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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

07
Jan19

“O Sol Nasce Sempre (Fiesta)”, Ernest Hemingway – pólvora para uma geração perdida

Sofia

“Nunca te assalta a impressão de que a tua vida foge e de que tu não a estás a gozar? Não pensas que viveste já quase metade do tempo que tens para viver?”

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A primeira review de 2019! Primeiro tenho de confessar que acabei de ler este livro em 2018. Foi o último livro que li na totalidade em 2018. E que bela maneira de acabar o ano. Hemingway é um dos meus escritores americanos preferidos e uma das personalidades mais queridas de sempre para mim. Na primeira metade de 2018 tinha lido O Adeus às Armas (e fiz a review aqui no blog) e ainda não me esqueci desse livro. Então, em dezembro, assim do nada lembrei-me dessa obra e depois lembrei-me das outras obras que tinha lido do autor e decidi que tinha de ler mais alguma coisa dele. Às vezes é assim que eu decido o que quero ler! Então mas e porquê O Sol nasce sempre (Fiesta)? Bem, é que este livro é tido como ilustrativo de toda uma geração e é hoje tido como um livro de culto. Como é ligeiramente autobiográfico (como aliás muitos dos livros de Hemingway), tive curiosidade. E já era mais do que altura de o ler. Na verdade, receio já ter chegado atrasada a esta leitura. Mas, mais vale tarde do que nunca.

 

O Sol Nasce Sempre (Fiesta) tem para mim três narrativas distintas que se entrelaçam em si. Há a história do protagonista e dos seus amigos, dos quais destaco a Lady Brett Ashley – o protótipo da “mulher fatal” suponho, da musa. Depois há a narrativa das touradas espanholas, e aqui acho que a chave está em como cada um dos personagens responde a essa experiência. E por fim, a consciência e o retrato de uma geração, efetivamente, perdida em todos os sentidos: perdida em si, perdida entre si, perdida no mundo.

A obra tem lugar em Paris e Espanha. Países populares na altura. Refúgios para diversos artistas. A certo ponto uma das personagens diz: “Ir para outro país não faz diferença nenhuma. Tudo isso eu tentei. Não te livras de ti próprio pelo facto de mudares de um sítio para o outro. Isso não tem remédio”. Provavelmente era isto que eles faziam sempre. Errantes, de um lado para o outro, a fugir e fugir e fugir. Sem chegar de verdade a lado algum. Nunca nos livramos de nós mesmo, não é?

O Sol Nasce Sempre (Fiesta) é, como vos disse, um livro que pode ser entendido como ilustrativo de toda uma geração. A geração que viveu entre as duas grandes guerras. Nesta altura muitos escritores encontraram um refúgio na Europa. F. Scott Fitzgerald, Joyce, o próprio Hemingway, além de outros artistas como Picasso ou Matisse, são apenas alguns exemplos. Toda uma geração à qual Gertrude Stein tão poeticamente apelidou de “geração perdida”.

Quando estava a ler o livro não conseguia deixar de pensar em como deveria ter sido a vida deles. A liberdade, a boémia, a sensação de infinidade, mas também a trágica consciência da vida e da sua finitude. Não consegui parar de pensar nas conversas que todos estes artistas que mudaram o mundo e moldaram gerações deveriam ter tido pelos cafés de Paris ou pelos bares de Espanha. Não consegui parar de pensar na liberdade e na tristeza. Porque foi isso que o livro me transmitiu. Mais do que a história em si, foi o sentimento que ela despoletou que me marcou.

Às vezes gosto de fazer um jogo. Não só com livros, mas com tudo. Gosto de jogar ao “o que é que eu associo com isto?”. Com O Sol Nasce Sempre (Fiesta) associo Whiskey, a música que os pássaros cantam nas manhãs de verão e cheiro de pólvora queimada. Na verdade, agora que penso nisso, isso é o que associo com Hemingway. Mas bem bem bem… vai dar ao mesmo, não vai?

Enfim. Isto está a ficar longo.

Há uma passagem, as últimas palavras da obra aliás, que me trouxeram lágrimas aos olhos. São tão simples mas tão tristes. Representam todo um desencanto, uma desilusão, uma tragicidade incrivelmente comovente. Identifiquei-me com elas. Não consigo pensar em como seria na cabeça do autor. É sempre pior para os artistas. Consigo, no entanto, entender o porquê de ele achar que a vida não valia a pena. O peso de tudo aquilo que podia ser e nunca será é terrível e aniquilador. Aqui têm:

- Oh, podíamos ter passado juntos uma vida bestialmente boa!

- Sim. Pois não é bonito pensar nisso?

Não posso mesmo deixar de vos dizer para lerem O Sol Nasce Sempre (Fiesta) de Hemingway. É genial. É diferente de outras obras do autor, mas é muito bom. Recomendo (muito muito muito) a leitura.

Idioma de Leitura: Português

4/5

 

Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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