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A Outra Menina Bennet

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09
Set19

“Salomé", Oscar Wilde – tragédia que é tragédia tem algo de grego

Sofia

“Não é sábio encontrar significado em tudo o que se vê. Tal torna a vida demasiado repleta de terrores.”

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Oscar Wilde é muito conhecido. O que não se sabe tanto sobre si é que, ao contrário da crença comum, ele não escreveu maioritariamente prosa. De facto, a conhecida obra O Retrato de Dorian Gray é um caso único na sua vida artística. Essa obra, uma das minhas prediletas, foi aquela que me introduziu ao autor e foi devido a ela que comecei a ler outras coisas de Wilde, sobretudo peças, contos e poemas já que, confesso, ainda não tive oportunidade e, sobretudo, curiosidade, de ler uma das suas novelas, embora tenha vontade de ler O Fantasma de Canterville. Talvez num futuro próximo, por agora, Salomé

 

Salomé é uma peça de teatro inicialmente publicada em francês em 1891 sendo apenas traduzida e publicada em inglês três anos depois. A peça narra, num ato isolado, uma história de base bíblica. Salomé, filha de Herodias e enteada do rei Herod, após ser desafiada pelo seu padrasto a dançar (o que hoje se conhece como “dança dos 7 véus"), pede como recompensa por tal dança, a cabeça de Jokanaan, um profeta. O seu pedido é atendido apenas porque ela se certificara antes de dançar de que poderia obter qualquer coisa que pedisse em troca da referida dança. Mas pode alguém sair triunfante após provocar a morte de um profeta? 

Durante o processo de leitura não consegui parar de pensar que a história era incrivelmente semelhante a qualquer tragédia grega de que me conseguisse lembrar. Na verdade, o autor foi notável pelo seu interesse académico nas peças da antiguidade clássica, o que pode explicar a sua inspiração para escrever dentro do mesmo estilo. Além disso, conto-vos que, além do interesse por peças clássicas, Wilde interessou-se por esta história de Salomé em particular. Bastante mesmo. Para este interesse parece ter contribuído o conto Herodias de Flaubert e a representação da figura de Salomé pelo pintor francês Gustave Moreau cuja história e descrição foi posteriormente elaborada por Joris-Karl Huymans (em À Rebours). 

Como qualquer tragédia grega, também a peça de Wilde tem uma base anterior que lhe rouba a originalidade total. Como vos disse a história de Salomé é bíblica. Não quero elaborar muito acerca disso porque, de resto, essa história parece ser apenas uma inspiração e nada mais. Além disso, é uma narrativa relativamente conhecida e eu não quero cometer nenhum erro em relação a ela. Ao interesse da compreensão da história aqui em questão vale a pena contar que estas personagens de facto existiram. John, the Baptist, um pregador itinerante na Judeia que pregava essencialmente aos judeus, aqui na figura de Jokanaan, realmente existiu e Herodias, por intermédio da filha Salomé, conseguiu provocar a sua morte em 26 d.C, sendo a cabeça de John, the Baptist entregue numa bandeja de prata, tal como na história de Wilde. Tudo o resto na peça Salomé foi, claro, romantizado. E, na minha opinião, muito bem romantizado. 

Gostei imenso da maneira como Wilde conduziu a história. Contou-a de forma tão poética e trágica que não conseguimos ignorar a clara influência do Romantismo que à época era tão importante e apreciado. Wilde acabou também, por conseguinte, por transformar o motivo principal da trama. Se na história hipoteticamente “real”, a cabeça de John, the Baptist teria sido pedida por motivos políticos (claro), nesta peça deixa-se antever um possível amor platónico e não correspondido de Salomé por Jokanaan. Claro que eu adorei esta alteração.  

Destaco também a inclusão e importância dada à dança e a quase obsessão de Salomé com a sua castidade e com a importância da mesma, acrescentos que considero serem mais simpáticos ao século XIX que recebia a peça de Wilde do que propriamente à época em que teriam vivido estas personagens.  

Por fim, destaco, sob a mesma aura do Romantismo, a importância e o significado da lua. Tudo o que é para nós misterioso e inacessível fascina e encanta e a lua continua ainda hoje a ser nesse campo um objeto válido. A quem é que a lua não cativa? Em Salomé a importância da lua prende-se com o desenrolar da ação. Quando Salomé se encontra, no início, com Jokanaan, estamos em lua branca; aquando da dança de Salomé e decapitação de Jokanaan, ou seja, no centro da ação, estamos sob uma lua vermelha; no fim, quando a trama conclui, a lua está escondida por uma nuvem negra. Como veem a lua e as suas diferente e sugestivas fases acompanham a ação. Além disso, nem que não leiam a obra, leiam as maravilhosas e poéticas descrições da lua que Wilde faz logo no início. São lindíssimas. 

Em suma, não há como não recomendar Salomé. É acessível, bonita e de dimensõe tão reduzidas que é quase crime não ler. Além disso, a história é quase real! Isso não é apelativo para vocês? Eu sinto sempre que a veracidade ou a declarada inspiração real de uma obra contribui muito para a minha curiosidade, afeição e preferência pela mesma. Mas pode ser uma coisa só minha. De qualquer forma, Salomé vale a pena. Se puderem, não deixem de ler! 

 

Idioma de leitura: Inglês 

 

3,5/5 

 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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