para o top três. E, relativamente ao último que ele publicou, até gostei mais deste, por isso, ele superou-se.

Se isso não é o suficiente para vos convencer a ler este livro, digo-vos mais. No livro há uma citação de Tom Waits que diz “Há uma expressão na música clássica. É assim: “Fomos para o prado.” É para aquelas noites que só podem ser descritas dessa maneira: não havia paredes, não havia estantes para as pautas, não havia sequer instrumentos. Não havia teto, não havia chão, fomos todos para o prado.” Escrevi-vos aqui esta citação porque não tenho outra forma de vos dizer como me senti a ler este livro. Senti que, quando estava a ler Mil Vezes Adeus de John Green, fui para o prado. Fiquei lá imenso tempo, e mesmo agora que já o acabei de ler, ainda estou no prado. E agora que vos estou a escrever sobre ele, estou no prado. E cada vez que me lembrar deste livro, sei que vou para o prado. Não é incrível vocês lerem um livro e irem para o prado? Então de que estão à espera? Vamos todos para o prado!

 

Idioma de leitura: Português

 

4/5

 

Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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