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A Outra Menina Bennet

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15
Jun20

“Terna é a Noite”, F. Scott Fitzgerald

Sofia

Na verdade, esse é o meu segredo — nem sequer consigo falar sobre ti com outras pessoas porque não quero que mais ninguém saiba o quão maravilhoso és.

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Apesar de The Great Gatsby ser um dos meus livros preferidos confesso que, tirando alguns contos e um poema aqui ou ali, nunca tinha mais nenhuma obra de Fitzgerald. Este ano, por alguma razão, lembrei-me desta falha e comprei os 3 romances deste autor que me restavam ler. Comecei por Terna é a Noite.

 

Terna é a Noite foi publicado em 1934 e acompanha o casal Dick e Nicole Diver. Quando a narrativa inicia, os Diver encontram-se, com alguns amigos, hospedados no sul de França onde conhecem Rosemary, uma promissora aspirante a atriz, que se apaixona por Dick e se torna próxima de Nicole. A história foca a partir daí a relação do casal com Rosemary. Simultaneamente, o assassinato de um homem negro descoberto no quarto de hotel de Rosemary que leva Dick a tentar esconder o sucedido para proteger a carreira de Rosemary oferece outra linha narrativa à obra. Além disso, a narrativa beneficia de uma analepse que permite descobrir o passado de Dick enquanto psiquiatra e o início controverso da sua relação com Nicole, então uma jovem herdeira e paciente de um colega seu. À medida que a obra se aproxima do fim lemos sobre o declínio pessoal e profissional de Dick que se segue à consumação do caso amoroso com Rosemary e controvérsias com a lei que o conduzem a problemas emocionais e de alcoolismo que originam dificuldades com os seus pacientes e com a manutenção da sua clínica e um distanciamento em relação a Nicole que faz com que esta comece a reconhecer e a aproveitar uma independência que nunca pensara possuir, conduzindo tudo isto a um fim esperado.

É do conhecimento geral que a obra é levemente baseada em pessoas e em factos reais. Os Diver baseiam-se em Gerald Clery Murphy e Sara Sherman Wiborg, um casal americano abastado a viver na Riviera francesa célebre por acolher um círculo social dinâmico constituído por artistas e escritores e pelas suas exuberantes e glamourosas festas. Além disso, supõe-se a inspiração da vida pessoal de Fitzgerald e da sua esposa, Zelda Fitzgerald nos Diver. Como se sabe, como Nicole, também Zelda foi diagnosticada com problemas do foro emocional e, como Dick, também Fitzgerald acabou por imergir numa espiral descendente. Para Rosemary, a atriz Lois Moran, com quem Fitzgerald teria tido um caso romântico, terá sido a inspiração. Também, eventos como aquele em que Dick é agredido por policias terão uma relação com a vida real do autor.

Existem muitos temas na obra que poderiam ser mencionados e discutidos, mas eu gostava apenas de sublinhar dois aspetos que me cativaram particularmente. Em primeiro lugar, aquela aura glamourosa que enleia aparentemente qualquer coisa que Fitzgerald escreva. Não sei bem como ele consegue esse efeito, mas não conheço mais nenhum autor que o faça. Digo-vos que este autor pode estar a narrar a coisa mais banal que se possa imaginar e mesmo assim consegue que tal surja como algo nostalgicamente fino e elegante. Sinceramente, acho que é uma das suas conquistas por lhe marcar o estilo e facilitar o reconhecimento público. Depois, gostava de destacar as figuras de Nicole e de Rosemary e o modo como ambas influenciam a vida de Dick. O que me agradou foi a evolução na direção oposta delas em comparação com ele. No início, ambas servem os interesses dele — Nicole por ser a esposa modelo e Rosemary por ser a jovem ingenuamente apaixonada—, ambas gravitam em torno dele — Nicole ainda tão dependente dele como quando era sua paciente e Rosemary expressando-lhe sistematicamente o seu enlevo. Nessa altura, ele ascende em todos os aspetos, mas depois, quando elas adquirem uma existência própria e uma independência que antes não possuíam — Nicole influenciada pelo interesse de outro homem e Rosemary pela nova vida como estrela de Hollywood —, ele inicia o seu declínio. Não vou falar sobre a simbologia disto, mas achei interessante que ocorra com as duas personagens e que enfatize a dependência do protagonista em relação a elas.

Fitzgerald estava convencido de que Terna é a Noite era o seu melhor romance e acreditava que, tanto público como crítica pensariam o mesmo, preferindo-o inclusive ao seu romance mais popular então, The Great Gatsby. Na verdade, isso não se verificou e Terna é a Noite encontrou até alguma resistência, o que teria surpreendido o autor. Apenas mais tarde lhe foi sendo atribuído o mérito que o autor lhe reconheceu. Pessoalmente, creio que a principal diferença está no facto de The Great Gatsby ser simplesmente mais cativante e naturalmente mais próximo do público pela empatia e simpatia que gera. Quanto a Terna é a Noite, penso que realmente é superior em aspetos mais “técnicos”, na medida em que parece mais cuidada e calculada e menos espontânea e complexa. No geral, nem acho que possamos comparar as duas e apenas faço este paralelo a título de curiosidade e pelo facto do autor ter suscitado a comparação.

Porém, em boa verdade, também não posso acabar sem dizer que, enquanto lia Terna é a Noite me lembrei muitas vezes de The Great Gatsby. Há muitos aspetos semelhantes: a imagem de glamour americano e de esplender ingénuo que, como referi antes, associamos sempre com Fitzgerald; o casal Diver e a sua envolvência que recorda muito Daisy e Tom de The Great Gatsby; a ocorrência de um crime; a questão do adultério e as visões românticas em relação ao amor e o fascínio a si associado; e, claro, a ascensão e declínio social, profissional e pessoal do indivíduo. Para não mencionar a crítica social à realidade e ao sonho americano.

No geral e em suma, gostei muito de ler Terna é a Noite. É muito naquele género Fitzgerald que fascina quase todos os leitores em The Great Gatsby e não me parece que quem goste dessa obra, não goste desta. Quais são as vossas opiniões? Já leram Terna é a Noite? Gostam do estilo de Fitzgerald?

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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