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A Outra Menina Bennet

A Outra Menina Bennet

21
Jan19

“the princess saves herself in this one”, Amanda Lovelace – vamos ter uma conversa séria

Sofia

“A princesa saltou da torre e aprendeu que podia voar” 

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Admito já que a única coisa que me levou a ler este livro foi o título. E a recomendação do Goodreads que por alguma razão achou que isto se enquadrava nos meus hábitos de leitura. Uma evidente prova de que as máquinas não são assim tão fidedignas e nunca substituirão o cérebro humano. Mas enfim, não vou por aí. A única razão pela qual decidi falar deste livro aqui é por achar que está mais do que na altura de termos de ter uma conversa séria sobre aquilo a que hoje em dia chamamos poesia. Conversa que devia ser a nível global. 

the princess saves herself in this one é uma coleção de, segundo a autora, a editora e a crítica que se deu ao trabalho de a ler, poesia. São vários “poemas” divididos em 4 capítulos (a princesa, a donzela, a rainha, tu) que contém várias alusões (básicas) a contos de fadas combinados com episódios da vida da autora e do contexto da mulher do século XXI. 

É-vos familiar? Pois é. Faz lembrar, aliás não é “faz lembrar”, é exatamente a mesma estrutura, o mesmo contexto, o mesmo tema e, pasme-se, a mesma utilização de minúsculas em vez de maiúsculas, das coleções de “poesia” de Rupi Kaur Leite e Mel e O Sol e as suas Flores das quais eu falei aqui no blog. Todas elas apelidadas de poesia. Vou ser honesta, da primeira – Leite e Mel -, eu até gostei. Achei diferente e nem liguei que fosse considerado “poesia” porque nunca me passou pela cabeça que surgissem mais. A verdade é que continua a acontecer. Lovalace já publicou mais duas destas “coleções de poesia" - the witch doesn’t burn i this one e the mermaid’s voice returns in this one. Mais, foi considerada “poetisa do ano” pelo Goodreads. 

Eu quero deixar claro que eu não desgosto do que está escrito. E acho a ideia de mesclar elementos (ainda que básicos) dos contos de fadas que todas as meninas adoram com problemas da mulher contemporânea boa. Porém, isto não é poesia

Digo-vos porquê: não tem estrutura, não tem rima, o uso de pontuação é francamente básico, o vocabulário é fraco, o uso de minúsculas como afirmação não sei de quê é desnecessário, etc etc etc. Os problemas não acabam. Além disso, nota-se que alguns temas, nomeadamente sociais, estão ali forçados no meio, vêm do nada. Nem sequer há o contar de uma história. Na minha opinião estes “poemas” são apenas frases soltas ou reflexões, o que lhe queiram chamar, escritas em minúsculas e com "enter" a seguir a cada palavra. Muito mais apropriadas para o tumblr do que para um livro. Aliás, para ser honesta, desconfio que já li tudo aquilo ou muito parecido no tumblr. Após pesquisar até descobri que a autora começou a escrever estas “frases” agora chamadas de “poemas” no tumblr. Coincidências? 

Eu não nego que algumas (escassas) coisas ali, são poéticas. São. O que acontece é que só por algo ser poético, não quer dizer que seja poesia. Então, todos somos poetas. Uma pessoa que estuda literatura, como é o caso da autora, devia saber isso. O que eu acho grave e ofensivo não são estas publicações, é o facto de serem vendidas como poesia. O facto de a autora ser considerada poetisa. O que está a acontecer?  

Acho que devem continuar a publicar estas “reflexões", sim. Há imensas pessoas que apreciam e já que não leem outra coisa, ao menos leem algo. Mas, por favor, vamos arranjar outro nome para isto. Recuso-me a colocar Lovalace e Kaur no mesmo “saco” de Byron ou Camões. É grave. 

Para ninguém pensar que eu estou a ser exagerada ou cruel, vou deixar em baixo um dos poemas da “coleção de poesia" de Lovelace ao lado do poema “Music, when soft voices die” de Percy Shelley, da segunda estrofe de “Annabel Lee” de Edgar Allan Poe e da primeira de “Tabacaria” de Fernando Pessoa respetivamente. Depois digam-se se estou errada. 

“the only thing          Music, when soft voices die,                    I was a child and she was a child,  
required                      Vibrates in the memory—                        In this kingdom by the sea,  
to be                           Odours, when sweet violets sicken,       But we loved with a love that was more than love—  
a woman                    Live within the sense they quicken.       I and my Annabel Lee—    
is to                                                                                                  With a love that the wingèd seraphs of Heaven
identify                      Rose leaves, when the rose is dead,       Coveted her and me.    (Poe)
as one.”                     Are heaped for the belovèd's bed;                   

(Lovelace)                And so thy thoughts, when thou art gone,  

                                   Love itself shall slumber on.  (Shelley)

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.   (Pessoa)

E para acabar, um poema escrito por mim:

Não 

Recomendo 

Leitura.

 

Idioma de Leitura: Inglês 

1/5 

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Mais sobre a Sofia

Estudante de Letras. Romântica Incurável. Perdida algures num sonho. Apaixonada por livros, chá, contos de fadas, tragédias e chuva. Entre Flores & Estrelas.

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