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A Outra Menina Bennet

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04
Mar19

“Os Irmãos Karamázov”, Fiódor Dostoiévski - superável?

Sofia

“Vivemos pouco tempo na terra, fazemos muitas coisas más e dizemos muitas palavras más. Aproveitemos por isso o bom momento deste nosso convívio para dizermos uns aos outros uma boa palavra. Assim faço eu: enquanto estou neste lugar, aproveito o meu momento.”

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Séculos e séculos e séculos. Foi esse o tempo que passei a convencer-me “a seguir vou ler os “Karamázov"”, e nunca lia! Finalmente aconteceu e, contra a minha própria crença, acabei num instante, e cá estou eu. Na verdade, terminei há já duas semanas, mas até hoje, não tive bem a certeza se queria mesmo falar sobre o livro, mas a minha vontade de querer dizer que toda a gente tem de ler esta obra triunfou. 

 

Os Irmãos Karamázov tem uma premissa familiar na literatura. Trata daquele a que eu costume chamar "o golpe mais velho da lietratura": um pai e um filho em conflito por uma senhora. Mas é muito mais do que isso. São três os irmãos e cada um deles ilustra um tipo diferente de indivíduo: o Dmitri, que nunca tem dinheiro porque o gasta numa vida leviana e desregrada de folia, o Ivan, mega intelectual e racional, e o Aleksei, que como certa vez lhe chamam, é um "místico". Fiódor, o pai, é literalmente o pior pai que alguma vez existiu. É com Dmitri que entra e conflito. Quando Fiódor é assassinado, Dmitri é acusado e julgado pelo crime. É à volta deles e desse acontecimento atroz que gira a narrativa, sendo em função disso que foram expostas algumas das reflexões, dilemas e problemáticas mais complexos e interessantes que já tive o prazer de ler. 

Francamente achei esta obra uma das maiores realizações literárias de sempre e não sei até que ponto pode ser superável. É mesmo muito boa. E tem diversos assuntos, perspetivas e interpretações em diálogo e confronto. Não podemos separar os acontecimentos da narrativa ficcional do contexto histórico da obra, por exemplo, e muito menos da interpretação filosófica ou até do significado teológico.  

Em parte, era devido a esta multiplicidade de interpretações que eu não tinha bem a certeza de querer falar sobre o livro. Não me sinto muito segura acerca do que dizer. Sei o que entendi e sei o que significou para mim, mas nunca me sinto muito bem em explicar isso. Além disso, não quero influenciar a leitura de ninguém. Acho que devem ser individuais. Ainda para mais, cada obra toca as diferentes pessoas de diferentes maneiras, cada uma “fala” (ou não) connosco de forma bastante individual tendo em conta quem somos. 

Porém, eis algumas opiniões bastante pessoais: 1 - não me parece que o autor tenha sido uma pessoa muito feliz e lamento. Nota-se que era uma pessoa atormentada com pensamentos e questões que não conseguia compreender ou resolver; 2 – a questão do castigo na obra é muito importante. Pessoalmente, não acho que sejamos sempre e obrigatoriamente castigados por tudo aquilo que fazemos. Também não acho que esse seja o pior castigo. Acho sinceramente que os piores castigos veem dos atos que não cometemos, sejamos deles acusados ou não; 3 - várias vezes na obra há referências à mentira e nota-se uma apologia ao “não mentir". A mim não me parece que seja possível viver num mundo sem mentiras, e muito menos viver sem mentir. Parece-me anti-natural, até porque a mentira é muitas vezes uma questão de sobrevivência, quer literal quer metaforicamente; 4 – a oposição razão vs. paixão e as histórias de amor. Meu Deus, como grande romântica não podia estar mais satisfeita. De facto, estou tão satisfeita com a paixão "karamazoviana” e com o plot romântico que nem quero falar sobre isso; 5 - relativamente a uma das premissas mais citadas e associadas à obra, que sem Deus e sem a instituição religiosa, tudo é permitido, eu concordo. Sempre achei a religião um advento extraordináriamente importante devido à questão do conforto emocional e do controlo social. Mas, dentro de mim, sei no que acredito. Não penso que aceitar o facto de que tudo é de facto permitido seja abrir um “portal do mal”. Acho que sabermos que tudo é permitido, mas aceitarmos que nem tudo é aceitável é sinal de bom-senso e altruísmo. É muito fácil alguém desejar fazer algo mau e não o fazer porque tem medo das consequências legais e espirituais. Acho é incrivelmente difícil alguém saber que isso não tem expressão e mesmo assim pensar no outro e no coletivo. Essa é a pessoa altruísta. Não vivemos aqui sozinhos. Mas, por favor, digam-me as vossas opiniões!

Literalmente não consigo dizer-vos vezes suficientes que não só podem ou devem, como têm de ler Os Irmãos Karamázov. Foi uma das melhores obras que já li. É uma coisa absolutamente genial e tem de ser lida. Nem sequer é difícil de acompanhar. Não há mesmo desculpas! Sim, é bastante grande, mas como vos, disse lê-se num instante, é super cativante. E sim, é absurdamente cara, mas sempre podem requisitar ou ler online. Apesar de ser um ótimo investimento. Não têm ideia do arrependimento que sinto de não ter lido isto há mais tempo. A sério, têm mesmo de ler Os Irmãos Karamázov! Mesmo, mesmo, mesmo! Não percam mais tempo! 

 

Idioma de leitura: Português 

 

5/5 

 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, viagens, tragédias, chuva e chocolate.

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