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A Outra Menina Bennet

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28
Mai18

“Orlando”, Virgina Woolf – Várias personagens numa única personagem? Para Virginia Woolf não há impossíveis

Sofia

“Estou saturada deste meu eu. Quero outro.”

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Antes demais devo fazer um desabafo sentido: vocês não têm noção da dificuldade de escolher uma só frase do livro para meter aqui em cima. Literalmente todo o livro está repleto de frases para colocar a ilustrar posts sentidos. Adiante. Aqueles que seguem este blog sabem o quão fã eu sou de Virginia Woolf. Este é o quarto livro que leio dela, seguindo-se a Mrs Dalloway, O Quarto de Jacob e Rumo ao Farol (estes dois últimos contam com review aqui no blog). Orlando foi mais um passo rumo ao meu objetivo de ler todos os livros da autora. Devo dizer-vos que foi de longe o meu preferido dos quatro, tendo destronado Mrs Dalloway no meu top “Virginia Woolf”, o que não esperava que acontecesse. Continuem a ler para saber porquê.

 

Orlando conta com o subtítulo “uma biografia”. E como tal ficamos logo a saber sobre o que escreve Woolf. A obra é a biografia do personagem Orlando que vive por mais de 400 anos. Primeiro Orlando é homem, mas depois torna-se mulher. Como referi no título deste post, para Virginia Woolf não há impossíveis. O que acontece é que ao longo da obra vamos conhecendo este personagem e a sua história, a sua vida, e os seus muitos relacionamentos com homens e mulheres. O que fez de notável, quem conheceu, como viveu. Porém, tudo se complica quando percebemos a certo ponto que Orlando é vários.

Confusos? Sinto que o que vou escrever a seguir vai ser uma comparação triste da minha parte mas aqui vai: pensem em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos. Orlando é vários porque dentro dele/dela vivem vários “eus”.

Consta que este livro, e vou citar o maravilhoso posfácio da minha edição (escrito por Peter Aykroyd), é “uma carta de amor a Vita Sackville-West”. Como sou assumidamente uma romântica incurável e, como tal adoro um bom romance (e um bom mexerico), fui investigar. Parece que as duas autoras (e integrantes do famoso Grupo Bloomsbury) se conheceram no inicio da década de 1920 após serem apresentadas pelo irmão de Woolf. Nasceu entre ambas uma amizade que posteriormente evoluiu para um romance que durou por anos. Para meu grande espanto, os maridos de ambas as autoras não só sabiam do affair entre elas, como não se importavam (já nesse tempo as coisas não eram o que costumavam ser). Woolf até escreveu no seu diário “a verdade é que uma pessoa tem espaço para vários relacionamentos”. Por falar no seu diário, este contém muitas entradas em que ela fala abertamente do seu relacionamento com Vita. Podem ler tudo online. O affair acabou por terminar no final da mesma década em que começou, mas as autoras continuaram amigas até à morte de Woolf.

Virginia Woolf escreveu no seu diário sobre Orlando: “E instantaneamente os típicos mecanismos de excitação inundaram a minha mente: uma biografia começando em 1500 e continuando até ao presente chamada Orlando: Vita; apenas com trocas de um sexo para o outro."

A questão para mim é que Orlando é muito mais que isso. E na verdade nunca ficamos a saber quem ele/ela é, porque ele/ela é vários e não é nenhum. Para mim há um momento do livro que é marcante e que se situa no sexto e último capítulo quando alguns dos “eus” de Orlando vêm ao de cima e são postos em confronto. Na verdade, o que é descrito é uma troca de “eus”. Eu nem sabia que era possível descrever isso, mas Virginia Woolf consegue claro. Nem devia estar surpreendida.

O filho de Vita referiu-se a Orlando como “a mais longa e encantadora carta de amor na literatura”. Concordo. Virginia Woolf imortalizou Vita com esta obra absolutamente gloriosa e se o que esteve na origem da mesma não foi amor, então não sei o que foi. Estou absolutamente encantada com este livro.

Na minha modesta opinião, Virginia Woolf superou-se. Fez o impossível. E fê-lo como se não estivesse a fazer nada demais. Ela ainda não deixou de me surpreender e ainda só li quatro dos seus livros. Mal posso esperar para ler os restantes.

E vocês? Ficaram convencidos? Motivados para ler “Orlando”? Recomendo-vos muito que o façam. Ainda por cima esta edição da Relógio d’Água só custa 7 euros e meio. Não é de aproveitar? Corram à livraria mais perto e comprem! Ou no mínimo, metam na vossa lista de leituras. Não se vão arrepender.

 

Idioma de leitura: Português

 

3,5

 

Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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