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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

11
Nov19

“One Flew Over The Cuckoo’s Nest”, Ken Kesey – os nossos sistemas não entendem a saúde mental

Sofia

Este mundo, meu amigo, pertence aos fortes. O ritual da nossa existência baseia-se nos mais fortes a devorarem os mais fracos. Temos de enfrentar isto. E também é certo que assim seja. Temos de aprender a aceitar isto como uma lei do mundo natural. Os coelhos aceitam o seu papel no ritual e reconhecem o lobo como o forte. Em defesa, o coelho torna-se esquivo, assutado e elusivo e cava buracos para se esconder quando o lobo está por perto. E aguenta-se e continua a viver. Ele sabe o seu lugar. Certamente, não desafia o lobo para um combate. Isso seria esperto? Seria?”

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Mais uma obra para a minha lista dos livros que devia ter lido há muito e, por alguma razão, não li. Neste caso encontro uma razão mais forte para só ter lido agora. Não faz muito o meu género de livro, de escrita, ou de história. Confesso desde já que apenas o li pelo seu estatuto e pela sua popularidade e não, não tenho vergonha de admitir isso. Portanto, também aviso que a minha opinião do mérito da obra pode não ser totalmente imparcial.

 

One Flew Over The Cuckoo’s Nest (1962) narra a vida num hospital psiquiátrico. A obra é narrada por um paciente, Bromden, a partir do momento em que McMurphy, um novo paciente se junta ao grupo. Se Bromden passa por surdo e mudo, McMurphy está ali como uma forma de evitar ir para um campo de trabalhos forçado cumprir a sentença a que foi condenado. A ala em que ambos se encontram é subvisionada pela enfermeira Ratched que, é apresentada desde inicio como a voz de comando e autoridade. A história foca-se nas mudanças que se vão operando desde que McMurphy chega e coloca em causa a autoridade da enfermeira levando os outros pacientes a ter vislumbres de uma vida mais livre e real, e ilustra a forma como as doenças mentais eram vistas e utilizadas pelo sistema americano de então.

Descobri que o relato do livro não é totalmente ficcional. O autor teve alguma experiência com pessoas nas mesmas condições que as descritas e, sinceramente, isso explica a abordagem descontraída mas muito concisa e implacável da obra. É uma mais valia e nota-se desde início esta proximidade, sobretudo da parte de quem também já teve contacto com tal realidade. Sinceramente estava com receio dessa parte quando comecei a ler a obra. Mas posso dizer-vos que, nesse aspeto, não há nenhuma pretenciosidade. Nota-se que o autor não foi só mais um que quis escrever sobre o tema sem qualquer experiência e sem sequer se dar ao trabalho de confrontar e analisar a realidade.

Está claro que tal também resulta numa abordagem e numa imagem produzida que pode ser considerada fria e cruel. Mas não vejo problema nenhum nisso. É a forma como as coisas são. É uma obra chocante? É. Mas não há como evitar. As coisas são como são. Com franqueza, não me chocou tanto quanto me impressionou. Realmente, ganhávamos todos muito se eliminássemos os filtros que utilizamos para viver bem nesta sociedade e através dos quais a vemos.

O que me leva ao ponto principal e mais interessante da obra (a meu ver). A crítica ao sistema. Não houve nada que fosse mais enfatizado (novamente, a meu ver) do que a supressão da individualidade. Também eu me junto agora ao grupo do leitores que veem o hospital psiquiátrico de Kesey como uma metáfora para o sistema. Somos ali postos sem pedirmos, vestimo-nos como nos mandam, comemos e dormimos quando nos mandam, fazemos o que nos mandam e se somos diferentes, tomamos a medicação que nos mandam, cuja dose varia em função do quão diferente somos. E ficámos ali até muito depois de sermos diferentes. Ficamos ali, até deixarmos de querermos sair, até nos esquecermos de que existe mais.

O final da obra foi a minha parte preferida. Porque não o esperava. Agora que escrevo isto, tomo consciência de que, durante os dias que levei a ler este livro nem por uma vez tive curiosidade de saber como ele acabava; nunca sequer pensei nisso. Agora entendo que foi porque eu não lhe conseguiria dar um fim e talvez seja por isso que, de certo modo, não sabia o que esperar. Daí ter ficado surpreendida e agradada com o final. Só por ele, valeu a pena.

Mas enfim. Sei que não existe uma tradução de One Flew Over The Cuckoo’s Nest para o português, o que, honestamente, me espanta. Mas não vou por aí. Também sei que há um filme. Eu não vi e confesso que, se não o vir nos próximos dias ou se não for incentivada a vê-lo, não o farei. Alguém já viu? 

Concluindo, não vou ser hipócrita e dizer que gostei muito deste livro só porque ele está estabelecido como um ótimo livro. Gostei, mas estou muito longe de o adorar. Para mim, é um livro normal. Superior em termos de assunto e, apesar de ter sido publicado no século anterior, se tivermos em consideração o estado atual da escrita e do mercado editorial e livreiro, este é um livro extraordinário e muito mais próximo de nós em termos de escrita e vocabulário. Nesse âmbito, e também devido ao assunto abordado e à crítica que encerra, recomendo-o.

 

Idioma de Leitura: Inglês

 

3,5/5

 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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