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A Outra Menina Bennet

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01
Jun20

“Na Minha Morte”, William Faulkner

Sofia

Conseguia lembrar-me de como o meu pai me costumava dizer que a razão para viver era preparamo-nos para permanecermos mortos durante muito tempo.

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Há um tempo atrás tinha pensado em ler O Som e a Fúria. Não comprei logo porque achei que, como é tão popular, encontraria em qualquer lado. Confesso que, entretanto, me esqueci completamente e, apenas no outro dia, por acaso, me deparei na livraria com este outro livro de Faulkner e me lembrei de que já queria ter lido algo deste autor. A verdade é que me coloquei ali a ler excertos de As I Lay Dying e lembrei-me de já ter ouvido falar muito e bem deste livro e, como aquilo que estava a ler me parecia tão diferente e a premissa da obra tão interessante, decidi “bem, vou começar por ler este”.

 

Na Minha Morte (1930) depende da morte de Addie Bundren e encontra a sua família a transportá-la ao longo do condado para honrar o seu desejo de ser enterrada no local da sua escolha. São vários capítulos narrados por diferentes personagens e caracterizam-se pela narrativa com recurso à técnica fluxo de consciência, stream of consciousness.

A leitura foi claramente dificultada, pelo menos no meu caso, pela técnica narrativa. Stream of consciousness é uma técnica que quem, como eu, aprecia a obra de, por exemplo, James Joyce ou Virginia Woolf, não desconhece totalmente. Creio que, não obstante todas as qualidades positivas e a originalidade da técnica, é de mencionar que por vezes, o seu próprio cariz faz com que a leitura seja mais complexa. Na verdade, foi também provavelmente de não estar habituada ao autor que foi mais difícil de ler esta obra do que outras.

Além disso, devido a esta técnica narrativa, cada capítulo é narrado de modo diferente consoante a personagem que foca e, deste modo, questões como o vocabulário, a construção, o ritmo e mesmo os dialetos, estão em permanente mudança.

Gostava também de destacar dois capítulos de que gostei particularmente. Aquele narrado por Addie Bundren foi o meu preferido. No meio de tantos capítulos que só existem por ela e devido à morte dela, foi muito interessante ler algo sob a sua perspetiva. Este capítulo foca-se em questões da vida de Addie como o casamento e a maternidade e é lindíssimo por ser tão cruo e autêntico. Além disso, há um capítulo narrado pela filha de Addie, Dewey Dell, do qual gostei especialmente e que foca as relações pessoais, a polémica questão do aborto e a ingenuidade do interior americano.

Para além destas questões destaco a ruralidade americana em evidência ao longo de toda a obra. Como vos contei, a família está em viagem pela América. Ao longo desta viagem vamos vendo o modo como cada sítio e cada pessoa reage à presença desta família e à sua demanda. Além disso, destaco ainda o papel e a importância da religião nesta sociedade. Gostei muito dos capítulos que abordaram esse aspeto, sobretudo aqueles que focavam a personagem Cora, uma vizinha de Addie, e que têm todo um tom de condenação, um peso religioso e transparecem uma certa ingenuidade.

No geral, a minha opinião em relação a este livro é ligeiramente contraditória. Gostei da obra, mas não gostei assim tanto de a ler. No fim, quando penso sobre aquilo que li e sobre o modo como tal foi conseguido, gosto imenso e fico feliz de ter lido este livro. Mas durante o processo, penso que não aproveitei tanto assim. É uma obra muito mais complexa do que o que parece inicialmente e, apesar de ser pequena, demorei mais a lê-la do que o que demorei a ler obras de maior extensão. Parava muitas vezes e ia voltando atrás para começar determinadas passagens de início. O facto de, como vos disse, o discurso ir mudando consoante o personagem e, consequentemente, o dialeto mudar igualmente, contribuiu para isso. Houve capítulos que li e compreendi com maior facilidade devido a estas diferenças. Mas, no geral, aquilo que concluo é que, apesar da dificuldade e apesar de não ter gostado tanto assim de ler a obra, gostei imenso dela no seu todo e, como tal e pelo aquilo que representa, tanto em termos de conteúdo como de técnica, recomendo.

Quais são as vossas opiniões? Já leram esta obra ou outra do autor? E sobre a técnica narrativa, têm uma opinião formada? Gostam de obras deste género?

2 comentários

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    Sofia 04.06.2020

    Eu confesso que tirando Woolf e Joyce faço o mesmo! Sinto realmente que tenho de fazer um esforço de concentração muito superior e isso também me afasta um bocadinho do género. Ainda assim lá está, quando acontece ler acabo por gostar. Aqui é exatamente como dizes, se não falassem tão bem, não sei bem se tinha arriscado. Beijinhos e boas leituras!
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    Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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