“Viagens na Minha Terra”, Almeida Garrett
A tudo se habitua o homem; a todo o estado se afaz; e não há vida, por mais estranha, que o tempo e a repetição dos actos lhe não faça natural.

Viagens na Minha Terra foi publicada em 1846 — primeiramente em folhetim, de 1845 a 1846 — e é muitas vezes considerada uma das obras mais relevantes do romantismo e do início do modernismo em Portugal. Para além de ser tida como extremamente inovadora, sobretudo considerando o seu período de composição e em virtude dos diversos estilos que engloba.
Tendo como pano de fundo a Revolução Liberal, em Viagens na Minha Terra, o narrador conta na primeira pessoa as suas viagens por Portugal e o romance entre Carlos e Joaninha. A viagem relatada é entre Lisboa e Santarém e terá sido inspirada na experiência do próprio autor. Já o romance ficcional entre Carlos e Joaninha é uma narrativa à parte que vai sendo contada ao narrador. Nessa história entram também Frei Dinis e D. Francisca, a avó dos protagonistas. Carlos e Joaninha são primos e haviam crescido juntos até Carlos ter partido para Inglaterra. Ele acaba por voltar na altura da guerra civil entre liberais e absolutistas e vê-se apaixonado por Joaninha, sentimento que é recíproco, mas dificultado pelo afeto que Carlos também nutre por outra mulher — Georgina — e pela situação familiar em que se vê com a avó e Frei Dinis.
Não vale a pena dizer que não é pelo romance entre Carlos e Joaninha que a obra é mais recordada ou que esse não é um dos seus aspetos mais cativantes. Ainda assim, gostaria de mencionar o quanto me impressionou a crítica de costumes e o retrato do nosso país à época que, devido ao estilo e às capacidades do autor, resulta extraordinariamente verossímil. Em minha opinião, esse é precisamente um dos fatores que mais destaca esta obra e que mais faz sobressair a sua inovação.
De facto, ao mesmo tempo que parece claramente encaixar no estilo e na estética romântica, também se pode dizer o mesmo relativamente ao que já preconiza do modernismo que se seguiu. É quase um diálogo permanente entre dois movimentos e estéticas. E isso ocorre em todas as suas vertentes. Em termos de estilo e abordagem, mas também no que concerne a narrativa. Há momentos em que recordou o estilo que viria a caracterizar posteriormente Eça de Queiroz. Neste âmbito, torna-se uma obra muito interessante.
O que menciono faz-me sublinhar o modo como existem nesta obra duas histórias — a do narrador e da sua viagem e a de Carlos e Joaninha que lhe é contada — e, na verdade, as duas retêm estilos diferentes (para além do conteúdo, claro) que, não obstante, se unem na crítica de costumes e no retrato de Portugal.
Além disso, destaco também a conceptualização de Carlos enquanto típico herói romântico. Não lhe falta um único aspeto dos que caracterizaram os heróis do período romântico.
Seria estranho dizer que não valorizo a obra pelo romance, porque foi, claro, a parte que mais me cativou — como penso que ocorre com a maioria dos leitores. Todavia, olhando agora para trás, o que mais aprecio é realmente a inovação estilística e estética e este encontro entre estilos e movimentos que me faz pensar na inovação que esta obra representa no contexto literário em que surge.
Ademais, não deixo de enfatizar a quantidade significativa de referências a outras obras, culturas, filosofias, etc, que tanto enriquecem a obra, denunciam os conhecimentos superiores do autor — sobretudo notáveis tendo em conta que a facilidade de difusão, circulação e educação não era em nada semelhante à nossa — e que explicam como escreveu uma obra tão importante.
